Simone Tebet, sobre offshores de Guedes: “As pessoas estão relativizando o imoral, o promíscuo”

Líder da bancada feminina, senadora diz que Paulo Guedes não será demitido, apesar de revelações sobre offshore. Afirma que CPI da Pandemia já fez mais do que todas as Comissões anteriores e avalia que faltam líderes políticos no Brasil

A senadora Simone Tebet (MDB-MS) no Senado Federal. Imagem cedida pela assessoria da parlamentar.
A senadora Simone Tebet (MDB-MS) no Senado Federal. Imagem cedida pela assessoria da parlamentar.Diego Bresani

Líder da bancada feminina no Senado Federal, a advogada Simone Tebet (Três Lagoas, 1970), tem se destacado como uma das vozes mais contundentes da CPI da Pandemia, mesmo não tendo assento permanente na comissão. Sua atuação política nos últimos anos, em que disputou duas vezes a presidência do Congresso Nacional, a colocaram como mais um dos possíveis nomes da terceira via que busca se contrapor ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 2022.

Na entrevista ao EL PAÍS, feita por videoconferência no dia 4 de outubro, a senadora, que se aproxima de concluir seu primeiro mandato pelo MDB de Mato Grosso do Sul, fala do pleito do próximo ano, defende a participação das mulheres na política e diz que, com o término da CPI —previsto para o próximo dia 20— caberá ao Ministério Público seguir nas dezenas de apurações iniciadas pelos parlamentares. “A PGR não pode virar as costas pra população brasileira”. A parlamentar ainda disse se espantar que, no atual Governo, houve uma conivência com práticas que não seriam aceitas em gestões passadas, como um ministro da Economia movimentando milhões de dólares em uma offshore. “As pessoas estão relativizando o anormal, o ilegal, o imoral, o que é promíscuo”.

Pergunta. Como viu as revelações do Pandora Papers no Brasil, que constataram que o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, tinham offshore no Caribe? O que deveria ocorrer com eles, na sua avaliação?

Resposta. São duas situações um pouco diferentes, é preciso, nesse aspecto, ter esse cuidado. Especialmente em função do fato do presidente do Banco Central ter declarado pro Senado que ele tinha a conta e não fez movimentação financeira. Isso, em princípio, faz diferença. Em relação ao ministro Paulo Guedes, a situação me parece mais delicada. Eu diria que agora está explicado por que Paulo Guedes achou que tinha descoberto 14 milhões de invisíveis. Nunca houve invisíveis coisa nenhuma no Brasil. A política sempre foi feita para essas pessoas. No caso dele ficou claro que não era miopia, não era uma visão distorcida. No caso dele é uma cegueira política absoluta. O ministro não tem empresa, não gera emprego, tem informação privilegiada.

P. A senhora acha que isso deve render demissão dele?

R. Infelizmente, não. Na política, as pessoas estão relativizando o anormal, o ilegal, o imoral, o que é promíscuo. O que não era admitido com outros presidentes da República, agora é de uma forma tal que eu não estou conseguindo realmente entender o que está acontecendo. Me refiro também ao mercado e ao setor empresarial. É claro que nós sabemos as razões por trás. A classe política tem um Centrão hoje que se beneficia do Governo. O mercado está ganhando dinheiro. O setor produtivo é primário. E sendo primário, com dólar é ótimo para quem exporta. A gente entende as razões econômicas, mas a gente não entende as razões políticas, as razões morais.

P. Quer dizer que se fosse em outro Governo, seria diferente?

R. Por muito menos a Dilma Rousseff (PT) caiu. Por muito menos quiseram tirar o ex-presidente Michel Temer (MDB). Só não o tiraram por uma questão estratégica. O Fernando Collor caiu por causa de um Fiat Elba, que foi a única digital dele que conseguiram comprovar dentro de todo o processo. As pessoas estão relativizando o que é intolerável na política. É algo crescente que o presidente da República estimula desde o primeiro dia de seu Governo. Ele testa a nossa paciência, testa os nossos limites, testa os limites da sociedade em todos os aspectos. Cria crises artificiais pra ocultar a sua incapacidade de governar. Isso acaba gerando crises reais. Ele acaba gerando recessão, aumento da desigualdade, fome, miséria, desemprego, aumento da inflação e no meio disso tudo você tem uma pandemia sanitária descontrolada. No meio surge uma epidemia política gerada pelo presidente.

É um governo que cria crises artificiais pra ocultar a sua incapacidade de governar

P. No ano passado, você disse em entrevista a este jornal que não via o risco de uma ruptura institucional nem de um impeachment de Jair Bolsonaro. Segue com essa avaliação?

R. O presidente da República testou. Mas as vozes institucionais fizeram ser ouvidas, especialmente a do Poder Judiciário, e, como coadjuvante, o Poder Legislativo. O presidente [do STF] Luiz Fux deixou claro, ninguém fecha o Supremo Tribunal Federal. Ninguém ameaça a democracia. O Supremo fez o dever casa, em todos os aspectos, naquilo que nós sabemos e que nós não sabemos. Não foram só recados, foram ações.

P. Houve uma mobilização intensa nos bastidores, não?

R. Sim. Mas também houve reação da classe política, nas ruas, manifestação legítima e pacífica com a união, inclusive, de vozes que tem ideologias distintas. E quando o presidente deu um passinho pra trás com aquela carta ele frustrou os seus seguidores, ele perdeu um nicho, ele se desmoralizou e agora nem que ele quisesse conseguiria romper com nada. Ele vai continuar no seu tempo, flertando com autoritarismo.

P. Bolsonaro ainda tem apoio de parte do eleitorado. Até por isso, ele ainda tem entre 20% e 25% de apoio para 2022. Essa base não o apoiaria numa ruptura?

R. Não o apoia, porque tem apenas cerca de 15% que quer fechar o Supremo, que quer uma imprensa tolhida, limitada, uma rede social de terra arrasada pra inventar fake news, distorcer a realidade. Não, não há chance de ruptura.


A senadora Simone Tebet (MDB-MS) no Senado Federal no dia 19 de agosto de 2021. Imagem cedida pela assessoria da parlamentar.
A senadora Simone Tebet (MDB-MS) no Senado Federal no dia 19 de agosto de 2021. Imagem cedida pela assessoria da parlamentar.Diego Bresani

P. Os dois protestos contra o Governo não conseguiram grande adesão. Falta unidade desses movimentos?

R. Nenhum movimento popular começa com multidão. As Diretas Já começaram com 5.000 pessoas. Depois, virou um mar de gente. Eu fui fora, Collor. Eu me lembro que foram várias as manifestações dos caras pintadas. Começamos em pequenos grupos no ensino médio de jovens saindo nas ruas das escolas e começando a encher as avenidas das capitais. No caso da Dilma, da mesma forma. Claro que ali teve uma movimentação mais rápida por outros fatores, inclusive as redes sociais. E no caso do Bolsonaro, houve gente na rua. E não estava unida a direita com a esquerda, que convergem na pauta democrática. A capacidade de mobilização de rua depende de também do fator temporal. Não se teve tempo para promover esse movimento. E falta um fato novo para ele eclodir.

P. Com 2021 acabando e 2022 sendo ano eleitoral, dá tempo de acontecer um impeachment?

R. Ainda, que ele não se conclua, basta ele se iniciar pra mudar todo o processo político do Brasil. Veja o que aconteceu com o Collor. Ele renunciou. Eu não estou dizendo que eu acredito que vá acontecer. Há uma probabilidade. Acho que não vai aparecer um fato novo. Mas se esse estopim surgir de algum lugar, sim é uma probabilidade do impeachment se viabilizar.

P. Iniciar um processo de impeachment seria para retirar o Bolsonaro da disputa eleitoral de 2022?

R. Nossa luta hoje é para retirá-lo do segundo turno. Mas pode ser que ele mesmo queira sair do processo eleitoral. Com as pesquisas mostrando que ele não tem condições de chegar ao segundo, ele pode escolher um personagem, buscar uma alternativa que fale em nome dele. Pode achar um que dê continuidade ao bolsonarismo. Ele pode escolher um ministro ou alguém que possa estar representando e falando por ele. Alguém para representar a extrema direita e tentando conquistar ainda a direita, que hoje está descrente, que está decepcionada.

P. Como você entra nessa terceira via? O MDB deve lançar seu nome como pré-candidata à presidência. Vai concorrer mesmo?

R. Eu entro na terceira via e ponto. Entro na busca de um nome de consenso, que tenha condições eleitorais de tirar o presidente Bolsonaro do segundo turno. Entro nesse diálogo que quer convergência, união e um candidato de equilíbrio que defenda a democracia, que é o elemento básico que une a direita e a esquerda.

P. Sendo direta. A senhora é candidata à Presidência?

R. Estarei nesse processo. Se como candidata à reeleição ao Senado, se apenas como uma porta-bandeira, se como uma pré-candidata à Presidência pelo meu partido, se em qualquer outro lugar, estarei disposta a dialogar. Se a situação continuar como está, nós já temos dois candidatos no segundo turno, o atual presidente e o ex-presidente Lula. Até acho que a terceira via pode ter dois nomes, incluindo o do Ciro Gomes [PDT – ex-governador do Ceará]. Temos de ter a capacidade de atrair atenção, o olhar do povo brasileiro.

P. Cientistas políticos dizem que o problema da terceira via é a falta de um líder. Faz sentido?

R. Sim. A meu ver hoje o que falta para a terceira via é o nome que as pessoas parem para querer escutar. Falta aquele político que as pessoas pelo menos parem para prestar atenção no que este candidato tem a dizer. Eu não estou nem atrás de estadista, que não existem mais no Brasil. No mundo, dá para contar nos dedos de uma mão quantos estadistas existem. Estamos falando em carência de líderes. Pessoas que com apenas um olhar, um gesto, uma fala, conduzem. Pessoas que tenham a capacidade de mudar rumos, de indicar caminhos.


P. Um eventual pedido de impeachment tem uma barreira na Câmara, com Arthur Lira que não inicia o processo.

R. O que falta para o impeachment não é o presidente da Câmara dar o start. Falta povo na rua pedindo o impeachment. Foi assim com Collor, que saiu antes do fim do processo, foi assim com Dilma e não foi assim com o Temer porque também não teve elemento político. Acho que é preciso que algo aconteça muito forte, muito específico. Um exemplo que pode vir desse resto de pandemia. Se surgir algum vídeo, algum áudio, alguma fala atravessada falando de forma totalmente fria, sem emoção e sem empatia. Vamos lembrar que o movimento de 2013 [que precedeu o movimento anti-Dilma] aconteceu porque, através de rede social, tentaram fazer um protesto por conta do reajuste de 20 centavos no transporte coletivo em São Paulo. Ou seja, a gota d’água não tinha relação com ela. O que há de mais grave do que 14 milhões de pessoas desempregada e 50 milhões de pessoas diante da insegurança alimentar média, grave ou moderada no Brasil? Só que o estopim ainda não apareceu.

CPI da Pandemia

P. O que está faltando para acabar a CPI da Pandemia? Até onde vocês chegaram?

R. Se ela quisesse acabar hoje, já teria como. Essa CPI fez muito mais do que todas as CPIs juntas que tivemos no Brasil. A CPI fez o Governo descontinuar uma política insana na pandemia. Ela interrompeu uma estratégia de imunidade de rebanho com o gabinete paralelo que, com base no negacionismo e financiada de forma irregular tentava implantar na população brasileira uma estratégia de contaminação por contato pra que voltasse imediatamente ao mercado de trabalho. Ela demonstrou a omissão dolosa do Governo Federal no atraso na compra de vacina, do kit intubação e de medicamentos. Ela fez com que o Governo começasse a coordenar e planejar uma política de saúde pandêmica, que não tinha. E fez o Brasil comprar vacina com pressa. Ela ainda impediu a compra superfaturada de vacinas e impediu corrupção nos contratos no Ministério da Saúde. Ela pôs luz dentro da política brasileira também.

P. A que se refere? A ataques contra políticos?

R. Sim. A CPI expôs preconceitos em rede nacional. Preconceito em relação à mulher na política, em relação à comunidade LGBT. Mostrou a homofobia que existe na sociedade brasileira no episódio do senador Fabiano Contarato [REDE-ES]. Acho que isso é relevantíssimo também. E ela entra numa uma seara delicada que envolvendo os planos de saúde. A CPI está entregando um combo completo para o maior órgão de fiscalização e controle do Brasil que é o Ministério Público. Ela fez o dever de casa.


P. O EL PAÍS publicou sobre o envolvimento da Hapvida na distribuição de cloroquina e na omissão de óbitos por covid-19. Dá tempo de se aprofundar nessa questão dos planos de saúde?

R. Não, não precisa e não deve. Porque, se não, nós passamos a entrar numa atribuição que não é nossa. É do Ministério Público. Está na hora de entregar o bastão para o Ministério Público. Essa é uma corrida que não é de cem metros, ela é uma corrida de longa distância, uma maratona com revezamento. Cada atleta faz o seu dever. A CPI apurou. A CPI ouviu. A CPI juntou documentos. A CPI juntou as peças do quebra-cabeça. Começou a montar o cenário. E agora quem tem de analisar é o responsável pela fiscalização e controle, que tem todos os poderes constitucionais, o Ministério Público.

P. Até agora o procurador-geral da República, Augusto Aras, pouco agiu nessa seara. Confia que agora agirá?

R. Eu não tenho medo nenhum em relação a isso. Com tudo que entregarmos, você terá ali pessoas que vão ser processadas pela Justiça estadual, outras na Justiça Federal. A PGR não pode virar as costas para a população brasileira. A PGR não pode virar as costas para legião de promotores e procuradores do Brasil, na primeira instância, que está lá na base da pirâmide olhando para cima para ver o que o chefe vai fazer. Eu confio na ação do PGR como expressão do próprio Ministério Público em relação a muitos atores. Eu não vou dizer do Presidente da República, eu não estou aqui fulanizando. A CPI foi muito além do presidente. Nós tivemos núcleos político, núcleo militar, núcleo de intermediários e núcleo de empresários que também agiram à revelia do presidente da República. Ele não tinha conhecimento de tudo. Então, eu não estou preocupada se isso vem por osmose, isso vem por pressão. Se o Ministério Público, o Poder Judiciário e a PGR simplesmente derem andamento a 80% do que a CPI vai apresentar, nós já vamos ter processos espalhados pelo Brasil, pelos próximos dois, três ou quatro anos.

Parece que, para a mulher, a ousadia é estar na vida pública

P. Você foi alvo de ataque misógino do ministro Wagner Rosário [CGU] na CPI, que depois se desculpou. Como lidou com isso?

R. Eu citaria o poeta Gonçalves Dias: “A vida é luta renhida, / que aos fracos abate, /e aos fortes, só faz exaltar”. Eu acho que essa é uma é uma luta da bancada feminina, a de a mulher na política. Tratei essa questão como algo pedagógico. Isso é exatamente o que acontece com a mulher que ousa gritar, que ousa elevar a voz, que ousa desafiar. Aconteceram pelo menos três episódios lamentáveis com a bancada feminina na CPI. Se a mulher é fraca, ela não serve pra política. Se ela grita, se ela se impõe, se ela vai com argumentos que de alguma forma diminui a autoridade do homem que faz política dizem que você não está pronta, é uma descompensada, é uma incompetente. Foi o que aconteceu comigo. Não pode chamar a mulher de descontrolada, de histérica. Eu de forma muito contundente, mas muito moderada, equilibrada, diminuí o CGU, que é um técnico, diante de seus pares. Quando ele se sentiu diminuído, ele veio com essa reação. Foi chamado de mentiroso, de moleque por senadores homens e nada aconteceu. Quando eu, com argumentos técnicos o diminuí, ele não tinha uma reação técnica. Tem conotação e implicação histórica e o desejo de desestabilizar a mulher. Não podemos aceitar isso. Parece que, para a mulher, a ousadia é estar na vida pública.


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