Pandemia de coronavírus

Aceleração de contágios na Espanha alarma Europa sobre segunda onda de coronavírus

País tem a quinta maior incidência do continente, muito superior à do Reino Unido e França. Vários Governos limitam viagens à Península Ibérica

Passageiros observam informações sobre voos no terminal 4 do aeroporto Adolfo Suárez, em Madri, neste domingo.
Passageiros observam informações sobre voos no terminal 4 do aeroporto Adolfo Suárez, em Madri, neste domingo.Víctor Lerena / EFE

O ritmo de contágios cresce na Espanha. Isso já vinha sendo observado há quatro semanas, mas se intensificou nos últimos dias. No tabuleiro europeu, proporcionalmente à população, a Espanha ocupa agora o quinto lugar em incidência do coronavírus, atrás de Luxemburgo, Romênia, Bulgária e Suécia. Segundo os últimos dados do Centro Europeu de Controle de Doenças (ECDC), de 25 de julho, a Espanha tem 39,4 casos por 100.000 habitantes (incidência acumulada nos 14 dias anteriores). O Reino Unido, que no domingo decretou a quarentena forçada para qualquer pessoa que chegue da Espanha, dando com isso o tiro de misericórdia na temporada turística do país mediterrâneo, está em 14,7. A situação britânica é similar à da França (14,6) e, em comparação à Alemanha (7,7 por 100.000), a Espanha tem o quíntuplo de contágios.

Os outros Governos da União Europeia se olham no espelho da Espanha porque, embora estejam em melhor situação, a maioria viu nas últimas semanas um recrudescimento dos casos e um número cada vez maior de novos focos em seus territórios. Os Estados se debatem entre a abertura de suas economias e a imposição de novas restrições, num delicado equilíbrio que começa a derivar em medo de uma segunda onda.

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A Bélgica anunciou nesta semana novas restrições ao comprovar que os contágios aumentam (21,2 casos por 100.000 habitantes): a máscara será obrigatória em mais lugares, como em ruas movimentadas e feiras livres, e quem voltar de férias deverá notificar às autoridades com 48 horas de antecedência. A curva também é ascendente na França, que na sexta-feira notificou 1.130 novos casos. O Instituto Robert Koch, da Alemanha, notificou esta semana um salto no número diário de contágios: de 500 para mais de 800. Como na Espanha, os surtos ali se explicam em sua maioria por festas e atividades de lazer, embora também tenha havido grandes focos em locais de trabalho e eventualmente em hospitais e asilos para idosos.

Não foi só o Reino Unido que tomou medidas para se proteger da Espanha. Assustados por suas próprias cifras de contágios em ascensão, vários países tratam de evitar novas entradas do vírus por suas fronteiras. O primeiro-ministro francês, Jean Castex, recomendou “encarecidamente” à população que não viaje à Catalunha, região que é o novo epicentro da epidemia na Espanha. A França acaba de estabelecer a obrigatoriedade de exames a cidadãos provenientes de 16 países (entre eles o Brasil e os Estados Unidos) para demonstrar na sua chegada ao aeroporto que não são portadores do vírus. Trata-se de países com os quais as fronteiras estão praticamente fechadas, já que a França só permite a entrada, procedentes desses países, de seus cidadãos ou residentes permanentes em seu território.

A Noruega, como o Reino Unido, decretou uma quarentena de 10 dias para quem chegar da Espanha (entre outros países) e recomendou à sua população que não viaje ao país ibérico. A Irlanda anunciou em 22 de julho uma lista verde de países dispensados da quarentena de 14 dias, mas não incluiu a Espanha, por isso os viajantes procedentes desse país continuam precisando se isolar por duas semanas.

A Bélgica, que vê aumentar o número de casos especialmente na faixa etária dos 20 a 30 anos, deu um passo além e proibiu viagens não essenciais às províncias espanholas de Lleida (na Catalunha) e Huesca (em Aragão). Além disso, desde 24 de julho recomenda quarentena a uma série de países que estão numa lista laranja, entre eles certas regiões da Espanha: Aragão, Catalunha, Extremadura, La Rioja, Navarra e País Basco. A Holanda aconselhou seus cidadãos no sábado a não viajarem para Lleida se não for absolutamente necessário. No domingo, a Polônia recomendou à sua população que evite visitar a Catalunha.

Situação desigual

O fato é que a situação epidemiológica na Espanha é muito desigual. Há algumas comunidades (regiões) com um número de contágios tão alto que puxa a média para cima. Não há termo de comparação, por exemplo, entre a incidência acumulada de Aragão (237,86 casos por 100.000 habitantes) com as Astúrias, que detectaram apenas dois pequenos focos desde o início da desescalada, no começo de maio. Sua incidência é de 1,66 casos por 100.000 habitantes. As Astúrias estão agindo com rapidez e com transparência. Assim que detectou o último foco, relacionado com uma cervejaria em Oviedo, a capital regional informou à população, deu o nome do local e, além disso, pediu a colaboração dos cidadãos: todo aquele que tivesse passado pelo Urban’s devia ligar para o 112. Em questão de dois dias as autoridades sanitárias fizeram 400 exames PCR para detectar mais eventuais casos positivos entre os clientes.

Faz algumas semanas que a situação em outros lugares não permite realizar essa mobilização, nem sequer um rastreamento mais modesto dos contatos. Tem sido assim na Catalunha: na área metropolitana de Barcelona, em comarcas de Lleida e numa zona de Girona passou-se dos surtos ao que se conhece como transmissão comunitária, ou seja, a um número de contágios sem conexão entre si, o que impede o monitoramento da cadeia de transmissão. Descontrolados, enfim. A incidência acumulada em 14 dias na Catalunha, que nesta semana tomou a decisão de fechar todos os seus espaços de lazer noturno, está em 111,57 casos por 100.000 habitantes. O último relatório da Generalitat (Governo regional) informa sobre 886 novos diagnósticos num único dia (não todos feitos por PCR, o que significa que alguns podem ser contágios antigos).

Menos casos que no Reino Unido

Por causa dessas diferenças entre os territórios, ocorre o paradoxo de que nove comunidades autônomas espanholas têm menos incidência atual que o Reino Unido. Entre elas, os arquipélagos de Canárias e Baleares, cujos Governos tentam estabelecer corredores aéreos com a Inglaterra para salvar suas temporadas turísticas. Baleares (8 casos por 100.000) e Canárias (5,8) são muitíssimo menos afetadas pelo vírus que os países dos quais procedem os turistas que as visitam.

A Itália (4,9) até agora vinha mantendo o coronavírus sob controle. Na Espanha, apenas Galícia e Astúrias têm menor número de casos acumulados. Mas até mesmo os italianos estão preocupados com uma segunda onda, já que nos últimos dias os contágios também aumentaram. Depois de mais de um mês com um número de novos casos relativamente baixo, nesta semana foram registrados mais de 300 em 24 horas. O virologista italiano Roberto Burioni alertou recentemente sobre os riscos de baixar a guarda. “O vírus continua circulando e está pronto para começar de novo, como fez na Espanha, onde o clima e o estilo de vida certamente não são muito diferentes dos nossos”, escreveu.

Portugal, que já foi considerado exemplo de boa gestão na primeira onda da pandemia, tem agora uma situação similar à da Espanha, com uma incidência acumulada quase idêntica (39 casos por 100.000). Faz alguns dias que o Reino Unido o incluiu em sua lista de destinos pouco seguros, na qual a Espanha também figura.

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