George Soros: “Trump está disposto a fazer quase qualquer coisa para continuar no poder”

Magnata e fundador da Open Society Foundation afirma que a União Europeia é “mais vulnerável” do que os EUA e que a China é uma ameaça maior às sociedades abertas do que a Rússia

George Soros, durante a entrevista em sua residência de Southampton (Estado de Nova York).
George Soros, durante a entrevista em sua residência de Southampton (Estado de Nova York).Myrna Suarez
MARIO PLATERO (LA REPUBBLICA)
Southampton (Nova York) - 12 ago 2020 - 11:48 UTC

George Soros acaba de jogar uma partida de tênis. Aos 90 anos, joga três vezes por semana. Evidentemente, sua mobilidade já não é a mesma, mas marca seus pontos com impecável elegância. E quando comete uma dupla falta no saque, seus rugidos de frustração são intimidadores. Poucos dias antes de seu aniversário [nascido em Budapeste em 12 de agosto de 1930], está em perfeita forma física e mais determinado do que nunca para continuar lutando por uma sociedade aberta. Assim que nos sentamos em sua casa para a entrevista —La Repubblica faz parte da aliança de veículos de imprensa europeus LENA— lhe pergunto pela atual situação da pandemia.

Pergunta. O coronavírus desarranjou a vida do planeta. Como vê a situação?

Resposta. Estamos em uma crise, a pior crise que vivenciei desde a Segunda Guerra Mundial. Eu a descreveria como um momento revolucionário, em que a gama de possibilidades é muito maior do que em tempos normais. Aquilo que em uma situação de normalidade seria inconcebível, não só se torna possível, como de fato acontece. As pessoas estão desorientadas e assustadas. Fazem coisas que são ruins tanto para elas mesmas como para o mundo.

P. O senhor também se sente confuso?

R. Talvez um pouco menos do que a maioria. Desenvolvi um marco conceitual que me coloca ligeiramente à frente do pelotão.

P. E como vê a situação na Europa e nos Estados Unidos?

R. Acho que a Europa é muito vulnerável, muito mais do que os Estados Unidos. Os EUA são uma das democracias mais longevas da história. Mas até mesmo aqui, um enganador como [Donald] Trump pode ganhar eleições presidenciais e destruir a democracia de dentro. Os EUA, entretanto, têm uma longa trajetória na implementação de controles e contrapesos, e possuem regras bem estabelecidas. E, principalmente, têm a Constituição. De modo que estou convencido de que Trump será um fenômeno transitório que, com um pouco de sorte, acabará em novembro. É, entretanto, um indivíduo muito perigoso porque está lutando por sua vida e está disposto a fazer praticamente qualquer coisa para se manter no poder, porque infringiu a Constituição de muitas maneiras diferentes. Se perder a presidência, terá que prestar contas. Mas a UE é muito mais vulnerável, porque é uma união incompleta. E tem muitos inimigos, tanto internos como externos.

P. Quem são os inimigos internos?

R. Há muitos líderes e movimentos que se opõem aos valores fundamentais da UE. Existem dois casos em que esses inimigos chegaram ao poder e capturaram o Governo: Viktor Orbán na Hungria e Jaroslaw Kaczynski na Polônia. E justamente a Polônia e a Hungria são os maiores receptores do fundo estrutural distribuído pela UE. Mas minha maior preocupação é a Itália. Um líder antieuropeu muito popular, Matteo Salvini, conseguiu ganhar muito terreno até que superestimou seu sucesso e desmembrou o Governo. Isso foi um erro fatal. Agora sua popularidade está caindo. Mas foi efetivamente substituído por Giorgia Meloni, do partido Fratelli d’Italia, que é mais extremista. A coalizão de Governo atual é muito frágil.

A única coisa que os une é o desejo de evitar eleições, que as forças antieuropeias certamente ganhariam. E estamos falando de um país que já foi o partidário mais entusiasta da Europa. Porque as pessoas confiavam na UE mais do que em seus próprios Governos. Mas agora as pesquisas de opinião pública revelam que os números dos partidários da Europa estão encolhendo, e que o apoio a permanecer na zona do euro está diminuindo. Mas a Itália é um dos maiores membros, é muito importante à Europa. Não posso imaginar uma União Europeia sem a Itália. A grande pergunta é se a UE será capaz de dar apoio suficiente à Itália.

P. A UE acaba de aprovar um fundo de recuperação de 750 bilhões de euros [4,8 trilhões de reais]...

R. É verdade. A UE deu um passo muito grande e positivo ao se comprometer a pedir dinheiro emprestado ao mercado, a uma escala muito maior do que jamais fez. Mas também é verdade que alguns Estados, os chamados cinco frugais: Holanda, Áustria, Suécia, Dinamarca e Finlândia, conseguiram tornar o acordo menos eficaz. A tragédia é que todos eles são basicamente pró-europeus, mas são muito egoístas. E muito frugais. E levaram a um acordo que será inadequado. As reduções na magnitude dos planos para a mudança climática e a política de defesa são particularmente decepcionantes. Em segundo lugar, também querem se assegurar de que o dinheiro seja gasto corretamente. Isso causa problemas aos Estados do sul, que foram os mais afetados pelo vírus.

P. Ainda acredita em um bônus perpétuo europeu?

R. Ainda não o dou por perdido, mas não acho que exista tempo suficiente para ser aceito. Vou explicar o que torna os bônus perpétuos tão atrativos e por que são uma ideia pouco prática nesse momento. Como seu nome sugere, o principal de um bônus perpétuo é nunca precisar ser pago, somente seus juros. Assumindo uma taxa de juros de 1% bem generosa em um momento em que a Alemanha é capaz de vender bônus a 30 anos com uma taxa de juros negativa, o serviço da dívida de um bônus de um trilhão de euros (6 trilhões de reais) custaria somente 10 bilhões de euros (63 bilhões de reais) por ano. Isso representa uma baixíssima relação custo/benefício de 1:100. Além disso, o trilhão de euros estaria disponível imediatamente, em um momento em que se necessita com urgência, enquanto os juros devem ser pagos com o tempo, e quanto mais tempo transcorrer menor é o valor presente descontado. Então, por que não são emitidos? Os compradores do bônus devem ter garantias de que a União Europeia seja capaz de pagar os juros da dívida. Para isso seria necessário que a UE tivesse recursos suficientes (ou seja, capacidade de arrecadar impostos) e os Estados membros estão bem longe de autorizar tais impostos. Os antigos quatro frugais, Holanda, Áustria, Suécia e Dinamarca (que agora são cinco, porque a Finlândia se juntou a eles), se opõem. Os impostos sequer precisariam ser cobrados, sua mera autorização bastaria. Em poucas palavras, isso é o que torna impossível a emissão de bônus perpétuos.

P. A chanceler Merkel não poderia fazer algo a respeito, determinada a fazer com que sua presidência seja um sucesso?

R. Está fazendo seu melhor esforço, mas enfrenta uma oposição cultural fortemente arraigada. A palavra alemã Schuld tem duplo significado; significa “dívida” e “culpa”. Os que se endividam são culpados. Isso não leva em consideração que os credores também podem ser culpados. Essa é uma questão cultural muito, muito arraigada na Alemanha. Criou um conflito entre ser alemão e europeu ao mesmo tempo. E explica a recente decisão do Supremo Tribunal da Alemanha, que entra em conflito com o Tribunal de Justiça da UE.

P. Quem são os inimigos externos da Europa?

R. São numerosos, mas todos têm uma característica em comum: se opõem à ideia de uma sociedade aberta. Eu me tornei um defensor apaixonado da UE porque a considero uma verdadeira personificação da sociedade aberta em escala europeia. A Rússia costumava ser o maior inimigo, mas ultimamente a China lhe arrebatou a supremacia. A Rússia dominou a China até a época de Nixon, que entendeu que se a China se abrisse e ele apoiasse seu desenvolvimento, poderia enfraquecer tanto o comunismo em si como a União Soviética. Sim, foi destituído, mas tanto ele como Kissinger foram grandes estrategistas. Suas ações levaram às grandes reformas realizadas por Deng Xiaoping.

Hoje em dia, as coisas são muito diferentes. A China é o líder no campo da inteligência artificial. A inteligência artificial gera instrumentos de controle que são muito úteis a uma sociedade fechada, e que representam um perigo mortal a uma sociedade aberta. Inclina a balança a favor das sociedades fechadas. A China atual é uma ameaça muito maior às sociedades abertas do que a Rússia. E nos EUA existe um consenso bipartidário de que a China é um rival estratégico.

P. Voltando à questão do coronavírus, é proveitoso ou prejudicial às sociedades abertas?

R. Definitivamente prejudicial, porque os instrumentos de supervisão produzidos mediante inteligência artificial são muito úteis para controlar o vírus, coisa que torna esses instrumentos mais aceitáveis até mesmo em sociedades abertas.

P. Como chegou a ter tanto sucesso nos mercados financeiros?

R. Como disse antes, desenvolvi um marco conceitual que me deu uma vantagem. É focado na complexa relação entre o pensamento e a realidade, mas eu usei o mercado como campo de testes para corroborar a validade de minha teoria. Posso resumi-la em dois postulados simples. O primeiro é que, em situações em que existem participantes pensantes, a visão do mundo desses participantes sempre está incompleta e distorcida. Isso é a falibilidade. O outro é que essas visões distorcidas podem influenciar na situação em que estão vinculadas, porque as visões distorcidas podem levar a ações inapropriadas. Isso é a reflexividade. Essa teoria me deu uma vantagem em sua época, mas agora que meu livro A alquimia das finanças se transformou em obra de consulta quase obrigatória aos participantes profissionais no mercado, perdi minha vantagem. Percebi isso, e já não participo ativamente no mercado.

P. Seu marco conceitual lhe indica que deveria se preocupar pela desconexão vista entre as avaliações do mercado e a fragilidade da economia? Estamos em meio a uma bolha impulsionada pela imensa liquidez gerada pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA)?

R. Você foi direto ao ponto. O Fed fez um trabalho muito melhor do que o presidente Trump, que o criticou. Inundou de liquidez os mercados. Atualmente existem duas considerações que sustentam o mercado. Uma delas é que se espera que ocorra a curto prazo uma injeção de estímulos fiscais ainda maior do que o 1,8 trilhão de dólares (9,8 trilhões de reais) da lei CARES; a outra é que Trump anunciará a existência de uma vacina antes das eleições.

P. O senhor doou 220 milhões de dólares (1,2 bilhão de reais) às causas de igualdade racial e relacionadas à população negra. Qual seria sua avaliação Black Lives Matter?

R. É muito importante, porque essa é a primeira vez que grande parte da população, além do segmento demográfico afro-americano, reconhece que existe discriminação sistêmica contra os negros, cuja origem se remonta à época da escravidão.

P. Muitos opinam que, após a covid-19 e a experiência de teletrabalho, o futuro das cidades e das áreas metropolitanas está em risco.

R. Muitas coisas mudarão, mas é muito cedo para prever como. Lembro que, após a destruição das Torres Gêmeas em 2001, as pessoas pensavam que ninguém mais gostaria de voltar a morar em Nova York, e poucos anos depois esse conceito foi esquecido.

P. Nessa revolução estão demolindo estátuas e o politicamente correto está se tornando importantíssimo.

R. Alguns o chamam de cultura do cancelamento. Acho que é um fenômeno temporário. Também acho que se exagerou muito. Por outro lado, o politicamente correto nas universidades está muito, muito exagerado. Como defensor de uma sociedade aberta, considero que o politicamente correto é politicamente incorreto. Nunca devemos nos esquecer que de a pluralidade de pontos de vista é fundamental às sociedades abertas.

P. Se pudesse enviar uma mensagem ao povo europeu, qual seria?

R. S.O.S. Mas se a Europa está realizando suas costumeiras férias de agosto, a reativação das viagens pode ter precipitado uma nova onda de infecções. Se procuramos uma referência paralela, a epidemia de gripe espanhola salta aos olhos imediatamente. Teve três ondas, das quais a segunda foi a mais mortífera. A epidemiologia e a ciência médica em geral avançaram muito desde então, e estou convencido de que a experiência não deve se repetir. Mas, para poder dar os passos necessários para evitar uma segunda onda, primeiro é necessário admitir a possibilidade de sua existência. Não sou especialista em epidemiologia, mas tenho certeza de que as pessoas que usam o transporte público devem usar máscaras e tomar outras precauções.

A Europa também enfrenta outro problema existencial: não tem dinheiro suficiente para lidar simultaneamente com o vírus e a mudança climática. Em retrospectiva, está claro que a reunião em pessoa do Conselho Europeu foi um grande fracasso. O curso traçado pela União Europeia produzirá pouco dinheiro, e tarde demais. Isso me faz pensar novamente na ideia dos bônus perpétuos. Em minha opinião, os quatro frugais, ou os cinco, devem reconhecer isso: em vez de se opor à ideia, deveriam se transformar em grandes defensores dela. Somente sua genuína conversão pode tornar aceitáveis os bônus perpétuos aos investidores da UE. Sem eles, existe a possibilidade de que a União Europeia não sobreviva. Isso seria uma perda terrível, não só à Europa, mas para o mundo inteiro. E isso não só é possível, como provável. Acho que, se o público pressionar o suficiente, as autoridades podem evitar que ocorra.

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