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Neymar e o desabafo patrocinado de um atleta-produto

Ação publicitária reforça estereótipos que pintam o jogador como uma estrela mimada e sem voz própria

Neymar comercial Gillette marketing
Em anúncio publicitário, Neymar reconhece exageros dentro de campo. Reprodução

Finalmente, Neymar reconhece que exagera nas simulações e, sobretudo, que é um ser humano passível de erros. O depoimento em primeira pessoa, apesar de calculado, parecia um indício de que o craque da seleção brasileira e do PSG está disposto a rever comportamentos que depreciaram sua imagem na Copa do Mundo. Até surgir no fim do vídeo divulgado neste domingo o logotipo e o slogan de uma campanha publicitária da Gillette. Ao tentar se reerguer, o atacante caiu no embuste de uma ação comercial disfarçada de exercício de humildade. Em um período delicado da carreira, se presta ao papel de garoto-propaganda de empresa que não se preocupa com as críticas que ele sofre, mas sim em seguir lucrando com sua imagem a todo custo.

Por meio das redes sociais, a Gillette defendeu a campanha: “Nossa ideia é mostrar que a cada manhã, quando se olharem no espelho durante o barbear, todos os homens possam refletir sobre o dia anterior. Independentemente da batalha, todo dia é uma nova chance de fazer algo novo e ser melhor e mais forte”. Pela régua das métricas de audiência, a marca provavelmente se sentirá fortalecida com a jogada de marketing, já que a peça foi veiculada no horário nobre da televisão e acumula mais de um milhão de visualizações na Internet. No entanto, para Neymar, a repercussão negativa do vídeo só aumenta seu desgaste. É improvável que ele se olhe no espelho como uma pessoa melhor depois de emprestar voz e supostos sentimentos a um merchan que reforça estereótipos inconvenientes.

Neymar saiu da Copa com a pecha de menino mimado, explorada à exaustão em críticas muitas vezes desmedidas e até mesmo preconceituosas. O texto publicitário, recheado de contornos épicos, mas pouco assertivo no conteúdo, atesta que o atacante é caçado dentro de campo e manda um solene “você não imagina o que eu passo fora dele”. Para incrementar o ar poético do roteiro, Neymar justifica atitudes infantis de maneira emotiva: “Ainda não aprendi a me frustrar”. O futebol não é o único reduto de adultos que se comportam como adolescentes. Condutas semelhantes às de Neymar são comuns em outras áreas, ainda que não recebam o mesmo escrutínio. Entretanto, como rebater o rótulo de mimado atribuído a um homem de 26 anos, milionário bem-sucedido, que hiperdimensiona o sofrimento e se omite diante de frustrações?

Novamente, como já aconteceu em outras ocasiões em que se manifestou após rompantes de imaturidade, Neymar promete uma mudança de postura que até hoje não colocou em prática: “Demorei a me transformar em um novo homem”, recita o jogador antes de se dirigir ao torcedor para explicar por que deixou o jogo da eliminação para a Bélgica sem dar entrevista: “Não aprendi a te decepcionar”. Por fim, o comercial alimenta nas entrelinhas a tese da Neymardependência, ao atrelar a empolgação dos brasileiros com a seleção aos lampejos de inspiração do craque: “Porque quando eu fico de pé, parça, o Brasil inteiro levanta comigo”. Mais do que nunca, Neymar precisa se despir do excesso de individualismo em nome de um coletivo forte que alivie de suas costas o peso da responsabilidade, mas o discurso publicitário sugere o contrário. Que ele continue sendo o centro das atenções, algo que contribui para que, no calor das derrotas, as maiores pedras sejam arremessadas em sua direção.

O tom do comercial soa mais como um pedido de desculpa do que autocrítica, como se o jogador tivesse de se desculpar por qualquer coisa. Misturando mea culpa com propaganda, Neymar retrocedeu as casas que havia avançado depois da Copa ao falar com a imprensa durante um evento de sua fundação e rir de si mesmo ao brincar com crianças sobre a fama de cai-cai. Não há como reconhecer erros, assimilar reprimendas ou levantar bandeiras quando a tomada de posição é forjada por compromissos publicitários.

“O principal craque brasileiro está reduzido apenas a um produto, disposto a capitalizar até autocrítica, por quem deveria se esforçar para humanizá-lo”

Deveria ter aprendido a lição com a campanha “Somos Todos Macacos”, que ele emplacou em 2014 sob a influência de uma agência de publicidade, sugerindo não levar tão a sério ofensas e deboches racistas. Passado o burburinho embalado por celebridades que compõem seu círculo de amizades, Neymar, alvo constante de insultos discriminatórios em estádios pela Europa, nunca mais se portou como um militante combativo contra o racismo. Em que pese seu talento e apelo midiático, prefere recorrer ao conforto dos pronunciamentos via rede social ou à sacada de marketing oportunista, que só corrobora o estigma de uma personalidade sem voz própria.

Neymar pai se orgulha de tratar o filho como “cliente”. Se julga merecedor de um prêmio por capitanear sua “gestão de carreira”. O principal craque brasileiro está reduzido apenas a um produto, disposto a capitalizar até autocrítica, por quem deveria se esforçar para humanizá-lo. O pai-gestor vende o conceito do atleta-produto como se fosse possível separar o filho do jogador. Pela condução acidentada dos momentos de crise, em que não raro o genitor toma para si o papel de protagonista no intuito de resguardar seu “produto”, já passou da hora de Neymar copiar o amigo Lewis Hamilton. Em 2010, o piloto tomou a decisão de afastar o pai, que também administrava sua carreira, dos negócios. “Queria que ele fosse somente meu pai”, explicou na época. Anthony Hamilton demorou a aceitar a limitação do laço paternal: “Desejava tanto que ele fosse bem-sucedido que isso me levou a ser mais empresário que pai”. Desde então, o piloto trilhou sozinho seu caminho e ganhou mais três títulos mundiais na Fórmula 1.

Inegavelmente, tanto o pai de Hamilton como o de Neymar tiveram sua parcela de contribuição no sucesso dos filhos. Porém, expor pessoas como meros produtos, tendência num tempo em que a publicidade se sobrepõe ao bom senso, pode implicar em consequências cruéis na relação entre pai e filho. Uma delas é achar, sem margem para contestação, que um bom acordo comercial vale mais que a autocrítica desprovida de cifras e filtros. Um “novo homem” não nasce de afagos, paternalismo e parcimônia. A gestão profissional baseada em valores familiares impede distinguir questionamentos injustos de críticas construtivas. Em sua bolha, Neymar é visto como um eterno perseguido, que, para combater inimigos, carece de superproteção. Isso diz muito sobre a assumida incapacidade de lidar com desapontamentos.

Frustrações digeridas em público deixam marcas definitivas de caráter. Julio Cesar foi um grande goleiro, mas o destino lhe impôs dois retumbantes fracassos em Copas do Mundo. Saiu de ambos com a cabeça erguida, de cara limpa, peito aberto e olhos marejados, exposto a todo julgamento que suas emoções pudessem despertar pelas expectativas que frustrou. Pendurou as chuteiras como um ser humano respeitado, maior que a figura do ídolo. O futebol precisa de mais autenticidade, sentimentos genuínos e reações espontâneas, não de discursos prontos em forma de desabafo patrocinado.

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