Por que julgamos mais duramente as decisões dos pobres

Uma série de estudos realizados em Harvard revela um preconceito: as pessoas com menos recursos deveriam se contentar com menos, mesmo que isso prejudique sua saúde ou segurança

Entrega de alimentos na associação de moradores do bairro de Aluche, em Madri, em razão da crise econômica provocada pela crise sanitária do coronavírus.
Entrega de alimentos na associação de moradores do bairro de Aluche, em Madri, em razão da crise econômica provocada pela crise sanitária do coronavírus.Alvaro Garcia

“Para vocês seria porcaria, para estes pais não era porcaria. Quando falam assim, não me ofendem, ofendem a eles.” Quando Isabel Díaz Ayuso, presidente da Comunidade de Madri, defendeu com essas palavras os menus da Telepizza para crianças vulneráveis, talvez o debate subjacente não fosse sobre a qualidade dos alimentos. Porque os especialistas não tinham dúvidas. Um estudo recentemente divulgado pela Universidade Harvard mostra que talvez o debate não fosse, na realidade, sobre o que consideramos aceitável para famílias pobres. Esse limite do aceitável é mais baixo para pessoas com menos recursos? Pesquisadoras da universidade dos EUA queriam responder a essa pergunta e as conclusões de seu trabalho são reveladoras: “Temos um padrão duplo preocupante”.

Por meio de 11 experimentos, as pesquisadoras mostram que pessoas de baixa renda são julgadas de modo mais negativo por consumirem os mesmos itens do que outras com renda mais alta, o que acrescenta uma pressão social extra às restrições materiais que já enfrentam. Mas não é por terem menos para gastar, mas porque se considera que suas despesas deveriam ser mais parcimoniosas. “Descartamos a explicação de que pessoas com renda mais alta podem consumir socialmente mais simplesmente porque podem pagar mais; pelo contrário, observamos que para as pessoas de baixa renda se considera socialmente que tenham de consumir menos porque se supõe que necessitam de menos”, diz Serena Hagerty, principal autora do artigo. Segundo Hagerty, o estudo revela que as necessidades básicas têm que ser mais básicas para os pobres.

Em um dos testes, a história de Joe é apresentada a dois grupos diferentes: para um, esse personagem tem baixa renda, para outro, tem uma boa renda. Joe ganhou 200 dólares (1.070 reais) em um sorteio, tudo bem se gastar o dinheiro em uma nova televisão? Se Joe é de baixa renda, isso é muito mais malvisto do que se tem um bom padrão de vida. Curiosamente, há um terceiro grupo, o de controle, ao qual não se conta nada sobre a situação financeira de Joe. Para este grupo, é tão admissível que o Joe neutro compre a TV como para o grupo do Joe rico. Só é malvisto pelo que tem como referência o Joe pobre.

À medida que o estudo, publicado na PNAS, vai mais fundo, os experimentos se tornam mais complexos para delinear melhor os mecanismos pelos quais as pessoas são julgadas de acordo com seus recursos. Por exemplo, em outro teste a pergunta é que cartão-presente dariam ao Joe pobre ou ao Joe rico, um de 100 dólares para comprar comida ou outro de 200 dólares para uma TV? O pobre Joe recebe principalmente o cartão da comida, enquanto o Joe rico ganha o que lhe permite comprar uma TV, ou seja, o dobro do dinheiro. No cômputo final, em média, o Joe pobre recebe 125 dólares e o rico, 152. Ou seja, mesmo quando se trata de um presente, quem tem mais, merece mais, e quem tem menos, ganha um presente inferior. Mesmo que saibam que Joe disse expressamente que gostaria de uma nova TV, os participantes do estudo dão muito menos TVs ao Joe pobre do que ao rico.

“Uma implicação desse duplo padrão é que as pessoas parecem mais confortáveis dirigindo e limitando as decisões de gastos dos pobres”, resume Hagerty. Este estudo é muito revelador no contexto atual, como indicam essas pesquisadoras, em que se discute a promoção da renda mínima em países como a Espanha. “Uma crítica potencial à renda vital mínima pode ser que as pessoas de baixa renda gastarão o dinheiro em coisas erradas”, diz Hagerty sobre o caso espanhol. “No entanto, é provável que esse medo resulte em primeiro lugar de uma visão limitada de quais produtos são considerados ‘necessários’ para pessoas de baixa renda”, diz ela.

É algo claro em outro de seus experimentos, como o que mostra 20 objetos de consumo cotidiano que uma família poderia comprar: jornais, móveis, relógios, computadores, equipamentos esportivos, etc. Em todos é mais malvista sua compra por uma família de baixa renda, exceto em um item: produtos de higiene corporal. Com essa mesma abordagem propuseram 20 critérios a serem levados em consideração por uma família que procure uma nova casa: garagem, ar-condicionado, bairro barulhento, proximidade de áreas de lazer, etc. A aquisição de todos esses itens é mais malvista quando se considera uma família de baixa renda, exceto em dois deles: que a casa esteja perto de um supermercado e do transporte público. O mais revelador é que se considera supérfluo que uma família pobre procure uma casa perto de um hospital ou em um bairro seguro, o que implica que, mesmo com pouca renda, até buscar segurança é considerado um capricho desnecessário.

A segurança como um luxo para famílias sem recursos também aparece em outro experimento do estudo, no qual se propõe a compra de um carro com um sistema de câmera traseira. Mesmo quando se explica aos participantes que é um item adicional importante para a segurança do veículo, isso é considerado menos necessário para uma família de poucos recursos. É malvisto que os pobres comprem um objeto que para os ricos é fundamental para sua segurança. De novo, não é que o rico tenha mais condição, é que os vulneráveis não merecem tanto, mesmo que esteja em jogo sua saúde.

“A principal contribuição deste estudo é que definimos as necessidades a partir dos recursos que as pessoas têm, porque o que definimos como necessário ou supérfluo muda de acordo com a renda da pessoa”, afirma o economista Luis Miller, pesquisador do CSIC. E acrescenta: “Isso tem implicações importantes, sobretudo no que chamamos de armadilha da pobreza, esse círculo vicioso que nega os recursos necessários para se ter acesso a mais recursos”.

Quando alguém critica um sem-teto ou um refugiado por ter um smartphone é porque isso é considerado um capricho desnecessário, embora para todos seja uma ferramenta imprescindível para nos relacionarmos com nossos familiares, empregadores ou clientes. Sem esse tipo de recurso, é impossível romper o círculo de que Miller fala: sem uma casa, chuveiro, telefone celular etc., é impossível conseguir um emprego que permita sair da armadilha da pobreza.

“Há a ideia de que, se você ajuda uma família, faz com que ela trabalhe menos. Um projeto de monitoramento analisou isso, e não é assim”, disse recentemente Esther Duflo, ganhadora do Prêmio Nobel de Economia. “Isso não os torna mais preguiçosos, como também lhes proporciona o bem-estar e a segurança que os tornam mais produtivos “. Todas as pessoas precisam sair da “visão de túnel” imposta pelas carências, essas penúrias que as impedem de tomar decisões calmas, como explicaram Sendhil Mullainathan e Eldar Shafir em seu livro Escassez: uma nova forma de pensar a falta de recursos na vida das pessoas e nas organizações (Editora Best Business): “A escassez arrebata nossa atenção e Isso nos proporciona um benefício muito estreito: temos um desempenho melhor ao nos ocuparmos das necessidades mais prementes. Mas, de modo mais amplo, pagamos um custo: negligenciamos outros assuntos e somos menos eficientes no resto de nossos afazeres cotidianos”. Dar uma TV ao Joe pobre talvez lhe proporcione um estímulo emocional que lhe permita acordar mais animado pela manhã. Ou não. Mas, em geral, pensamos que ele deveria se contentar com o que tem e se concentrar em comprar o imprescindível para subsistir.

Miller acredita que esses mecanismos ocorrem na Espanha de uma maneira mais sutil, porque lá as pesquisas mostram claras preferências pela redistribuição e não há com tanto peso “a figura do libertário dos EUA, aquele que diz que cada um tem o que merece”. E acrescenta: “Aqui esses mecanismos têm mais a ver com a necessidade de nos diferenciarmos dos pobres”. Segundo explica Hagerty por e-mail, a renda dos participantes do estudo não influenciou em suas opiniões: independentemente de sua renda, todos reduziam o círculo das compras aceitáveis para o Joe pobre, mesmo que pusessem em risco sua saúde, como uma cadeirinha para as crianças no carro, um bairro sem criminalidade ou acesso próximo a um posto de saúde, que são vistos quase como caprichos somente quando a pessoa tem pouca renda. “O fato de darmos menos margem de manobra às decisões dos economicamente desfavorecidos parece expressar noções mais básicas de mérito e autonomia”, diz a pesquisadora.

Voltando ao menu da Telepizza, Hagerty tem uma resposta clara à luz de seu trabalho: “Essa visão parcial da necessidade também pode explicar por que deram comida porcaria às crianças de baixa renda [em Madri], quando a mesma comida pode não ser adequada para crianças de alta renda”. E ela ressalta que suas descobertas sugerem que debates como esse estão na realidade fazendo duas perguntas diferentes que terão duas respostas substancialmente diferentes: O acesso a alimentos saudáveis é necessário? O acesso a alimentos saudáveis é necessário para as pessoas de baixa renda? “Isso precisa ser levado em consideração no debate político: como são feitas as perguntas relevantes em política e que preconceitos implícitos podem influir nas respostas?”.

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