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Felipe Melo, o que pensa o jogador que apoia Bolsonaro

Após Alexandre Frota e Amado Batista, volante do Palmeiras declara voto no deputado de extrema direita

Felipe Melo Bolsonaro
Suspenso por briga no Uruguai, Felipe Melo endossa Bolsonaro. Ag.Palmeiras

O volante que se tornou um dos símbolos do fracasso brasileiro na Copa do Mundo de 2010 passou mais de uma década no futebol europeu e voltou ao país para defender o Palmeiras, no início deste ano. Bastaram poucos jogos para o antigo vilão se tornar ídolo, pelo menos da torcida palmeirense. Incorporando um personagem a quem ele próprio define como “ousado” e sem papas na língua, Felipe Melo tem amealhado fãs não só por seu desempenho em campo, mas também pelos pronunciamentos eloquentes em entrevistas e nas redes sociais. Nesta segunda-feira, ele declarou apoio ao deputado federal de extrema direita Jair Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República pelo Partido Social Cristão (PSC).

Melo, de 33 anos, publicou um vídeo na internet por ocasião do Dia do Trabalhador, em que vociferou: “Deus abençoe a todos os trabalhadores e pau nos vagabundos. Bolsonaro neles!”. Mais tarde, em novo vídeo, ele tentou justificar sua mensagem agressiva. “Quando eu falo de vagabundos, me refiro às pessoas que querem tumultuar o nosso país. Deus abençoe a todos vocês. E, sim, eu sou Bolsonaro.” O deputado, que é palmeirense, agradeceu ao jogador “pela confiança”.

Com salário mensal superior a meio milhão de reais, Felipe Melo se enquadra na fatia dos 28% de eleitores que ganham mais de 9.400 reais e compõem a maior parcela dos apoiadores de Jair Bolsonaro, de acordo com a última pesquisa Datafolha. O levantamento divulgado no domingo coloca o deputado de extrema direita em segundo lugar no melhor cenário da corrida presidencial, com 15% das intenções de voto, atrás somente do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, que tem 30%. Além dos rendimentos como jogador, o volante do Palmeiras ainda fatura com suas empresas espalhadas por diversos segmentos, desde fábrica de bolos a programas de intercâmbio.

Tal qual Bolsonaro, que se diz um cristão convicto, Felipe Melo é evangélico e consegue conciliar na mesma frase as palavras “Deus” e “porrada”. Além da religiosidade explícita e do estilo verborrágico, o jogador também se assemelha ao deputado no cartel de polêmicas e afinidades ideológicas. Logo que chegou ao Palmeiras, ele provocou a ira de jogadores do Peñarol, time do mesmo grupo do Verdão na Copa Libertadores, ao descrever como seria sua conduta na competição. “Se tiver que dar porrada e tapa na cara de uruguaio, vou dar. Pode ter certeza que, se vier mano a mano, vou dar porrada para defender as cores do Palmeiras”, bradou em sua entrevista de apresentação.

No último compromisso do clube paulista pelo torneio continental, foi interpelado por jogadores da equipe uruguaia no fim da partida, em Montevidéu, quando desencadeou uma briga generalizada ao acertar dois socos no meia Matías Mier. Pela confusão, ele, que alegou legítima defesa, foi suspenso preventivamente por três partidas pela Conmebol e espera julgamento para conhecer sua pena definitiva. Na primeira partida entre os clubes, em São Paulo, o pitbull, como é conhecido pelos torcedores, já havia protagonizado uma discussão com o atacante Gastón Rodríguez. Ele acusou o rival de tê-lo chamado de macaco. Em vez de denunciar a injúria racial à polícia, Felipe Melo preferiu rebater com uma provocação: “A mulher dele [Rodríguez] já deve ter traído ele [sic] com um 'negão'”.

Antes do início da Copa, em 2010, o jogador usou uma comparação machista para desaprovar a bola oficial do torneio, a Jabulani. “As outras bolas são que nem mulher de malandro. Você chuta e ela continua ali, do mesmo jeito. Já essa bola [Jabulani] é que nem ‘patricinha’, não quer ser chutada.” Seu candidato a presidente para 2018 também coleciona menções pejorativas à figura feminina no currículo. Em mais de uma oportunidade, como em entrevista ao jornal Zero Hora, em 2015, Bolsonaro proclamou que não empregaria mulheres com o mesmo salário de homens pelo fato de elas engravidarem. Ele é réu no Supremo Tribunal Federal por incitação ao crime de estupro. O parlamentar chamou a deputada Maria do Rosário (PT-RS) de “vagabunda” e gritou que não a estupraria “porque ela não merece e é muito feia”.

Felipe Melo, por sua vez, esteve envolvido em uma queixa criminal em 2005. Ele foi acusado de esfaquear dois rapazes em um hotel de luxo no Rio de Janeiro. Embora o jogador tivesse sido apontado pelas vítimas como o autor das agressões, seu primo, de 15 anos, pivô da briga, assumiu a autoria das facadas. Em depoimento à polícia, Melo relatou ter apenas defendido o primo, sem uso de armas. Ao retornar ao Brasil este ano, ele contou que o temperamento explosivo, que o fez acumular agressões a rivais e até a companheiros de time, ficou para trás após ter sido regenerado por Deus.

Felipe Melo soco
Logo em sua apresentação no Palmeiras, o volante rosnou para os adversários: “Se tiver que dar tapa na cara de uruguaio, vou dar”. Reuters

Entretanto, a religião não o constrange ao apregoar a violência dentro e fora dos gramados. Após a derrota para a Ponte Preta, no primeiro jogo das semifinais do Campeonato Paulista, o palmeirense recorreu à Bíblia para comparar a autocrítica da equipe ao modo de educar as crianças. “Já teve cobrança no vestiário. O pai quando cobra do filho tem que dar um tapa na bunda. Não tem o tapa na bunda? Varada na bunda. Isso é bíblico.” Pensamento compartilhado por Jair Bolsonaro, que foi um ferrenho opositor à Lei da Palmada, aprovada em 2014 com o intuito de criminalizar o uso de violência física pelos pais contra os filhos. No plenário da Câmara dos Deputados, Bolsonaro argumentou que “o ser humano só respeita aquilo que teme” e não esconde que pretende trabalhar para derrubar a lei caso seja eleito presidente.

Assim como o deputado, adepto do mantra de que só se resolve a violência “com porrada”, Felipe Melo fez coro pelo impeachment de Dilma Rousseff e é um ferrenho defensor das forças militares. No ano passado, ele se indignou com uma enquete realizada pelo programa Encontro com Fátima Bernardes, da Globo, que questionava quem deveria ser salvo primeiro: traficante em estado grave ou policial levemente ferido. O volante opinou que “independentemente de qualquer circunstância, um traficante não pode ser salvo antes de um policial”.

Sua mais recente manifestação, direcionada a “pessoas que querem tumultuar o país”, rendeu elogios de admiradores, mas também protestos de parte da torcida alviverde pelo alinhamento de seu discurso ao de Bolsonaro. O “Palmeiras Antifascista”, grupo de palestrinos que combate a intolerância nos estádios, divulgou uma nota de repúdio ao atleta do próprio time. “Repudiamos o político fascista Bolsonaro e qualquer seguidor dele. Posicionamento político não é desculpa para ser fascista. Infelizmente, por mais que jogadores de futebol possam cair no nosso gosto, eles também podem falar/fazer algo fora dos gramados que nos decepcione.” Alguns membros do grupo ainda criticaram a falta de sensibilidade de Felipe Melo ao conclamar a truculência contra “vagabundos” em pleno 1º de maio, três dias depois de o estudante Mateus Ferreira da Silva, que participava de uma manifestação da greve geral em Goiânia, ser atingido na cabeça por um capitão da Polícia Militar com um cassetete. Ele permanece internado em estado grave.

Por meio da assessoria de imprensa, Melo informa que não vai mais se pronunciar sobre o vídeo, que foi apagado de sua rede social. Ele entra para a galeria dos raros jogadores de futebol que demonstraram apoio a um político publicamente. Em 2014, o pentacampeão do mundo Ronaldo, o atacante Neymar e o meia Júlio Baptista declararam voto em Aécio Neves.

O discurso que une os famosos pró-Bolsonaro

Alexandre Frota

Um dos principais entusiastas do movimento Escola sem Partido, é militante do parlamentar do PSC e aparece até entre os cotados para sair como vice de sua chapa em 2018. Frequentemente irrompe em vídeos que compartilha pela internet rugindo contra quem critica a atuação de policiais. Em 2015, em entrevista a Rafinha Bastos, o ator contou ter mantido relações sexuais com uma mãe de santo que ficou desacordada após ele apertar sua nuca. Frota se defendeu das acusações de estupro alegando que se tratava de uma piada.

Eduardo Costa

Há um ano, revelando-se desiludido com a política nacional, o cantor sertanejo se manifestou a favor do deputado e disse que ele é o único que o representa no Brasil. Para explicar seu culto ao corpo, ele já chegou a afirmar que todo homem deve manter a postura masculina. Recentemente, seus shows em parceria com Leonardo foram alvo de críticas por causa de piadas machistas no palco.

Wanderlei Silva

Conhecido como Cachorro Louco, ele serviu o Exército antes de se tornar lutador e é fã público de Bolsonaro desde 2015. “Extremo, talvez, mas gosto muito do seu posicionamento defendendo a polícia e a família. É o nosso presidente”, disse, em sua primeira demonstração de apoio. Costuma expressar opiniões homofóbicas e, no ano passado, carregou Bolsonaro no colo em recepção no aeroporto de Curitiba. Crítico de governos do PT, ele deixou o UFC após fugir de um exame antidoping.

Amado Batista

O cantor já antecipou voto a Jair Bolsonaro e faz campanha por sua candidatura. “Precisamos de alguém com pulso firme como ele”, afirma. No início do ano, criticou o colega de profissão Chico Buarque por “adorar Fidel Castro e receber milhões da Lei Rouanet”. Indagado em uma entrevista ao programa de Fábio Porchat, ele revelou ter sido torturado na época da ditadura, mas que, ainda assim, segue apoiando os ideais de Bolsonaro.

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