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Moacir Bianchi, uma nova morte trágica estremece a Mancha Verde

Fundador da torcida palmeirense foi executado com 22 tiros. Crime expõe racha interno e resgata traumas

“Se você luta, a derrota é uma possibilidade. Se você não luta, a derrota é uma certeza.” Essa foi a última frase publicada nas redes sociais por Moacir Bianchi, mais conhecido como Moa, algumas horas antes de ser assassinado dentro de seu carro quando cruzava uma avenida de São Paulo na madrugada da última quinta-feira. Um dos fundadores da Mancha Verde, a maior torcida organizada do Palmeiras, Moa foi atingido por 22 tiros, disparados à queima roupa após ter sido encurralado por dois veículos. A polícia ainda não identificou o autor dos disparos, tampouco os condutores dos carros que o cercaram, informou ao EL PAÍS o delegado Nilton Montoro, responsável pela investigação do caso.

Moacir Bianchi, fundador de torcida assassinado

Moa tinha 48 anos. Sempre foi, dizem seus amigos, “um lutador”. Foi no início da década de 1980 que ele participou do esforço de criar a Mancha Verde, cuja história é marcada por mortes trágicas como a dele. Batizada inicialmente como Inferno Verde, o objetivo da torcida, onde as atividades estão suspensas por tempo indeterminado por causa do luto, era claro: fazer frente às grandes organizadas dos rivais Corinthians e São Paulo. E isso significava ir à luta, na acepção literal da palavra.

Se nos primeiros tempos não faltaram disputas violentas com os grupos oponentes, é improvável que a rivalidade clubística tenha motivado o ataque a Moacir. O dirigente era respeitado pela maioria das outras lideranças de torcidas algumas delas lamentaram seu assassinato.

Uma das linhas de investigação seguida pela polícia é a de que Moa possa ter sido alvejado por membros da própria Mancha Verde. O assassinato expõe um racha entre a velha guarda da torcida organizada e parte da ala que assumiu o comando do grupo. Embora Moacir ainda gozasse de influência na sede principal, sua atuação mais contundente se limitava à escola de samba da Mancha. Ele era diretor da agremiação e foi um dos responsáveis por costurar a verba de 1,3 milhão de reais via Lei Rouanet com a Crefisa, atual patrocinadora do Palmeiras, para o desfile de Carnaval deste ano. Moacir era crítico da incitação de violência entre os integrantes, algo que desagradava membros insatisfeitos com sua ascendência sobre a torcida.

Pancadarias e conciliação

Foi sob o comando de Moacir e de seus inseparáveis companheiros Paulo Serdan e Cleo Sóstenes, os outros cofundadores da torcida, que a Mancha amealhou uma fileira de adeptos. No princípio, a tática para fazer o grupo ganhar fama era incitar confusões e, mesmo em menor número, tomar as bandeiras e artefatos das organizadas rivais. Moa se gabava das pancadarias homéricas que protagonizou em busca de reconhecimento para os palmeirenses nas ruas e nos estádios. Aos mais novos, contava detalhes sobre a batalha campal do Pacaembu, em 1995, onde foi acuado por vários são-paulinos armados com paus e pedras, mas conseguiu escapar com a ajuda de seus correligionários.

Na Mancha, Moacir viveria seu primeiro abalo provocado pela violência antes mesmo que ela completasse uma década. Em 1988, Cleo sofreu uma emboscada nas proximidades do antigo estádio Parque Antártica e foi assassinado com três tiros. A Mancha Verde alegou que torcedores corintianos haviam sido os mentores da execução de seu líder, mas a autoria do crime jamais foi desvendada pela polícia. Trata-se da primeira morte que se tem registro no Brasil atribuída à rixa entre torcidas organizadas.

A partir daí, a rivalidade envolvendo as facções de torcedores dos clubes paulistanos se tornou ainda mais sangrenta. O código de ética vigente naquela época, em que apenas socos e pontapés eram permitidos nas brigas, sem contar o veto a golpes em rivais caídos no chão, foi definitivamente rompido. Armas, porretes, barras de ferro e bombas caseiras passaram a fazer parte do arsenal das grandes torcidas, uma tendência que se espalhou pelo país.

Moacir adotou um discurso apaziguador com o passar dos anos. Desde o início da década de 2000, tentava conter a escalada de violência entre torcidas, tinha bom relacionamento com líderes rivais e era querido por boa parte dos membros da grupo. Foi influenciado pela advogada da Mancha, Silvia Carbonaro Chioroglo. Ela integrava a organizada desde os tempos de Inferno Verde e atuou em diversos casos na defesa de seus membros. Silvia também compunha uma comissão no Ministério do Esporte com o intuito de evitar novos episódios violentos entre torcidas. Não raro, atuava como conselheira e mediadora de conflitos internos da Mancha Verde. Moa e torcida também a perderiam. Em 2015, a advogada morreu três meses depois de ter sido diagnosticada com um câncer.

Moa também era diretor da escola de samba Mancha Verde.
Moa também era diretor da escola de samba Mancha Verde.

Sob a batuta de Moacir, a Mancha Verde usou parte da contribuição dos sócios para comprar jazigos no cemitério do Jaraguá, em São Paulo. Eles abrigam os corpos de dois membros mortos por corintianos em um confronto, cinco anos atrás, e, agora, o de uma das figuras que mais lutaram pela causa das torcidas organizadas no Brasil.

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