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Rodolfo Landim, o cartola novo que já nasceu velho

Apesar dos títulos, presidente do Flamengo se mostra “mais do mesmo” no campo institucional, subserviente a políticos e impassível ao barganhar indenizações com famílias

Landim ao lado do deputado Alexandre Frota em sessão solene no Congresso.
Landim ao lado do deputado Alexandre Frota em sessão solene no Congresso.Luis Macedo / Agência Câmara

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Quando chegou ao comando do Flamengo, no início deste ano, Rodolfo Landim prometeu uma gestão guiada por novos e modernos processos, importados de sua experiência no mercado financeiro. Embora tenha colaborado diretamente para a reestruturação financeira do clube, o engenheiro e empresário de 62 anos nunca havia ocupado um cargo executivo no futebol. Conduziu o time aos títulos do Campeonato Carioca, Brasileiro e Libertadores logo em sua primeira temporada, que ainda pode ser coroada com o Mundial de Clubes. Entretanto, do ponto de vista institucional, a administração Landim remete à previsibilidade dos velhos cartolas, sobretudo pela maneira que escolheu gerir a crise envolvendo a tragédia do Ninho do Urubu, que completa 10 meses neste domingo.

Em fevereiro, 10 garotos da base morreram num incêndio no centro de treinamento do Flamengo. Ainda sob a gestão de seu antecessor, Eduardo Bandeira de Mello, o clube ignorou 31 notificações do poder municipal por manter o CT aberto de forma irregular. A estrutura que pegou fogo não tinha alvará de funcionamento nem certificado do Corpo de Bombeiros. Como assumiu a direção apenas em janeiro, Landim argumenta que não houve tempo suficiente para tomar conhecimento da situação do alojamento. No entanto, uma responsabilidade inteiramente sua, na condição de mandatário da instituição, é a estratégia prejudicial à imagem rubro-negra e, acima de tudo, às famílias das vítimas de arrastar negociações por indenização, replicando um modelo que contribuiu para que sua carreira como executivo decolasse.

No começo de 2000, um vazamento de 1,3 bilhão de litros de óleo atingiu a baía de Guanabara. Landim era diretor da Petrobras nessa época. E a estatal, a mantenedora do duto que se rompeu. O atual presidente do Flamengo foi chamado às pressas para coordenar um comitê de crise. Uma de suas atribuições seria negociar com os mais de 12.000 pescadores da região afetados pelo impacto ambiental do vazamento. Não houve negociação. Landim empurrou as ações para a Justiça. Até hoje, associações de pescadores lutam nos tribunais para que o dano seja ressarcido, quase duas décadas depois do desastre. Muitos deles morreram sem receber a indenização.

Landim, por sua vez, foi promovido na Petrobras após a atuação que preservou os interesses da companhia. Virou presidente da Gaspetro e, em seguida, da Petrobras Distribuidora, onde criou amizade com a então ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff. Saiu da estatal em 2006 para trabalhar em sociedade com Eike Batista, abriu suas próprias empresas no ramo de energia e, no fim do ano passado, foi eleito presidente do clube mais popular do país. O destino reservou a Landim a oportunidade de se redimir pela postura corporativista que alavancou sua trajetória de homem de negócios, mas que, ao mesmo tempo, afetou milhares de trabalhadores que viviam da pesca. Poderia ter agido diferente com as famílias dos garotos do Ninho, mas decidiu se manter fiel à conduta burocrata.

A diretoria do Flamengo recusou uma proposta de acordo elaborada por órgãos públicos, não por familiares das vítimas ou advogados. Uma força-tarefa composta por Ministério Público do Trabalho e Defensoria Pública determinou o valor de aproximadamente 57 milhões de reais entre pensões e indenizações, que seria dividido em partes igualitárias entre as 10 famílias. Landim nem sequer compareceu à primeira audiência de conciliação. Preferiu negociar individualmente os acordos, por entender que “cada família possui necessidades distintas”. Até o momento, dirigentes acertaram o pagamento de indenizações aos parentes dos 16 jogadores sobreviventes e de quatro garotos que morreram —em uma delas, apenas o pai, que é separado da mãe, aceitou a proposta. O Flamengo oferece assistência de 5.000 reais por mês às famílias que não aceitaram sua proposta, mas pretende recorrer de uma ação que determina pensões no valor de 10.000 reais enquanto a Justiça não estabelecer os parâmetros para indenização.

Pela forma como tem conduzido as negociações, Landim equipara o Flamengo a uma Petrobras —ou a uma Vale, que segue sem honrar as devidas reparações pelos desastres socioambientais de Mariana e Brumadinho. Ao se ater às minúcias de “jurisprudência” para uma tragédia sem precedentes no futebol brasileiro, ainda mais numa via de resolução extrajudicial, o presidente toca um clube de massa com a mesma frieza de um gestor de corporações multinacionais. É bem provável que boa parte dos cartolas de outros clubes, diante de uma situação semelhante, agisse da mesma maneira, já que muitos convivem com dívidas milionárias, penúria financeira e atrasos de salário.

Essa, porém, não é a realidade do Flamengo, que investiu mais de 200 milhões de reais em contratações de reforços este ano. Se tivesse aceitado o acordo proposto por autoridades competentes, o clube estaria longe de comprometer sua saúde financeira, inclusive porque a maior fatia dos 57 milhões estipulados seria paga de forma parcelada em formato de pensão até a data em que as vítimas completassem 45 anos. A barganha que inviabilizou acordos individuais com a maioria das famílias não apenas prolonga o sofrimento de mães e pais em luto, como também arranha a imagem do clube no ano mais apoteótico de sua história.

Adesão à pequena política

Outro desgaste institucional para o rubro-negro provém da conivência de sua diretoria com o oportunismo de políticos que surfam na onda de popularidade do Flamengo. Figuras como o governador Wilson Witzel foram recebidas pelo clube com tapete vermelho no Maracanã. Não difere muito da atitude de Alexandre Campello, presidente do Vasco que reclamou de um suposto favorecimento ao rival após a concessão provisória do estádio pelo Governo do Rio e, meses depois, foi bajular Witzel entregando camisas do time em busca de apoio ao projeto de modernização de São Januário. Campello, ao contrário de Landim, nunca se apresentou como alternativa à velha cartolagem, tanto que ascendeu ao poder graças a um “golpe político”. Por sinal, se realmente mantivesse algum carinho pela amiga Dilma, o presidente do Flamengo jamais adularia políticos de extrema direita entusiastas do regime militar que a torturou no passado.

Em novembro, antes de embarcar para a final da Libertadores, Rodolfo Landim foi a Brasília. Se prestou a uma cena constrangedora ao inaugurar o gabinete do deputado Alexandre Frota (PSDB-SP) decorado com temática rubro-negra. O parlamentar, que é flamenguista, havia convocado uma sessão solene para homenagear os 124 anos do clube. Em seu discurso na audiência, que durou seis minutos, Landim não fez nenhuma menção à tragédia no CT. Mas se emocionou ao contar o relato de um senhor que o abordou dizendo não ser rico e bem-sucedido como o cartola, pois só tinha o Flamengo na vida. “A gente quer fazer esses 42 milhões de brasileiros [torcedores flamenguistas] felizes”, encerrou o discurso, ovacionado pela plateia. O presidente não lembrou que os garotos mortos no Ninho também só tinham o Flamengo como esperança para mudar de vida. E hoje, por causa do imbróglio em torno das indenizações, o clube varre suas histórias para debaixo do tapete, uma lembrança inconveniente a ser ignorada a cada taça levantada.

Crítico ferrenho de Bandeira de Mello, de quem já foi aliado, Landim procedeu como o ex-presidente ao aceitar chefiar a delegação da seleção brasileira na Copa América. Retribuiu a gentileza ao oferecer o cargo simbólico a Walter Feldman, secretário-geral da CBF, na viagem do time ao Peru para a final da Libertadores. Dialogar com poderes e estabelecer relações diplomáticas com a confederação é algo legítimo para qualquer clube. Quando se trata de um do porte do Flamengo, contudo, nada justifica tamanha submissão a políticos ou dirigentes, ainda mais àqueles responsáveis por desfalcar seu time com convocações para amistosos e torneios de base devido às mazelas de um calendário inchado de jogos.

No capítulo mais recente da política por conveniência da gestão Landim, o Flamengo se levantou para protestar contra a medida autoritária da CBF de vetar a presença de seus torcedores no Allianz Parque para o jogo contra o Palmeiras. Menos de uma semana depois, o clube deu um balão no Avaí ao abrir a venda de ingressos apenas para sua torcida no Maracanã, utilizando o subterfúgio eticamente discutível de que o adversário não havia feito uma solicitação prévia a seu departamento jurídico. “Esse é o ‘novo’ que tanto se propala?”, questionou o clube catarinense ao expressar sua indignação com a diretoria rubro-negra. “As novas práticas de gestão devem estar alinhadas à adoção de princípios éticos, de retidão nos atos e de cumprimento aos acordos. E faltou tudo isso ao Flamengo nesta descabida decisão de sua diretoria.”

Landim acumula seus méritos no comando. Reconheceu a tempo o erro da contratação de Abel Braga como treinador e corrigiu a rota ao acertar em cheio com o português Jorge Jesus e reforços do calibre de Rafinha e Filipe Luís, além de ter impregnado no futebol uma cultura de cobranças por resultados que inexistia sob a última gestão. Mas, tal qual ele próprio prega, “quando alguma coisa dá errado em uma empresa, a culpa é do presidente”. Assim como pelas conquistas que arrebataram a nação de rubro-negros, o empresário de sucesso pode ficar marcado por representar o “mais do mesmo” em termos de gestão institucional.

O rosto que agora sorri diante das câmeras celebrando os feitos dos gramados demorou três semanas para aparecer e falar publicamente a respeito do incêndio nas dependências da base, a única entrevista coletiva que concedeu sobre o episódio. Menos de um mês depois da tragédia, Landim anunciou licença do cargo por duas semanas para uma viagem de lazer. A essa altura, já havia rejeitado o acordo de reparação conjunta às famílias. Somente as autoridades serão capazes de determinar se o recém-empossado presidente poderia ter feito algo para evitar o fogo e as 10 vidas perdidas no Ninho. Já a mancha que se mistura às glórias de uma temporada histórica para o Flamengo seria menos dolorosa, para todas as partes envolvidas, caso o cartola novo não tivesse nascido velho.