Opinião
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Quando o oportunismo político se apropria da festa do futebol

Subserviência de cartolas ao poder ofusca protagonismo dos jogadores em títulos e vitórias

Deputado Cauê Macris ergueu a taça de campeão com o goleiro Cássio.
Deputado Cauê Macris ergueu a taça de campeão com o goleiro Cássio.

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Quem diz que esporte e política não se misturam provavelmente nunca aprofundou o olhar para o jogo de bastidores nem atentou para os cerimoniais de premiação dos times campeões. Usar o futebol como plataforma de exibicionismo é prática antiga dos políticos, assim como clubes e federações insistem em atrair autoridades à solenidade de medalhas e troféus. Porém, o que se vê ultimamente nos desfechos de campeonatos pelo país é um festival de apropriação do protagonismo por parte de representantes públicos que jamais derramaram uma gota de suor no gramado, mas, com faro oportunista de dar inveja a goleador, ofuscam o momento sagrado dos jogadores.

No último fim de semana, o Corinthians faturou o tricampeonato paulista após vencer o clássico contra o São Paulo. Na linha de frente do palco, estavam o Major Olímpio (PSL), senador mais votado no Estado paulista, vestindo uma camisa da seleção com o número de seu partido, o secretário estadual de esportes Aildo Rodrigues e o deputado Cauê Macris (PSDB), presidente da Assembleia Legislativa. Corintiano, o parlamentar tucano não só posou para a foto oficial, como também levantou o troféu ao lado do capitão Cássio. “Geralmente me dão a taça e eu ergo, mas desta vez tinha uma pessoa puxando”, relatou o goleiro. Vagner Love, autor do gol do título, demonstrou ainda mais incômodo: “Eu fico boladão com essa parada. Quem tem que estar ali é a gente, amigos, família, os companheiros que ralam no dia a dia.”

Mas nada foi mais constrangedor que o Major Olímpio deixando o gramado da Arena Corinthians com uma medalha no peito, mimo oferecido por Andrés Sanchez, presidente corintiano que exerceu um mandato como deputado federal pelo PT. Nenhum serviço prestado ao clube justifica que o prêmio pelo esforço em campo vá parar nas mãos de um político – ou no bolso, como fez José Maria Marin, hoje preso nos Estados Unidos por corrupção, quando o mesmo Corinthians foi campeão da Copinha em 2012. O ex-presidente da CBF subiu ao pódio e embolsou a medalha oferecida como cortesia pela Federação Paulista, agora responsável pelo convite ao Major Olímpio e o restante da trupe diplomática neste domingo.

Major Olímpio posa com medalha de campeão cedida pelo Corinthians.
Major Olímpio posa com medalha de campeão cedida pelo Corinthians.

Olímpio é autor de um projeto de lei que criminaliza torcidas organizadas em São Paulo, partindo do pressuposto de que esses grupos fomentam a violência nos estádios. A Gaviões da Fiel, maior organizada do Corinthians, rejeita a proposta e, na eleição de 2018, se posicionou abertamente contra o Major e o candidato à Presidência de seu partido. Nas arquibancadas, a torcida já protestou para denunciar a violência policial e cobrar punição à Máfia da Merenda no Estado. Três semanas atrás, o clube que serviu de berço para a Democracia Corinthiana, movimento que lutou pela redemocratização do país, e hoje homenageia um político que chama o golpe militar de 1964 de “contrarrevolução” havia exaltado a democracia em manifesto repúdio aos que celebravam o aniversário de instituição do regime autoritário.

A diretoria do Corinthians não foi a primeira a contradizer a própria história do clube em nome da subserviência ao poder. No fim do ano passado, o recém-eleito Jair Bolsonaro roubou a cena na comemoração do título brasileiro do Palmeiras. Com histórico de declarações xenofóbicas contra imigrantes e refugiados, o presidente deu a volta olímpica com os jogadores e ergueu o troféu do time fundado por italianos que foram perseguidos no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial. Em comum entre as duas celebrações, a presença do corintiano Major Olímpio no Allianz Parque revela que a intenção de dirigentes ao dar palanque a políticos passa longe da identificação que eles nutrem com o clube. Muitos, aliás, nem sequer gostam de futebol.

Campeão carioca, o Flamengo também teve sua campanha marcada pela apropriação da festa que deveria ser restrita aos atletas. Convidado da secretaria de Governo do Rio de Janeiro, o deputado estadual Rodrigo Amorim (PSL), que ganhou fama depois de quebrar a placa com o nome de Marielle Franco durante as eleições, desfilou pelo gramado do Maracanã comemorando a conquista da Taça Rio com jogadores rubro-negros. Dias depois, ele recebeu de presente da diretoria do clube uma camisa personalizada. Amorim compõe o mesmo grupo político do governador Wilson Witzel, que usou um jogo da equipe no Estadual para entrar em campo e fazer média com a torcida. Ele estava escalado para entregar a taça do segundo turno, mas deixou o estádio antes do fim da partida e acabou atrasando a premiação. No início de abril, o governo concedeu ao Flamengo, em conjunto com o Fluminense, a gestão provisória do Maracanã.

Quando a barganha implícita por trás da bajulação cruza a linha do relacionamento institucional, clubes abrem espaço para apequenar seus ídolos diante de oportunistas dispostos a vestir todo tipo de camisa e a beijar qualquer escudo em troca de holofotes que não lhes pertencem. Curvam-se e repartem suas glórias com quem não merece. O futebol é dos jogadores, da comissão técnica, dos funcionários que dedicam suas vidas para dar alegria aos torcedores.

Em contraponto à diplomacia da obscenidade, o Bahia resolveu dedicar o título a um ícone desconhecido. Seu Adherbal, assistente administrativo que trabalha no clube há mais de 40 anos e luta contra um câncer, foi quem ergueu o troféu com os atletas. Reverência justa e apropriada, que, em vez de constranger, engrandece sua história tão castigada num passado recente por políticos aproveitadores.