Pandemia de coronavírus

Um mundo de ansiedade, medo e estresse

Confinamento, luto e crise econômica dobrarão o número de pessoas com problemas psicológicos, segundo a OMS

Membro da família de uma pessoa morta de coronavírus assiste ao enterro em Barcelona, no sábado, 18 de abril.
Membro da família de uma pessoa morta de coronavírus assiste ao enterro em Barcelona, no sábado, 18 de abril.Emilio Morenatti / AP

Se as emoções pudessem ser auscultadas, todos os estetoscópios do planeta escutariam duas: medo e incerteza. A ameaça até agora circunscrita a datas funestas (11 de setembro, 11 de março) ou localizadas em países quase sempre distantes, quase sempre pobres, assumiu, com seu avanço invisível e letal —160.766 mortos até 19 de abril— uma dimensão planetária, desconhecida no último século. A nova peste irrompeu no centro da próspera Europa e da superpotência americana com uma virulência e velocidade da qual ninguém, esteja confinado em uma luxuosa cobertura ou em uma casa humilde, pode se considerar a salvo. E essa súbita falta de certeza, esse medo, é apenas o começo de outra crise sanitária que surgirá em nossas cabeças, dizem vários especialistas em saúde mental, alguns com vasta experiência em catástrofes e guerras.

O epidemiologista e investigador dos efeitos mentais das grandes emergências Sandro Galea, reitor da Escola de Saúde Pública de Boston, diz: “Esta crise é um acontecimento traumático maciço sem precedentes, maior do que qualquer outro por sua dimensão geográfica”. A comoção é ampliada naqueles que adoecem (mais de dois milhões apenas com os números oficiais), nas famílias atingidas pelas mortes e naqueles que já estão com os bolsos vazios. “Haverá uma avalanche de transtornos de humor e de ansiedade nos próximos meses e anos em todo o mundo”, prevê esse especialista, “isso inclui depressão, ansiedade, estresse pós-traumático, aumento do consumo de álcool e violência machista. Tudo isso terá grandes consequências econômicas e sociais.” A OMS estima que uma em cada cinco pessoas terá um distúrbio mental, duas vezes mais que em circunstâncias normais.

O que vai acontecer? Serei contagiado? Terei trabalho? Como estará minha mãe? Voltarei a vê-la? A psicóloga Sara Liébana ouve constantemente perguntas como estas, repetidas por pessoas com insônia, no telefone disponibilizado pelo Ministério da Saúde. “É a coisa mais extraordinária que já vivemos”, exclama esta profissional experiente no cuidado às vítimas de terrorismo, “não apenas porque ocorre em todo o mundo, mas também por esta maciça sensação de incerteza em tudo, na saúde, no trabalho, nos estudos, nas bolsas, vivemos nesse estresse, nessa ansiedade... Agora somos uma sociedade que faz perguntas”. Sua colega psiquiatra Carmen Moreno, do Hospital Gregorio Marañón, em Madri, insiste: “Não acaba e não sabemos quando terminará. São dadas recomendações que mudam de um dia para o outro, isso gera incerteza e desproteção, atinge todos igualmente, é algo imprevisível. E o ser humano precisa de previsibilidade”.

Essa sociedade que faz perguntas, a sociedade dos que temem e dos que padecem (os doentes e os enlutados dos mortos) está trancada há mais de um mês. E isso não está livre de efeitos colaterais. “Passo o dia dizendo às pessoas que elas não ficaram loucas”, diz o psicólogo Fernando Egea, “que a irritabilidade, as mudanças de humor e a insônia são reações normais”. Isso é confirmado por uma revisão recente de estudos publicada pela revista The Lancet. Estamos desanimados (acontece com 73% das pessoas, segundo um dos estudos) e irritadiços (57%). A quarentena provoca confusão, raiva e sintomas de estresse pós-traumático (aqueles pesadelos e flashbacks que revivem a experiência dolorosa, acompanhados de hipervigilância e anestesia emocional), de acordo com a maioria das pesquisas. “As circunstâncias mais estressantes”, observam os autores, “são o confinamento prolongado, o medo de se contagiar, a frustração, o tédio, a falta de alimentos ou produtos básicos, informações inadequadas, perdas financeiras e estigma.” O isolamento também mudou o paradigma doméstico. “Fechamo-nos em torno da família, como em uma espécie de retorno às cavernas, restabelecendo laços e voltando a uma forma muito básica de relacionamento para nos protegermos dessa guerra estranha”, reflete o psiquiatra Enrique García Bernardo, “em que morre muita gente, vivemos na incerteza, adaptando-nos, com o paradoxo de que voltamos a ouvir os pássaros enquanto tanta gente morre, prendendo a respiração para que não nos pegue.”

A brutal irrupção da crise causou algo que surpreendeu ao psiquiatra Alberto Fernández Liria, por seu potencial nocivo, quando trabalhava como enviado de várias ONGs em cenários bélicos: “Os maiores estragos não se devem ao combate, e sim à destruição maciça da vida cotidiana. Num mundo onde você se define por sua ocupação, seu papel fica suspenso, há uma desorientação da qual pode sair qualquer coisa. Você precisa encontrar culpados, distinguir entre os bons e os maus, como nas guerras”.

Nesta mesma crise da Covid-19, mas na China, que foi o primeiro país afetado, um terço da população sofria ansiedade de moderada a severa, segundo um estudo. Outro veterano em emergências, o psiquiatra Ricardo Angora, coordenador de Saúde Mental da ONG Médicos do Mundo, acredita que não temos experiência em situações nas quais todos estamos ameaçados. “Não tinha acontecido nunca, ao menos em nossas gerações. Na África há cólera, secas e conflitos bélicos. Eles estão mais habituados e têm uma aprendizagem, aqui não a temos. Do ponto de vista emocional, nos apanhou sem anticorpos”.

Nos dias atuais, a doença e a morte transcorrem solitariamente. “As evoluções dos doentes são muito complicadas, tudo acontece muito rápido”, diz a psiquiatra Moreno, “ou o familiar se apressa muito em chegar, sempre é um, e é preciso cumprir uma série de condições, ou não poderá se despedir”. A especialista acredita que a gestão da morte é muito difícil, “não se pode velar e existe uma espécie de congelamento da emoção. Os lutos complicados e prolongados aumentarão”. A psicóloga Liébana escuta parentes desconsolados, que às vezes nem sabem onde está o corpo de seu pai. “Nós os acompanhamos em sua dor, na impotência de não podermos compartilhá-la com ninguém, os incentivamos a entrar em contato com seus familiares através de videoconferências em grupo, e dizemos a eles que poderão se despedir quando isto acabe.”

Agora, e a partir de agora, são as perdas as que emergem em nosso panorama emocional. “As depressões vão ter a ver com as perdas, as reais, as dos nossos mortos, e outras de diferente dimensão: a renúncia a um status, a uma forma de vida pelo desemprego ou a ruína dos autônomos”, observa García Bernardo, “o que inclui o sujeito isoladamente (com a perda de sonhos, expectativas), a família (perda de horizontes) e o aspecto social (o emprego)”.

Fernández Liria está de acordo: “Haverá um fenômeno maciço de perdas; trabalhos, propriedades, referências, coisas que têm a ver com a identidade, para muita gente sua identidade profissional – pensemos no turismo, a atividade fundamental deste país [a Espanha]. O que fará um cozinheiro, o dono de um bar? Terão que se reinventar, e isso é um processo muito complicado. Se for encarado com apoio social pode ser muito construtivo. Deus nos livre da aparição de movimentos populistas muito descarnados”.

A experiência prévia diz que o impacto econômico que se abate atacará a saúde mental. A crise econômica mais recente, de 2009, fez crescerem a depressão (18%), a ansiedade (8%) e os transtornos por abuso de álcool (5%), segundo um estudo da Sociedade Espanhola de Saúde Pública e Administração Sanitária (SESPAS). “A economia pode se recuperar; as vidas, não. Se evitarmos que haja novos surtos, isso fará a confiança se recuperar”, reflete Angora.

O que fazer diante desse amontoado de dor em sobreviventes, profissionais de hospitais, centros de saúde e ambulâncias, familiares de falecidos e desempregados? “Educar as pessoas para estes desafios e preparar os sistemas sanitários para enfrentá-lo”, responde Galea. “Há um risco de falta de atendimento”, acredita Fernández Liria, “e também de psiquiatrização. Mas é preciso aproximar o atendimento, porque os que estão piores não são capazes de irem pedir ajuda”. Aí, concordam todos, os médicos que nos acompanham, os de cabeceira, serão fundamentais para detectar essa avalanche de sofrimento submerso.

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