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Poltrona 36, a lenda homofóbica que persegue dois ex-jogadores do Grêmio

Bilica e Capone ficaram marcados por um boato da época em que defenderam o clube gaúcho. Rivalidade como pretexto para homofobia amplificou história espalhada há mais de 15 anos

Trovão Azul, o ônibus utilizado pelo Grêmio no ano do rebaixamento.
Trovão Azul, o ônibus utilizado pelo Grêmio no ano do rebaixamento.Leonardo Vieira

Tão logo se confirmou a tragédia anunciada, a anedota de contornos sensacionalistas correu em Porto Alegre. Dono da pior campanha, com apenas 28% de aproveitamento e 80 gols sofridos em 46 jogos, o Grêmio foi rebaixado no Campeonato Brasileiro, em 2004, mas o peso do fiasco da temporada recaiu sobre os ombros de dois jogadores. Pelo boato propagado por dirigentes, torcedores e imprensa, os zagueiros Fábio Bilica e Capone teriam praticado sexo oral dentro do ônibus que transportava a delegação na volta de uma partida. O suposto episódio, jamais confirmado, ficou conhecido como “poltrona 36” e, além de ter atrapalhado suas carreiras, continua perseguindo ambos os alvos da galhofa homofóbica.

Há 15 anos, Bilica chegava à Alemanha para disputar a segunda divisão pelo Colônia. Titular da seleção na Olimpíada de Sydney, em 2000, ele não recebeu propostas de outros times nacionais após ter sido dispensado do Grêmio. Marcado pelo rebaixamento e o alardeado escândalo sexual no Rio Grande do Sul, ainda passou pela terceira divisão francesa e o futebol da Romênia até chegar à Turquia. Só conseguiu dar uma reviravolta na carreira ao ser contratado pelo Fenerbahçe, em 2009, onde foi campeão turco. O retorno ao Brasil aconteceu em 2017, aos 38 anos, para defender o Auto Esporte, da Paraíba. Desde então, tem rodado por times pequenos como o América de Pedrinhas, rebaixado para a segunda divisão sergipana, que ele defendeu no início deste ano.

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A sequência pós-Grêmio de Capone foi ainda mais tortuosa. Também dispensado, o zagueiro revelado pelo Mogi Mirim no início dos anos 90 com o célebre Carrossel Caipira enfrentou dificuldades para se recolocar inclusive em clubes menores. Depois de uma temporada desempregado, disputou o Campeonato Paulista de 2006 pela Portuguesa Santista. Novamente sem clube, a morte do pai foi o gatilho para que entrasse em depressão e perdesse o controle do peso. “Cheguei a bater quase 150 quilos. Não tinha mais ânimo para o futebol”, conta. Passados cinco meses de isolamento, decidiu emagrecer e voltou aos gramados pelo Londrina, mas logo penduraria as chuteiras, aos 35 anos.

Capone não guarda boas lembranças do Grêmio. Havia sido contratado no meio daquela temporada, ostentando o cartel de campeão da Copa do Brasil com o Juventude, em 1999, e do Campeonato Turco e Copa da UEFA pelo Galatasaray, além de passagens por São Paulo e Corinthians. Apesar de ter assumido a titularidade da zaga, a equipe tricolor despencou na tabela. Porém, o maior ressentimento pelo insucesso no Grêmio não foi o inédito rebaixamento, mas sim o boato que envolveu seu nome. “Essa história [da poltrona 36] nunca aconteceu”, diz o ex-jogador ao abordar o assunto pela primeira vez desde que deixou Porto Alegre.

Ele recorda que o rumor difamatório afetou diretamente sua família, sobretudo o casal de filhos. “Eles iam pra escola e escutavam os colegas fazendo piada com esse negócio da poltrona. A sorte é que sou muito bem casado. Minha esposa sempre me apoiou e acreditou em mim.” Devido ao impacto persistente em seu círculo pessoal, Capone avalia medidas judiciais para tentar barrar resultados de buscas por “poltrona 36” no Google, já que o boato segue rodando pela Internet e as redes sociais. “Até hoje as pessoas falam sobre algo que eu não fiz. Uma coisa constrangedora, que, de certa forma, também me prejudicou como jogador.” Bilica não retornou aos contatos da reportagem. Amigos do zagueiro afirmaram ao EL PAÍS que, assim como Capone, ele nega ter mantido qualquer tipo de relação sexual com companheiros de time.

A farra da discórdia

Em 6 de novembro de 2004, o Grêmio perdeu para o Paraná, em Curitiba. Chefiada por Hélio Dourado, ex-presidente e então diretor de futebol, a delegação decidiu voltar de ônibus para Porto Alegre. Jantaram em uma churrascaria à beira da estrada, em São José dos Pinhais, onde jogadores limparam o estoque de cervejas e encheram o frigobar do ônibus. Como de praxe ao longo daquele ano, uma parte do grupo improvisou um pagode no primeiro andar do veículo. Regada a bebida, som alto e cantoria, a farra varou madrugada durante todo o trajeto.

No andar de cima, viajaram Dourado, o supervisor Antonio Carlos Verardi e o treinador Cláudio Duarte, que havia assumido o cargo em outubro, além do restante da comissão técnica e atletas que preferiram descansar. A chegada ao antigo estádio Olímpico gerou polêmica. Primeiro a descer do ônibus, irritado com o barulho dos jogadores que o impedira de dormir, Dourado teria bradado aos setoristas que aguardavam o desembarque da delegação: “Esses putos vieram de sacanagem a viagem inteira”. O zunzum tomou conta das rodas de jornalistas, que já tinham suspeitado das algazarras promovidas pelo grupo na volta dos jogos.

Cláudio Duarte começou a estranhar a situação quando ouviu o questionamento de um repórter na semana seguinte: “É verdade que teve homossexualismo (sic) no ônibus?”. Àquela altura, o rumor havia se espalhado dentro do Olímpico. Alguns funcionários do clube debochavam do suposto ato sexual, até mesmo diante dos jornalistas. “Acredito que tudo não passou de um mal entendido, por interpretação equivocada das falas de um dirigente”, diz Duarte. “Sempre tinha pelo menos um membro da comissão técnica monitorando os jogadores, seja no andar de cima ou de baixo do ônibus. Ninguém relatou comportamento inapropriado nas viagens.”

Segundo Capone, ele costumava viajar na parte inferior e participar da resenha com os companheiros. “A gente ficava de boa, tomando uma cerveja. Nada demais.” Ainda em novembro, o Grêmio acabaria rebaixado com três rodadas de antecedência. Sem chances de salvação, dispensas foram promovidas, entre elas a de Capone. Antes, Bilica já havia rescindido seu contrato. A saída quase simultânea dos titulares da zaga, que ainda disputaram duas partidas após a viagem a Curitiba, ajudou a alimentar o burburinho de que eles seriam os jogadores envolvidos na intriga sobre a poltrona. Mas Bilica foi demitido por outros fatores: o histórico de indisciplina —desapareceu dos treinos por quase uma semana, sem dar justificativa, às vésperas do jogo contra o Paraná, e discutiu com o treinador— e uma suspensão que o deixaria fora de três das quatro últimas partidas do time no campeonato.

Presidente do Grêmio na época, Flávio Obino tentava desviar os holofotes dos maus resultados da equipe com declarações inusitadas. Depois da derrota para o Paraná, revoltou torcedores ao dizer que “nosso estádio está bonito, nosso site é maravilhoso e nosso ônibus, excelente”. O dirigente com fama de pé frio gostava de se vangloriar que o Grêmio foi o primeiro clube do Estado a ter um ônibus próprio. Batizado de Trovão Azul, o veículo de dois andares da marca Busscar tinha motor Volvo, pintura com emblemas tricolores e poltronas leito para proporcionar conforto aos atletas. Gremistas tripudiavam alegando que, se ônibus ganhasse jogo, o time não teria caído para a segunda divisão.

“Uma mentira repetida mil vezes”

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Em dezembro, Paulo Odone venceu a eleição para presidente do Grêmio como candidato da oposição. O grande assunto entre conselheiros em sua posse foi um dossiê misterioso sobre as causas do rebaixamento. Na verdade, se tratava de um relatório informal elaborado por Hélio Dourado, que listava ao futuro presidente os contratempos que enfrentou à frente do departamento de futebol, de episódios de indisciplina a frequentes atrasos de salário. “Vivemos todo tipo problema naquela temporada”, conta Cláudio Duarte. O boato do escândalo sexual também pautou conversas nos bastidores da festa, mas ganhou corpo a partir da publicação de um texto de opinião.

Na virada do ano, Adão Oliveira, reconhecido jornalista de política, escreveu em sua coluna no Jornal do Comércio o artigo “A poltrona 36”, remetendo a uma música da dupla sertaneja João Mineiro e Marciano. Com base em relatos de fontes que acompanharam a posse de Odone, o colunista expôs que um dirigente teria flagrado a prática sexual na última poltrona de uma das fileiras de cima do Trovão Azul, a de número 36. “Dois jogadores, desolados com a derrota ou alheios a ela, se consolavam. Escandalosamente”, registrou em tom de deboche. Oliveira não citou nomes, mas torcedores rivais, influenciados por rumores que já haviam extrapolado as paredes do Olímpico, associaram o episódio retratado no jornal aos dispensados Bilica e Capone.

A chacota se estendeu a mesas redondas da imprensa gaúcha —especialmente o Sala de Redação, tradicional programa da Rádio Gaúcha— e até a dirigentes do Inter, maior rival do Grêmio. Em 2009, ao apresentar o novo ônibus do clube, o presidente colorado Vitorio Piffero brincou com o fato de o veículo não ter a poltrona 36. Mais tarde, explicou que a ausência se devia ao layout do ônibus, que prescindiu de alguns lugares no fundo para instalar duas mesas de reunião. Torcedores do Inter adotaram a história como provocação homofóbica a gremistas, com direito a faixas e cânticos na arquibancada.

Com o tempo, o episódio, que não chegou a virar notícia nos jornais esportivos locais por falta de provas, impregnou-se no imaginário popular a ponto de ser descrito por ex-funcionários do Grêmio como fato incontestável em programas de TV. “Essa é uma história muito famosa no Rio Grande do Sul. Os jogadores faziam suruba dentro do ônibus. Mandaram todo mundo embora”, disse Mário Sérgio no Fox Sports. O ex-técnico, que morreu no acidente aéreo da Chapecoense, assumiu a diretoria de futebol do Grêmio em 2005 com a missão de reconstruir o elenco para a Série B. “Rolou uma história lá... Comentário forte de vestiário, que dois jogadores acabaram fazendo certas coisas. Eu jogava no Grêmio, mas não vi nada”, afirmou Michel Bastos à ESPN. O ex-lateral integrou o plantel tricolor em 2004. No entanto, estava afastado por indisciplina na época da viagem a Curitiba.

Nenhum jogador ou cartola declarou publicamente ter testemunhado o suposto ato sexual. Personagens centrais dessa trama, como os dirigentes Hélio Dourado e Antonio Carlos Verardi e o jornalista Adão Oliveira, morreram sem nunca apresentar evidências sobre o caso do ônibus. “Uma mentira repetida mil vezes se torna verdade”, diz Cláudio Duarte. “Esse papo de poltrona 36 é lenda, fake news.” Vivendo em sua chácara, em Mogi Mirim, Capone lamenta que a carreira vitoriosa se resuma, para muitos torcedores, a uma falsa acusação perpetuada na Internet e nos estádios. “Precisavam achar culpados pelo rebaixamento. Infelizmente, Bilica e eu ainda pagamos esse preço.” Em 2009, o modelo de dois andares do Trovão Azul foi aposentado pelo Grêmio e vendido a uma rede bancária.

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