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A ascensão do Manthiqueira, o time que se inspira em Kant e no Carrossel Holandês

Time que já foi o único treinado por uma mulher em São Paulo, finalmente consegue subir de divisão – prega ética em campo, com jogo sem malandragem, e respeito ao juiz

Manthiqueira futebol
Dado comemora acesso do Manthiqueira. Divulgação

Aos 56 anos, Geraldo Márgelo de Oliveira, mais conhecido como Dado, é uma espécie de “Mujica do futebol” em Guaratinguetá. Presidente e fundador do Manthiqueira, que, após 12 anos de existência, conseguiu subir para a terceira divisão do Campeonato Paulista há duas semanas, ele dispensa carros de luxo, mora em casa simples e leva uma vida sem ostentação. Praticamente todas as suas economias foram investidas no clube – e na causa – que encampou. “O Manthiqueira é mais que um time de futebol. É uma filosofia de vida”, repete.

Muita gente em Guaratinguetá costuma chamar Dado de louco. Ele assume a fama com naturalidade. “Sempre fui meio louco mesmo. Não abro mão de ética e honestidade no futebol. E, no mundo egoísta em que vivemos, isso parece ser uma loucura mesmo.” Depois de quase fechar as portas do clube no ano passado, por causa de dívidas que somavam mais de 1 milhão de reais, o Manthiqueira enfim deixou a última divisão paulista após superar o União Mogi nas semifinais. Contando com algumas pitadas de “loucura” de seu presidente.

Por ideia de Dado, o técnico Luís Felipe fez uma opção inusitada: escalou o zagueiro Léo Turbo como atacante no jogo decisivo contra o Osvaldo Cruz, nas quartas de final. O Manthiqueira venceu por 1 a 0. Gol de Léo Turbo. Essas e outras maluquices do presidente têm fundamento. O clube se inspira na lendária Laranja Mecânica, a seleção da Holanda que encantou o mundo na Copa de 1974. O escudo do time homenageia Rinus Michels, o revolucionário treinador do Carrossel Holandês, e o uniforme laranja não é por acaso. “Aquela Holanda de 74 dominava os fundamentos do futebol, errava poucos passes, e os jogadores conheciam bem todas as posições. Desempenhavam qualquer função tática. É a grande referência do Manthiqueira”, explica Dado.

A cartilha de conduta do Manthiqueira. ampliar foto
A cartilha de conduta do Manthiqueira.

No centro de treinamento do clube, uma enorme cartilha dá logo o recado aos novos jogadores. Nela, estão listados os mandamentos que todos os funcionários devem seguir. “Malandragem proibida”, diz a primeira regra. O Manthiqueira preza pelo jogo limpo e não admite que seus atletas tentem simular faltas para enganar a arbitragem. “A corrupção de nossos políticos reside nos pequenos desvios de comportamento que não condenamos como sociedade. Podemos mudar essa postura. Por que não começar no campo de futebol?”, diz o presidente. Além da Holanda, a outra inspiração de Dado são os princípios éticos pregados pelo filósofo Immanuel Kant. Por isso, seus jogadores recebem orientação para se acusarem ao árbitro em caso de uma infração cometida de forma intencional – o gol de mão marcado por Jô contra o Vasco, por exemplo, jamais seria tolerado no Manthiqueira – e a respeitar a autoridade do juiz.

Dado também afirma que o clube fundado por ele é laico. Em vez da típica oração antes de entrar em campo, os jogadores meditam em silêncio durante dois minutos para respeitar todas as religiões. A diversidade é uma das principais bandeiras do Manthiqueira. Tanto que, ao longo de cinco anos, foi o único clube masculino de São Paulo treinado por uma mulher. Quando contratou Nilmara Alves, Dado ouviu de torcedores e empresários da cidade que a ideia de colocar uma mulher para treinar homens seria um fracasso. Mesmo depois de sofrer duras derrotas, Dado a manteve no comando e, em 2015, o time alcançou um histórico sexto lugar na quarta divisão paulista.

Time laico: jogador do Manthiqueira faz sua oração em silêncio no vestiário.
Time laico: jogador do Manthiqueira faz sua oração em silêncio no vestiário.

Nilmara só deixou o cargo nesta temporada porque foi aprovada em um concurso público em outra cidade e preferiu abrir mão da carreira no futebol. Dado a escolheu para comandar seu time porque entendeu que seus princípios casavam com os do clube. “Ela tem uma sensibilidade enorme e ótima visão de jogo. Vejo o jogador de futebol como um artista. E, assim como eu, a Nilmara também gosta de futebol ofensivo, dá liberdade para que o atleta exerça sua individualidade. Ela deixou um grande legado no Manthiqueira e segue nos ajudando como consultora. Nossa boa campanha este ano tem o dedo dela.”

Neste sábado, o Manthiqueira celebrou a ascensão com o primeiro título de sua história. O time derrotou o São Bernardo por 2 a 1 na final da quarta divisão. Todavia, o troféu para Dado é algo secundário. Ele quer que seu clube seja visto, sobretudo, como um exemplo a ser seguido. “Nossa missão é levar uma mensagem de otimismo e igualdade ao mundo”, afirma o presidente. “Não quero que façam com os outros o que não gostaria que fizessem comigo. Meu maior orgulho é ter alcançado a vitória sem nunca precisar de um gol de mão ou jogada irregular. Assim como na vida, é possível vencer com ética no futebol.”

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