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Ninguém está pronto para ser a cara do Brasil na Fórmula 1

Com saída de Felipe Massa, é a primeira vez que circuito fica sem pilotos brasileiros em 48 anos

Nova geração ainda tateia nas categorias de base. Na F2, desponta Sérgio Sette Câmara, de 19 anos

Felipe Massa Formula 1
Felipe Massa se despediu do torcedor brasileiro em Interlagos. EFE

“Apaixonados por carro como todo brasileiro.” O slogan de uma empresa de combustíveis que patrocina as transmissões de Fórmula 1 no Brasil foi criado em 1994, mesmo ano da morte de Ayrton Senna, o último piloto campeão mundial da categoria forjado pelo país. Naquela época, a F1 era uma febre nacional, e a paixão do brasileiro por carro, mais especificamente pelo automobilismo, alcançava níveis de devoção sem precedentes. Hoje, porém, mesmo detentor de oito títulos mundiais, distribuídos entre Senna (3), Nelson Piquet (3) e Emerson Fittipaldi (2), o Brasil já não conta com tantos apaixonados – tampouco ídolos – na Fórmula 1. Felipe Massa, que, assim como Rubens Barrichello, tratou de manter viva a chama do automobilismo brasileiro, sobretudo ao longo da passagem pela Ferrari, fez sua última corrida no autódromo de Interlagos, em São Paulo, neste domingo. Aos 36 anos, o piloto encerra a trajetória na F1 no fim desta temporada e também a longa dinastia de brasileiros no circuito. Pela primeira vez desde 1970, quando Fittipaldi abriu caminho com a Lotus, o Brasil não terá um representante entre as equipes que compõem o grid da categoria.

Uma perda que coincide não somente com a falta de investimentos na formação de novos pilotos, mas também com a queda de popularidade da Fórmula 1 no país. Acompanhando uma tendência mundial, a audiência da modalidade na televisão caiu pela metade em uma década. Nos últimos cinco anos, a TV Globo, que transmite o evento desde os anos 80, tem aberto mão de passar as corridas que ocorrem nos mesmos horários de jogos do Campeonato Brasileiro. Em 2016, a emissora, pela primeira vez, ignorou completamente um GP (do Canadá), incluindo os treinos de classificação, em benefício da programação do futebol. “Existem poucas categorias de base para formar pilotos no Brasil”, disse Felipe Massa depois de correr pela última vez em Interlagos. “Os jovens que têm o sonho de chegar à Fórmula 1 precisam ir para outros países, porque nos falta estrutura e investimento. Nem todos têm condições financeiras para bancar os custos de tentar a sorte no exterior.”

As modalidades de formação no automobilismo local se restringem praticamente ao kart, mais voltado para crianças e adolescentes, e à Fórmula 3, que teve um hiato de 18 anos e só voltou a ser disputada em 2014. Ganhar a vida pilotando um carro é realidade distante para a maioria dos garotos brasileiros, já que a modalidade ainda é cara e bastante elitizada. “Estamos cientes da necessidade de mais investimentos em formação. Para isso é preciso desconstruir a ideia de que o automobilismo é um esporte inacessível”, afirma Waldner Bernardo, que assumiu a presidência da Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA) em março deste ano. O projeto da Escola Brasileira de Kart, que consiste na instalação de centros de formação em várias cidades do país, é a esperança para a popularização do esporte. O objetivo desses centros, dedicados a crianças de seis a 12 anos, é oferecer formação básica de piloto por cerca de 3.000 reais.

Com a aposta para o futuro depositada no kart, o “fator ídolo” compromete o presente. A última vitória de um brasileiro na Fórmula foi em setembro de 2009, ocasião em que Barrichello, então piloto da Brawn, subiu ao topo do pódio no GP de Monza. No ano anterior, Massa havia perdido o título mundial para Lewis Hamilton em plena corrida de Interlagos, por apenas um ponto, graças a uma ultrapassagem do inglês sobre Timo Glock na última volta. Depois do acidente sofrido em 2009, Massa jamais conseguiu fazer com que o Brasil voltasse a disputar o título mundial. Um fato inusitado para um país que tem Senna como um dos maiores ídolos do esporte, ao lado de Pelé. “Em qualquer lugar do mundo, nenhuma modalidade vai para frente se não tiver um ídolo. A Espanha, por exemplo, só é uma potência na motovelocidade porque produz um campeão atrás do outro”, compara Alexandre Barros, ex-piloto brasileiro do Moto GP, que hoje trabalha em um projeto de base com o intuito ambicioso de formar o primeiro campeão brasileiro da categoria. “A Fórmula 1, assim como a motovelocidade, sofre com a falta de um ídolo no Brasil.”

Diante da aposentadoria de Massa e após a passagem de Felipe Nasr pela Sauber durante duas temporadas, o brasileiro mais próximo de ascender à Fórmula 1 é Sérgio Sette Câmara, de 19 anos, que integra a F2, principal categoria de acesso à F1. No entanto, ainda com resultados tímidos na categoria, ele deve permanecer por pelo menos mais uma temporada no segundo escalão do automobilismo. Herdeiros de antigos campeões, Pietro Fittipaldi e Pedro Piquet buscam um lugar ao sol, mas ainda não chamaram a atenção de equipes da Fórmula 1. Entre as promessas de longo prazo está Gianluca Petecof, de 14 anos, que terminou em sexto lugar na final do Mundial de kart deste ano e foi convidado pela Ferrari para testes na Fórmula 4 da Itália. Enquanto não forja um novo ídolo, o Brasil está garantido no circuito mundial até 2020, quando vence o contrato de Interlagos com a Fórmula 1. Sem patrocinadores oficiais pelo segundo ano consecutivo, o GP brasileiro rende um prejuízo de aproximadamente 100 milhões de reais.

INSEGURANÇA FORA DA PISTA

Nesta segunda-feira, a Pirelli, fornecedora oficial de pneus da Fórmula 1, anunciou o cancelamento de testes em Interlagos após tentativa de assalto a uma van da empresa no domingo. O staff da companhia conseguiu evitar o roubo, mas, pelo clima de insegurança em torno do autódromo, tanto a McLaren, parceira da Pirelli nos testes de pneus, quanto a Federação Internacional de Automobilismo concordaram em abortar as provas que seriam realizadas terça e quarta-feira. Na última sexta, às vésperas do treino de classificação, uma van da Mercedes já havia sido assaltada na saída de Interlagos, o que gerou indignação do tetracampeão Lewis Hamilton. O piloto relatou que membros de sua equipe tiveram armas apontadas durante o roubo e exigiu mais segurança da organização. No sábado, foi a vez de uma van da Sauber sofrer com a abordagem de criminosos. Os roubos fizeram com que a Polícia Militar de São Paulo aumentasse o efetivo para a corrida deste domingo. Em áudio divulgado pela rádio Bandeirantes, um policial critica a operação de segurança do evento, alegando que os agentes públicos haviam sido orientados a não abandonar as áreas de marketing do circuito. A PM informou que uma sindicância será aberta para apurar a denúncia.

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