Racismo

“O falso moralismo do combate à corrupção é o álibi perfeito para o canalha da elite travestir seu racismo”

No livro ‘Como o racismo criou o Brasil’, o sociólogo Jessé Souza desvela as máscaras do preconceito racial, questiona o conceito de classe social e refuta o “racismo estrutural”, que, para ele, foi banalizado

O sociólogo e escritor Jessé Souza.
O sociólogo e escritor Jessé Souza.Claudia Araújo

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Há pouco mais de dois anos e meio, quando Jair Bolsonaro foi eleito, o sociólogo Jessé Souza (Natal, 61 anos) mergulhou na filosofia e releu conteúdos de sociologia e de história para entender como, em suas palavras, uma “sociedade elege um bandido como presidente”. A conclusão à qual chegou é direta: “O falso moralismo do combate à corrupção, sempre dirigido apenas contra líderes populares do povo mestiço, pobre e negro, é o álibi perfeito para o canalha da elite e da classe média branca travestir seu racismo e seu ódio ao povo em suposta defesa da moralidade pública”, diz ele ao EL PAÍS em uma conversa telefônica, complementada por e-mail. Em suas investigações e reflexões, Souza reconstrói a história da moralidade ocidental para desvelar “todas as máscaras do racismo, seja ele de raça, de classe, de gênero ou de cultura, e combatê-las no seu núcleo”. O estudo dessa mazela multidimensional, que durou quase três anos, é a premissa do livro Como o racismo criou o Brasil (da editora Estação Brasil), lançado este mês. “A especificidade do Brasil é que o racismo aqui, como nos Estados Unidos, é a forma dominante de oprimir e humilhar, assumindo mil maquiagens”, afirma.

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Pergunta. Você disse ter certeza de que o racismo controla o Brasil com a eleição de Jair Bolsonaro em 2018. Por que só então?

Resposta. Quando uma sociedade elege para presidente um bandido como Bolsonaro, que todo mundo sabia ser o representante político máximo da bandidagem miliciana, da homofobia, da misoginia, da apologia ao ódio e da desumanidade pura e simples, é porque, para além de toda a manipulação falso moralista em jogo, é uma sociedade doente e podre por dentro. E toda perversidade humana, que é sempre burra e irracional, é legitimada em última instância por alguma forma de racismo. Foi isso que eu quis compreender.

P. Ao falar de corrupção, um dos temas que ajudou a eleger Bolsonaro, você argumenta que toda vez que há uma tentativa política de inclusão social de pobres e negros, essa narrativa anticorrupção ganha força. Foi o que ocorreu em 2018?

R. Sem dúvida. Não apenas em 2018, mas também em 2016 [com o impeachment da presidenta Dilma Rousseff] e em 1964 [com o golpe que instaurou a ditadura militar no país]. Há 100 anos, essa é a ideologia principal do racismo brasileiro. Mostro no livro que o falso moralismo anticorrupção foi uma ideologia que as elites e os intelectuais elitistas desenvolveram, depois que o racismo aberto foi interditado no Brasil com a política antirracista de Getúlio Vargas. O falso moralismo do combate à corrupção, sempre dirigido apenas contra líderes populares do povo mestiço, pobre e negro, é o álibi perfeito para o canalha racista da elite e da classe média branca travestir seu racismo e seu ódio ao povo em suposta defesa da moralidade pública. Como sempre, a moralidade é a arma perfeita para travestir interesses mesquinhos de pretenso valor ético.

P. De que forma os debates raciais —e o próprio racismo— podem pautar as eleições de 2022?

R. Esses debates têm que sair da armadilha do neoliberalismo identitário, que é excludente e meritocrático e tira onda de emancipador. É uma nova astúcia dos dominadores, inventada nos Estados Unidos, nos anos noventa, para dividir os oprimidos e sequestrar nos seus próprios termos a demanda por emancipação. Na verdade, isso inclui apenas 1% dos negros e mulheres que já possuíam as melhores condições de classe para posarem de “representantes” autointitulados do sofrimento alheio, uma ampla maioria convenientemente silenciada pela mídia conservadora. Ou seja, nada muda na vida real da maioria dos 99% dos negros e mulheres que permanecem sem voz. Pior, se cria a impressão que se resolveu a questão da desigualdade e do racismo quando uns poucos negros conseguem se tornar modelos de grandes grifes ou ganham espaço na esfera pública para falar em seu próprio nome. É preciso compreender que isso se dá à custa do esquecimento e do silenciamento da maioria tanto dos negros quanto das mulheres pobres. É por isso que a Rede Globo, por exemplo, essas marcas e os bancos patrocinam esse tipo de “emancipação”. Não lhes custa nada e ainda lhes permite posar de progressistas. Uma aliança entre o 1% mais rico que a todos exploram, com o 1% mais apto das minorias oprimidas. Uma aliança para a manutenção e legitimação dos privilégios do capitalismo financeiro.

Confesso que eu próprio me deixei enganar por essa armadilha antes. Na primeira vista, parece emancipação real. Estudei muito para saber melhor o que estava por trás disso tudo. No livro, explico em detalhe esse meu processo de aprendizado. A guerra contra o racismo é uma guerra de todos e não apenas de negros ou de mestiços como eu. Ela adoce a sociedade como um todo e torna a vida de todos indigna de ser vivida. São essas as bandeiras para uma nova eleição e para uma nova sociedade, acredito eu.

P. Acredita que algum dia o Brasil deixará de ser a “lata de lixo da história”?

R. Sim, mas não sei se viverei para ver isso. Será no dia em que o país se verá como ele é, perverso e racista. Sem máscaras.

P. No livro você argumenta que sentir o racismo não implica, necessariamente, entender o racismo. Qual é a diferença?

R. Veja bem, a hipótese de que o oprimido conhece melhor do que ninguém a opressão que sofre é falsa de fio a pavio. Se isso fosse verdade, não existiria opressão duradoura em nenhum lugar. Toda opressão duradoura na História, sem exceção, exigiu ou exige o convencimento total ou parcial dos oprimidos, ou de boa parte deles, de sua própria inferioridade. Senão a dominação não se mantém. Mesmo no caso de um tipo limite de dominação violenta como na escravidão. A vítima sente, em alguns casos, a opressão como algo injusto e possui também um justo ressentimento e ódio contra o opressor. Mas isso não significa compreender como se dá a opressão. E sem compreender como ela se dá, sem perceber as máscaras que ela assume para continuar viva fingindo que está morta, o oprimido pode ser facilmente manipulado. É precisamente o caso no Brasil. Isso significa que, além de sentir, é fundamental a reflexão e a compreensão daquilo que se sente.

P. Quais são as principais máscaras do racismo na sociedade brasileira contemporânea?

R. No Brasil e nos Estados Unidos, o racismo comanda silenciosamente toda a linguagem política e todas as alianças e ódios entre as raças, as classes e também entre os gêneros. Os discursos mudam com o sabor do tempo, mas são os afetos racistas raciais que cimentam todos os acordos que não podem dizer seu nome. O racismo só se supera quando assumimos que somos racistas e enfrentamos nossos demônios. Como isso nunca aconteceu no Brasil, o racismo vai mudando de nome. Primeiro era o racismo científico no século XIX, depois virou um moralismo anticorrupção, que só atinge Governos que estavam incluindo negros e pobres, ou ainda a guerra dos homens de bem contra o crime, como com Bolsonaro. Eu reconstruo no livro a história do Brasil como uma história das máscaras que o racismo racial assume para continuar vivo fingindo que acabou.

P. Sobre o que você chama de “gramática da opressão”, de como essa oposição entre corpo e alma forjou a leitura da população negra como animalesca, ignorante, sem moral... Essa seria a base do racismo estrutural?

R. Precisamente. Tudo que avaliamos como nobre, superior, bonito ou bom, tem a ver com o espírito como oposto ao corpo, percebido como nossa animalidade. Isso nasce com o judaísmo antigo, com o cristianismo e com o protestantismo. Depois, no mundo secular de hoje, o espírito deixa de ser o caminho para o sagrado e passa a significar aquilo que o grande filósofo alemão Immanuel Kant nos ensinou: o mundo tripartido da inteligência, da honestidade moral e da beleza estética. Tudo, sem nenhuma exceção, que avaliamos na vida —quer saibamos disso ou não— como valoroso e superior tem a ver com essas dimensões do espírito. E tudo que avaliamos como inferior e vulgar tem a ver com o corpo, a sexualidade, a agressividade e tudo que nos liga aos outros animais.

Como de todas as dimensões do espírito a moralidade é a mais importante, se você quiser dominar uma cultura ou um povo, você tem que dizer que este povo é, por exemplo, corrupto e não honesto, como dizem de nós os países que nos dominam. Exatamente o mesmo acontece com as raças, com os gêneros e com as classes sociais. Como pensamos por conta própria, precisamos ser dominados por ideias que nos convencem de nossa própria inferioridade. Sem isso, não existe opressão e dominação injustas.

P. Racismo estrutural é, aliás, uma expressão que você afirma ser atualmente apenas um álibi para justificar atos racistas individuais e institucionais. Por que acredita tratar-se de um termo banalizado?

R. O termo é importante e indica que o racismo não é facilmente visível e que existe uma estrutura invisível por trás. Mas, na verdade, mais prejudica do que ajuda, porque dá a impressão de que se sabe de algo acerca do qual nada se sabe. Não adianta apenas falar da estrutura como uma palavra mágica que tudo explicasse quando dita. É preciso, ao contrário, reconstruir com muito esforço um mundo complexo e cheio de armadilhas para se mostrar que estrutura é esta que age sobre as pessoas sem que elas tenham consciência disso. É necessário compreender como ela funciona, inclusive explicando suas máscaras.

P. Você também diz que o conceito de classe definido por quanto dinheiro alguém tem no bolso ou no banco é equivocado. De que forma isso se relaciona com os debates raciais?

R. Não apenas equivocado, ele é a raiz de todas as confusões sobre meritocracia e justiça social, na medida em que esconde a injustiça de berço contida em toda discussão meramente economista acerca da classe social, como se classe social fosse renda. Essa falsa ideia é puro veneno. Ora, renda é algo que se consegue quando adulto. O que aconteceu na infância e na adolescência das pessoas que fez com que alguns ganhem até 500 vezes mais do que os outros quando se tornam adultos? É isso que essa ideia de classe como renda esconde: a produção da desigualdade, que é tudo que verdadeiramente interessa quando pensamos em classe.

Contra isso é necessário perceber que a classe é determinada pela socialização familiar e escolar privilegiada para alguns e precária para outros, o que se transforma mais tarde, no mercado de trabalho, em privilégio monetário para alguns e em emprego de fome para os intencionalmente precarizados. No Brasil, a classe precária é composta por 90% de negros. É isso que mantém, antes de tudo, a escravidão sob novos disfarces. Uma classe/raça condenada à barbárie eterna.

P. Você critica a romantização da pobreza, quando diz, por exemplo, que chamar a favela de comunidade não vai melhorar as condições de vida de quem mora ali. É possível falar também em uma romantização do racismo?

R. Sem dúvida! Essa é, inclusive, uma espécie de doença infantil de muita gente que se acredita de “esquerda” ou antiaracista. Um tiro no pé produto da falta de reflexão e de inteligência. Isso vem do cristianismo, que inverteu o lugar do pobre e do rico e passou a dizer que o pobre é quem tem a virtude e o reino dos céus. Não podemos esquecer que isso legitimou a desigualdade real e concreta de muita gente por milênios no Ocidente. Essa questão se conecta com a questão da classe social. Muita gente, por pura ignorância sobre como funciona a sociedade, tem a necessidade de “romantizar a pobreza”, o que apenas contribui para a reprodução da mesma ao legitimá-la. Ora, se o pobre tivesse as mesmas condições de partida em termos de socialização familiar para o sucesso escolar dos ricos, então a meritocracia seria verdadeira, o que não é o caso. É preciso denunciar a precariedade da vida familiar do pobre e do negro como um projeto construído intencionalmente pela elite e pela classe média branca para poder explorar e humilhar os negros e os pobres. Essa é a única denúncia que pode, de verdade, mudar a vida dessa população.

Na verdade, as classes sociais são construídas desde o berço por estímulos emocionais, morais e cognitivos, como a disciplina, a capacidade de concentração e pensamento abstrato, além de muitas outras, as quais, num país injusto como o nosso, é um privilegio das classes altas. Os modelos familiares são reproduzidos inconscientemente pelas gerações futuras e, no caso dos negros e pobres, se transformam em incapacidade de sucesso escolar e condenação ao subemprego desqualificado mais tarde. Pelo menos 80% das pessoas dessa classe/raça cumprem esse destino construído para elas, um roteiro escrito pelos opressores. No Brasil, desde cedo o marginalizado e excluído foi “construído” como um amálgama de classe e de raça, cuja precariedade familiar e escolar foi mantida intencionalmente, como mostram os golpes de Estado contra todos os Governos que quiseram incluir e melhorar a vida deles. Foi formada, então, uma polícia racista, uma Justiça racista, uma imprensa racista, um povo racista, tudo para que o projeto racista pudesse se manter e depois culpar os próprios negros e pobres por sua exclusão.

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