Machismo à esquerda e à direita na política brasileira

As mulheres ocupam apenas 15% das cadeiras do Congresso Nacional, e as poucas representantes nesse espaço ainda lidam com violência machista verbal e simbólica entre seus pares

A senadora Simone Tebet confronta o ministro da CGU Wagner Rosário durante sessão da CPI da Pandemia, no dia 21 de setembro.
A senadora Simone Tebet confronta o ministro da CGU Wagner Rosário durante sessão da CPI da Pandemia, no dia 21 de setembro.Leopoldo Silva (Leopoldo Silva/Agência Senado)

Histérica. Louca. Descontrolada. Bruxa. Os insultos historicamente usados para desqualificar uma mulher aludem a sua sanidade mental, a uma suposta superioridade cromossômica e hormonal dos machos, sempre em controle de si mesmos —e do mundo. Essas ofensas que persistem em pleno 2021 ecoam com maior gravidade quando repetidas a plenos pulmões em espaços políticos, como aconteceu na quarta-feira com a senadora Simone Tebet (MDB), que foi chamada de descontrolada por Wagner Rosário, ministro da Controladoria-Geral da União (CGU), durante sessão da CPI da Pandemia. “Quando a mulher começou a buscar espaços de poder, ela passou a ser taxada de uma pessoa histérica, uma pessoa louca, uma pessoa descontrolada. Essa palavra não vem à toa, ela está no inconsciente daqueles que ainda acham que mulheres são menores, inferiores”, afirmou Tebet depois do ocorrido.

Por coincidência histórica —ou não—, Tebet foi a primeira mulher a se candidatar à presidência do Senado, em 130 anos de história da Casa do Povo no Brasil, e isso só aconteceu neste ano. Não foi eleita. O Brasil ocupa o 152º lugar no ranking internacional da Inter-Parliamentary Union sobre a presença feminina nos parlamentos, ficando atrás não só dos vizinhos México e Argentina, como também de países como a Somália e até o Afeganistão, antes da volta dos talibãs ao poder. Elas ocupam apenas 15% das cadeiras do Congresso Nacional.

“É por isso que os homens se sentem muito à vontade para tentar diminuir a voz de mulheres. Tanto na plateia, ali, quanto entre seus pares, a imensa maioria ainda é de homens. Isso cria uma ilusória percepção de que há uma hierarquia, porque, afinal, é visual, é numérico”, analisa Giulliana Bianconi, codiretora da revista Gênero e Número e especialista no estudo de mulheres na política.

Um dia antes do ataque a Tebet na CPI, a deputada socialista espanhola Laura Berja foi chamada de bruxa pelo colega ultradireitista José María Sánchex, do partido VOX, enquanto defendia no plenário o direito de mulheres abortarem sem serem acossadas nas portas dos hospitais —o aborto é legalizado na Espanha. Como escreve a colunista do EL PAÍS Luz Sánchez-Mellado, o deputado não apenas desumanizou a colega, mas ressuscitou o fantasma da fogueira, o maior castigo imposto àquelas que, séculos atrás, ousaram desafiar a lógica e o poder dos homens.

“Violências recorrentes nesses espaços de poder estão ficando mais visíveis. No caso da Tebet, houve uma tentativa de desestabilizá-la, de diminuir sua função e limitar o exercício de poder de seu cargo com linguajar de violência que são seculares”, diz Amanda Kamanchek, gerente da Think Olga e diretora do documentário Chega de Fiu Fiu.

Tanto Kamanchek quanto Bianconi ressaltam, no entanto, a importância da reação no caso da agressão à senadora brasileira: imediatamente, Tebet foi apoiada por muitos dos colegas da CPI, inclusive homens, que acusaram o ministro da CGU de “machista” e censuraram sua tentativa de “agredir” a senadora. “Já há uma compreensão de que essa violência não é aceitável. Mas, nos espaços corporativos, por exemplo, essas mulheres continuam sendo chamadas de descontroladas sem ter nenhum respaldo”, lembra a gerente da Think Olga. Trata-se, segundo ela, de uma agressão social e cultural, “um duplo ataque”, que vem não apenas do indivíduo que agride diretamente, mas também do ambiente social, que, muitas vezes, respalda essa violência.

No caso dos espaços da política brasileira, onde a presença de mulheres é uma realidade de menos de três décadas, evocar o estereótipo da mulher que não tem equilíbrio significa reforçar a ideia de que elas não têm vocação ou o dom de ocupar um lugar tão hostil. A deputada federal Tabata Amaral, que esta semana trocou o PDT pelo PSB, tem sido um dos alvos preferidos do machismo político, uma violência suprapartidária e que atravessa todos os espectros ideológicos. No início da semana, o ator José de Abreu compartilhou nas redes sociais uma publicação na qual um homem dizia que “socaria” a deputada “até ser preso” e foi apoiado por tuiteiros de esquerda. Ela própria havia se solidarizado com Simone Tebet, desejando “força” à senadora, e recebeu uma nota de apoio da Secretaria da Mulher da Câmara dos Deputados contra as agressões que sofreu nas redes. “Só teremos uma democracia plena quando as mulheres puderem atuar politicamente de forma segura”, afirmou Amaral.

A deputada publicou um artigo no jornal Folha de S.Paulo neste sábado em que alude no título ao episódio com o ator (‘Se encontro na rua, soco até ser preso’, retuitou José de Abreu) e reúne algumas das ofensas que recebeu nos últimos anos: “Quem você quer provocar com esse batom vermelho? Linda, não precisava nem abrir a boca. Mocinha, se inscreve no Big Brother, põe um silicone e tenta algo na TV ou na indústria pornô! Foi para Harvard, mas com certeza foi uma aluna medíocre lá. Adiantou pouco ter estudado em Harvard, informou-se até em astronomia, mas não se educou nem aprendeu a pensar. Você é muito burra, meu Deus, como pode. Meu anjo, cala a boca”. “Jamais seremos um país realmente democrático enquanto a política não for um espaço seguro, física e psicologicamente, para as mulheres”, conclui Amaral no artigo.

“Temos que combater essa desqualificação, porque se só mulheres saem em defesa de mulheres, parece que é uma questão meramente feminina, quando, na verdade, trata-se de uma questão de equidade social”, afirma Giulliana Bianconi. A especialista lembra que, desde o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff (PT) —que sofreu diversos ataques machistas tanto nas ruas quanto no Congresso antes, durante e depois de seu processo de destituição— o não reconhecimento da importância das mulheres na política se intensificou. “Há uma validação do discurso de ódio contra a mulher no Governo atual, ainda que não seja de forma explícita, mas com uma política que não dialoga com a reivindicação dos nossos direitos”, diz.

Bianconi destaca, por exemplo, que todos os sete Projetos de Lei relacionados aos direitos reprodutivos das mulheres que tramitam na Câmara dos Deputados buscam impedir ou criar barreiras para o acesso ao aborto mesmo nos casos previstos por lei. “Isso mostra que a política brasileira é tão avessa aos nossos direitos que mesmo os partidos e grupos que poderiam trabalhar para ampliá-los se recolhem numa espiral de silêncio, porque é uma pauta que gera muito desgaste. O momento é zero amigável para se caminhar com essas pautas de avanço”, lamenta. Ela lembra que a pesquisadora Debora Diniz, colunista do EL PAÍS, precisou deixar o Brasil justamente por sofrer constantes ameaças ao se destacar como uma voz em defesa dos direitos das mulheres.

Bianconi diz também que, ainda que a representatividade seja sempre importante, a violência política não é diretamente proporcional ao número de mulheres presentes nesses espaços. “Óbvio que quanto mais mulheres na Câmara, no Senado, no Governo, em geral, a reação contra esse machismo vai ser maior, mas essa violência política é um fenômeno por si só e temos que enfrentar seus mecanismos.” O primeiro deles, segundo ela, é a forma como os partidos lidam com as mulheres que ingressam nessas siglas. “É aqui que está o grande funil, é onde vemos muitos casos de desistência de uma carreira nessa esfera, porque elas não têm acesso aos espaços decisórios dentro dos partidos, muito menos acesso aos recursos quando se candidatam. Muitas siglas sequer têm secretarias de mulheres”, conta. Quando se trata de violência machista na política, os pequenos golpes já começam na origem.

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