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O legado da Copa sonegado pela CBF

Há quatro anos, a entidade máxima do futebol brasileiro se comprometeu a proteger crianças e adolescentes. Não cumpriu. Mas há quem a descreva como “um exemplo de gestão para o mundo”

legado Copa CBF
Marin e Del Nero, cartolas da CBF indiciados por corrupção. Divulgação

O relógio na sede da CBF, no Rio de Janeiro, marcava 12h40. Há exatos quatro anos, os dois últimos mandachuvas do futebol brasileiro assinavam um pacto com o Congresso Nacional comprometendo-se a adotar medidas para combater o abuso sexual, o trabalho infantil e o tráfico de crianças nas categorias de base. Hoje, às vésperas de outra Copa do Mundo, José Maria Marin está preso e condenado por formação de quadrilha, suborno e lavagem de dinheiro. Marco Polo Del Nero, seu sucessor, banido pela FIFA. E a CBF ainda não cumpriu a promessa de proteger milhares de jovens atletas que pelejam com a bola nos pés.

Pelo acordo assinado em 2014, a entidade máxima do futebol nacional deveria implementar 10 ações a fim de evitar violações dos direitos de crianças e adolescentes em clubes e escolinhas. No entanto, no ano passado, o Congresso constatou que apenas duas medidas haviam saído parcialmente do papel. O acordo foi fechado após desdobramentos da CPI da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, que apurou dezenas de casos de abuso relacionados ao futebol cometidos por treinadores, olheiros, empresários e dirigentes. A ideia era aproveitar a ocasião da Copa em solo nacional para deixar um legado em favor de meninos e meninas que praticam o esporte mais popular do país.

Legado que virou descaso. Inicialmente, a CBF ignorou o chamado da Câmara dos Deputados para prestar contas sobre o pacto em setembro de 2017, mas, no último dia 15 de maio, o secretário-geral da confederação, Walter Feldman, respondeu aos questionamentos dos parlamentares em audiência pública promovida pela Comissão do Esporte. Ele reconheceu que a situação das categorias de base no Brasil é “dramática” e que sua entidade pouco fez para combater abusos e violações de crianças no futebol. Entretanto, criticou o acordo assinado em 2014, qualificando-o como “um ato político, proselitista e de impossível execução”. Deixou explícito que o trato não foi cumprido devido aos escândalos de corrupção que levaram ao indiciamento dos três últimos presidentes eleitos da CBF.

Apesar da justificativa constrangedora, a maioria dos deputados presentes na audiência se eximiu de cobrar a confederação. Pelo contrário. Alguns congressistas, integrantes da famigerada “bancada da bola”, fizeram questão defenderam um “voto de confiança” à entidade, como Vicente Cândido – que acumula as funções de deputado federal pelo PT com o cargo de diretor de assuntos internacionais na CBF. A única que não engoliu as desculpas de Feldman foi a deputada Erika Kokay, também do PT, que presidiu a CPI da Exploração Sexual. Ela indagou o secretário: “Quer dizer, então, que a CBF assinou um pacto que não pode cumprir? A instituição que o senhor representa queria enganar o parlamento?”.

Na época da assinatura do pacto, estavam sentados à mesa o então presidente da confederação, José Maria Marin, seu vice Marco Polo Del Nero e a ex-deputada Liliam Sá, do Democratas, que era relatora da CPI. Ela rasgou elogios a Marin, que, no fim daquele ano, passaria o bastão da presidência a Del Nero. “O senhor está deixando um grande legado na sua administração. Isso é muito importante. Eu sei que o Dr. Marco Polo vai fazer também um excelente trabalho. Já vai pegar a casa pronta, não é, doutor?”, declamou Liliam Sá. Coincidência ou não, dois anos antes, a convite de Marin, ela havia sido chefe da delegação feminina de futebol na Olimpíada de Londres.

Esse é o modus operandi da CBF. Distribuindo cargos, mimos e agrados a políticos e empresários, a confederação defraudada por negociatas ilícitas constrói uma poderosa rede de poder que blinda seus cartolas de responder pelos atos da instituição. Ao debochar do pacto firmado por Marin e Del Nero, sugerindo que parlamentares perseguem e adotam discurso de “culpabilização da CBF”, o secretário Feldman copia uma estratégia comumente utilizada pelos patrões: a terceirização de responsabilidades. Foi assim que Del Nero não hesitou em atribuir a culpa pelo 7 a 1 a Felipão e Parreira depois do fiasco na última Copa. Foi assim que Ricardo Teixeira, antes de ser indiciado pelo FBI, culpou o mau humor dos jornalistas pelo atraso do futebol brasileiro.

Em maio de 2014, Marin firmou pacto com CPI da Exploração Sexual ao lado de Del Nero.
Em maio de 2014, Marin firmou pacto com CPI da Exploração Sexual ao lado de Del Nero.

Feldman prometeu reformular as medidas propostas pelo Congresso, disse que o combate ao abuso sexual nas categorias de base é um “compromisso consistente da CBF” – imagine se não fosse – e jurou que os clubes que não respeitarem integralmente os direitos básicos de crianças e adolescentes atletas serão impedidos de disputar competições oficiais. Qual é a garantia de que uma confederação que não honrou obrigações assumidas por dirigentes corruptos, mas que agora se vende como instituição moderna afeita à governança corporativa e ao compliance, irá, enfim, colocar o discurso em prática?

O secretário Feldman se recusou a estabelecer prazos para cumprir as promessas. Porém, não ruborizou ao cravar categoricamente que “a CBF é um exemplo de gestão para o mundo”. Por enquanto, sob o afã de que uma boa campanha na Copa da Rússia sirva de cortina de fumaça para o descrédito popular que a acompanha nos últimos anos, a CBF é só um exemplo de como escândalos de corrupção dilapidaram ainda mais nosso futebol. Por causa dos dirigentes corruptos que fizeram carreira na confederação, a FIFA bloqueou um fundo de legado da Copa superior a 300 milhões de reais. Fundo este que, entre outros projetos, deveria ter bancado medidas de proteção para que jovens atletas não tivessem seus sonhos arruinados por violências tão cruéis como o abuso sexual.

Nesses quatro anos entre uma Copa e outra, entre a assinatura e o descumprimento do pacto, foram registrados 79 casos de abuso contra crianças e adolescentes no futebol brasileiro. Diante do cenário dramático, como admitiu o secretário, a CBF responde com passividade, ironias e mais promessas. O legado da Copa, pelo menos para os futuros jogadores do Brasil, foi um mero acordo de fachada, que, segundo a confederação, não deveria nem ter existido porque seus cartolas, pobrezinhos, eram corruptos demais para cumpri-lo.

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