Grêmio, o time copeiro que se rendeu ao futebol ofensivo para conquistar a América

Sem perder a alma de clube brigador, o tricolor gaúcho chega ao tri da Libertadores esbanjando técnica e toque de bola refinado

Gremio tricampeao Libertadores
Fernandinho e Luan marcaram na final contra o Lanús. Reuters

 “O nosso 10 é o 5”. A frase difundida com orgulho por muitos torcedores do Grêmio representa a histórica identidade gremista. No tricolor, o camisa 5, primeiro volante da equipe, responsável por comandar a marcação e empolgar a torcida com jogadas duras, costuma ser mais idolatrado que o meia clássico, camisa 10, referência na criação de jogadas. Tal sentimento traduz uma preferência inusitada por torcer para um time competitivo, “copeiro” – aquele que se dá bem em Copas e mata-matas – e “peleador”, muito presente na cultura tricolor de Porto Alegre. Mas, antes mesmo da vitória sobre o Lanús por 2 a 1, em pleno estádio La Fortaleza, na região metropolitana de Buenos Aires, com uma aula de futebol, jogadas trabalhadas de pé em pé e golaços, o Grêmio já demonstrava uma brusca virada em seu lendário estilo brigador.

Roger Canal, integrante da Tribuna 77, uma das torcidas do Grêmio, ressalta, porém, que o simbolismo às vezes sobrepõe a realidade. “Se fizermos um recorte dos times vencedores do Grêmio, dos anos 70 para cá, eram times que transpiravam muito, mas também eram muito técnicos”, diz. “Mesmo o Dinho [camisa 5 da Libertadores em 1995 e ícone de um futebol viril] não errava um passe”. Roger, porém, concorda com a fama aguerrida do clube: “Historicamente, a conexão do Grêmio com o futebol argentino e uruguaio trouxe essa raça para o nosso DNA”.

As últimas temporadas do Grêmio, no entanto, contrariaram esse DNA. Nelas, a equipe passou por uma mutação e se notabilizou no cenário nacional pelo futebol ofensivo e o eficiente toque de bola. O novo estilo deu resultado: nos últimos dois anos, além de campanhas consistentes no Brasileirão, o tricolor gaúcho venceu uma Copa do Brasil e ganhou sua terceira Libertadores, justamente competições onde o sucesso gremista era atribuído ao modo de jogar conservador da equipe. Essa transformação passa pelos dois treinadores que o Grêmio teve nos últimos anos, Roger Machado e Renato “Gaúcho” Portaluppi, além de nomes que integraram a coordenação técnica, como Valdir Espinosa, e setores responsáveis pela análise de desempenho da equipe, referência no Brasil. O Grêmio foi o primeiro clube do país a ter um departamento com essa especificidade. Atualmente, a principal função do setor inaugurado em 2006 é passar dados elaborados sobre qualquer adversário, assim como sobre o próprio Grêmio, aos jogadores, para que possam estudá-los; embora, recentemente, o departamento de análise tenha divergido de alguns métodos impostos pela diretoria e a comissão técnica gremista, liderada por Renato Gaúcho.

Roger Machado chegou sob desconfiança. O ex-jogador havia treinado apenas Juventude e Novo Hamburgo quando substituiu o ídolo Felipão, símbolo do velho DNA gremista, em 2015. Com um perfil estudioso, ele não demorou para aplicar um modelo de futebol baseado na compactação e na posse de bola, que superou a resistência de torcedores com bons resultados. O mais significativo deles foi em 9 de agosto daquele ano: na Arena do Grêmio, a equipe de Roger goleou o Internacional por 5 a 0 no maior clássico do sul do país. “O estilo de jogo do Grêmio começou a mudar com Roger, que logo conquistou o suporte fundamental da torcida”, comenta o ex-jogador Tcheco.

Quatro dias depois do Grenal, contra o Atlético-MG, o trabalho de Roger foi exemplificado por um dos gols recentes mais emblemáticos do futebol brasileiro: trocando passes desde o campo de defesa, os gremistas envolveram os atleticanos em uma bonita jogada que terminou com o gol de Douglas. A partida, vencida por 2 a 0 pelo Grêmio, evidenciou a importância de um meio-campo formado por Wallace, Maicon, Giuliano e Douglas, além de titulares indiscutíveis como Galhardo e Luan. O clube terminou o Brasileirão daquele ano em terceiro lugar.

Roger desligou-se do Grêmio após um ano e quatro meses, pedindo demissão depois de má fase no campeonato. O treinador deixou o legado do jogo apoiado na troca de passes, mas sofreu no final da sua passagem após a venda de Giuliano, peça-chave no seu esquema, e a indefinição do parceiro de zaga de Geromel. Foram 93 jogos, 48 vitórias, 21 empates e 24 derrotas.

Torcida gremista comemora o tri em Porto Alegre.
Torcida gremista comemora o tri em Porto Alegre. Reuters

Dois dias depois da demissão, dois velhos conhecidos foram anunciados: Renato Gaúcho como treinador e Valdir Espinosa como coordenador. Ambos foram campeões mundiais pelo Grêmio em 1983 como jogador e técnico, respectivamente. Sem treinar ninguém desde 2014, Renato tinha um perfil que colocava em dúvida o estilo do ano anterior, já que parecia ser a antítese do estudioso Roger  – não à toa, meses depois, na entrevista coletiva após conquistar o título da Copa do Brasil, o treinador disse que “quem precisa aprender, estuda, vai pra Europa… Quem não precisa vai para a praia”. Olhando agora seu desempenho, porém, o aproveitamento é muito semelhante ao de seu antecessor: completou os mesmos 93 jogos de Roger na partida de ida da final da Libertadores contra o Lanús e acumulou 46 vitórias, 24 empates e 23 derrotas.

Apesar da inegável influência do trabalho de Roger no título de Renato da Copa do Brasil em 2016, o ex-atacante terminou a temporada afirmando conhecer “muito mais o Grêmio do que o Roger”. Uma janela de transferências discreta, na sequência do título, fez com que não se criasse uma grande expectativa para 2017. Mas a essência da equipe permaneceu a mesma da anterior: um time ofensivo. “O Renato viu que poderia ter sucesso aperfeiçoando o estilo do Roger. Ele deixou o time mais objetivo e agressivo; essa foi a marca registrada do atual treinador”, diz Tcheco. Canal ainda acrescenta: “O Renato sabe fazer o jogador render mais”. O técnico precisou lidar com uma lesão que tirou Douglas da temporada, mas contou com Geromel e Kannemann se firmando como uma das melhores zagas do país.

“Jogamos um futebol bonito. No meu entender (...), o melhor do Brasil”. As palavras de Renato Gaúcho, em junho de 2017, não são exagero. “Além da técnica, a equipe é obediente taticamente”, acrescenta Roger Canal. E muito dessa obediência se deve a acertos do treinador nas contratações de jogadores questionados que se tornaram fundamentais, como Edílson, Bruno Cortez, Michel e Lucas Barrios. Renato também promoveu o volante Arthur, uma das revelações do futebol brasileiro que assumiu o papel de maestro do meio-campo na ausência de Douglas, aumentou a confiança de Ramiro e viu Luan assumir o papel de craque no elenco. Em comparação com a última equipe do Grêmio a chegar na final da Libertadores, em 2007, Tcheco, que era camisa 10 e capitão do time, considera o atual melhor do que aquele. “São momentos diferentes. A nossa equipe vinha de uma reconstrução da Série B, onde teve aquele drama da Batalha dos Aflitos. O atual já tem uma base de alguns anos, por isso é melhor”.

Em uma temporada na qual o protagonismo nacional alcançado pelo Corinthians foi baseado em um modo pragmático de praticar futebol, nenhum outro clube, incluindo os badalados Atlético-MG, Flamengo e Palmeiras, se destacou pela qualidade do jogo. O Grêmio rema na direção contrária. Sem craques nem jogadores de seleção, à exceção de Luan e Arthur, o tricolor voltou a ganhar a Libertadores e consagra-se como a melhor equipe brasileira de 2017. Um Grêmio copeiro, peleador, moderno e ofensivo.

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