Futebol e política, uma mistura tão óbvia quanto a alienação de quem a despreza

Em um momento de letargia no campo progressista diante de movimentos neofascistas, partiu das torcidas o canto de resistência à escalada autoritária de Bolsonaro

Torcedores se uniram na Paulista em ato pela democracia.
Torcedores se uniram na Paulista em ato pela democracia.Fernando Bezerra

O ato em defesa da democracia deste domingo evidencia, novamente, a potência do futebol como uma plataforma política. Enquanto o Brasil vive uma crise institucional, guiado por um presidente que joga contra o enfrentamento à pandemia e ainda estimula a eclosão de movimentos neofascistas, o contra-ataque veio, pelo menos sob o ponto de vista das organizações partidárias, de onde menos se esperava. Em um momento de letargia no campo progressista, ainda à procura de unidade para enfrentar a boiada de retrocessos em diversas frentes que o bolsonarismo pretende passar a todo custo, partiu das torcidas organizadas o canto de resistência à escalada autoritária do Governo.

Puxada por grupos de torcedores antifascistas, a manifestação terminou em confronto com militantes bolsonaristas e a polícia, descrita como vandalismo por setores da imprensa que, tal qual o aparato policial, insistem em criminalizar as organizadas. Torcidas são estruturas complexas, dinâmicas e multifacetadas. Há integrantes que, sim, estão lá para pregar a violência. Outros, talvez a maioria deles, têm como foco a festa nas arquibancadas. Alguns estimulam adesões politizadas, como a da causa antifascismo, que, por si só, representa uma expressão distinta das organizadas tradicionais, nas quais não é raro encontrar membros apoiadores de Bolsonaro.

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No entanto, há algo de singular no protesto da avenida Paulista: a união de movimentos populares gestados pelo futebol em torno de uma pauta em comum, levantando a mesma bandeira, em que a luta contra o fascismo está acima do clubismo. Em um ambiente que se alimenta do cultivo da rivalidade e, por vezes, do ódio ao adversário que veste cores diferentes, o simbolismo da manifestação orquestrada por torcedores de Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos se torna ainda mais notável, a ponto de despertar a indignação das elites reacionárias que não suportam afrontas orgânicas, democráticas e com cheiro de povo.

Protestos políticos no Chile ganharam corpo após várias torcidas do país divulgarem um manifesto em prol da convergência de ideais: “Perdemos muito tempo brigando entre nós”, dizia a convocação para manifestações conjuntas contra o Governo de Sebastián Piñera. A repressão da polícia chilena, habituada a enxergar torcedores organizados como bandidos, passou a ser ainda mais violenta, resultou em dezenas de assassinatos e foi denunciada pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos por “vários casos de abusos, detenções e uso desproporcional da força”. Um alerta para as autoridades de segurança brasileiras, que, se não quiserem transformar uma crise em barbárie e repetir a hecatombe chilena, precisam admitir a legitimidade das torcidas como atores políticos.

O cenário do futebol é terreno fértil para a politização de inúmeras questões, embora exista uma corrente que resista a aceitá-la. Em abril, o comentarista Caio Ribeiro censurou Raí, hoje dirigente do São Paulo, por ter criticado a gestão do presidente Jair Bolsonaro, argumentando que o ex-companheiro de profissão deveria falar apenas de esporte. Foi rebatido pelo colega de Globo, Walter Casagrande, um dos componentes da célebre Democracia Corinthiana nos tempos da ditadura militar: “Numa democracia, todas as pessoas podem e devem expressar suas opiniões sobre qualquer assunto”.

Caio Ribeiro externou uma visão recorrente no meio, que desacredita e desencoraja manifestações políticas atreladas ao esporte. Porém, a história atesta que futebol e política são elementos indissociáveis, não somente por causa dos movimentos que gritaram a favor da redemocratização nos gramados e arquibancadas, mas também pela extensa rede de poder que molda as competições e deve ser assimilada como uma espécie de “futepolítica”. Dos processos eleitorais que definem o comando de clubes e federações ao oportunismo dos dirigentes que se aproveitam da paixão dos torcedores para dar um salto à esfera pública, como fizeram o prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (ex-presidente do Atlético-MG), o ex-senador Zezé Perrella (cartola mais influente das últimas décadas no Cruzeiro), o ex-deputado Andrés Sanchez (presidente do Corinthians) ou o ex-presidente da Argentina, Mauricio Macri, que ganhou fama e status como mandatário do Boca Juniors.

Uma coisa é ser contra a apropriação do esporte por parte de políticos, igualmente oportunistas, que colam a imagem nas glórias alcançadas por jogadores para se promover e capitalizar com feitos que não lhes pertencem. Outra, bastante impertinente, é querer separar o futebol de sua dimensão política, como se o jogo fosse imune aos dilemas e problemas que afetam a sociedade. Manifestações como as de Raí ou até mesmo de Felipe Melo, que declarou voto em Bolsonaro na última eleição, devem ser estimuladas, não reprimidas. Inclusive para que se possa, por exemplo, questionar o silêncio e a omissão do jogador do Palmeiras diante da postura do presidente que ajudou a eleger e, agora, não hesita em utilizar atletas como cobaias em seu esforço para apressar a retomada do futebol durante o pico da pandemia.

Reducionismos que tacham as organizadas como grupos homogêneos, essencialmente violentos, ignorando sua capacidade de mobilização e crítica para além do futebol, refletem o processo de esvaziamento dos debates sociais no esporte. A violência de torcedores que cruzam os limites das regras de civilidade é tão condenável quanto a conduta irresponsável de policiais e governantes que, ao deparar com erupções populares de oposição a seus interesses, não pensam duas vezes em apagar fogo com gasolina, seja nas ruas ou nos estádios. Torcidas sempre foram movimentos ideológicos. Sua incursão pelo palco principal da política, assumindo a linha de frente do combate ao fascismo em ascensão, só surpreende aos que teimam em ignorar que ela não se mistura com futebol, incapazes de reconhecer a própria alienação.

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