Chacina do Jacarezinho

“Não vai embora, vão me matar!”: a radiografia da operação que terminou em chacina no Jacarezinho

EL PAÍS reconstrói com testemunhas o que aconteceu no massacre, o mais sangrento da história da cidade do Rio de Janeiro, que resultou na morte de 28 pessoas há uma semana

Policiais durante a operação na favela do Jacarezinho, no Rio, no último dia 6.
Policiais durante a operação na favela do Jacarezinho, no Rio, no último dia 6.Silvia Izquierdo / AP

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Tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu… O sobrevoo de duas águias —como são chamados na cidade os helicópteros policiais— e o pipocar das balas acordaram o Jacarezinho ao amanhecer. Esta favela faz parte do Rio de Janeiro sem glamour. O que sequer sonha com começar a receber turistas vacinados. A., de 28 anos, fez como todos os moradores quando começou a operação policial na quinta passada. Pular da cama ao local mais protegido e abraçar sua filha. Apavoradas, as duas esperavam que o fogo cruzado acabasse quando um ferido entrou em sua casa. “Levou dois tiros, mas estava vivo”, diz ela. O intruso ordenou que ficasse em silêncio e se escondeu em um quarto até que quatro policiais entraram violentamente, encapuzados. Vinham à procura dele. O homem, então, começou a suplicar. “Não me deixa, não vai embora, vão me matar!”. Queria se entregar aos Direitos Humanos, mas os policiais disseram: “Aqui ninguém se entrega, vai sair morto! E o mataram a facadas no quarto, não me deixaram socorrê-lo”, relatou na segunda-feira, ainda angustiada. “Era ele ou minha filha”, murmura. “Não vêm prender, vêm matar”, sentencia. Por isso, diz, não usavam no colete a identificação com seu nome e grupo sanguíneo.

Se alguém que foge da polícia bate em sua porta para se esconder, você abre. E ponto. É a lei que impera nas favelas como esta, onde o poder do crime organizado ocupou o vazio deixado pelo Estado. E qualquer morador do Jacarezinho com idade suficiente lembra de muitos outros tiroteios e muitas operações policiais, mas nenhuma tão sangrenta e brutal como essa. Com 28 mortos, a mais letal perpetrada por agentes da polícia na história da cidade. Tantas vítimas em um dia causaram comoção no Rio, que já só se espanta quando as balas perdidas matam crianças porque a violência da guerra contra as drogas é cotidiana.

Uma das ruas principais da favela do Jacarezinho, cinco dias depois da chacina.
Uma das ruas principais da favela do Jacarezinho, cinco dias depois da chacina. Leonardo Carrato

O presidente Jair Bolsonaro não perdeu a ocasião de parabenizar a Polícia Civil, que também apreendeu por volta de 30 armas. A mão de ferro contra o crime é uma de suas bandeiras. Para o militar reformado de extrema direita, o Rio e os policiais são grandes berços eleitorais em um país onde está arraigada a ideia de que bandido bom é bandido morto.

A rotina de matar suspeitos se instalou há muito tempo. Desde 1998, a polícia matou uma pessoa a cada 10 horas no Estado do Rio de Janeiro, segundo o jornal O Globo.

Ao amanhecer de quinta-feira, antes das seis horas, 200 policiais armados para uma guerra avançaram por todas as entradas do Jacarezinho, um labirinto de barracos de tijolo a uma hora de metrô e trem da praia de Copacabana. Um policial que tentava desmontar uma das barricadas colocadas pelos traficantes que dominam a comunidade, fortaleza do Comando Vermelho, foi a primeira vítima. Levou um tiro na cabeça.

E o pandemônio explodiu. Fogo intenso com fuzis, rajadas dos helicópteros, granadas e quase 40.000 moradores transformados, novamente, em reféns. Agachados em um canto de suas casas, implorando a Deus e acompanhando as notícias pelo celular e WhatsApp. Joice Pereira, de 42 anos, contou na terça-feira que se escondeu com seus oito filhos no banheiro durante horas. O lugar mais seguro do casebre de paredes de papelão que está em um dos becos cenário do espetacular tiroteio.

Muitas das cenas daquela quinta sangrenta parecem retiradas do filme Cidade de Deus, um retrato da vida nas favelas cariocas que fez sucesso há 20 anos. Durante mais de duas horas o tiroteio foi tremendo, com suspeitos fugindo pelos telhados e becos para salvar a pele e os colegas do agente morto raivosos, invadindo casas sem ordem judicial. As lojas não abriram. O posto de vacinação contra o coronavírus, também não.

Buracos de bala em uma parede da favela.
Buracos de bala em uma parede da favela. Leonardo Carrato

Quando a situação acalmou um pouco, os moradores mais necessitados, os famintos que não têm o que comer porque a pandemia acabou com o pouco que ganhavam, se aventuraram em busca de uma refeição quente. “Fiquei chocado que em meio à operação as pessoas estivessem procurando comida”, lembra Lucas Louback, de 30 anos. O ativista dos Direitos Humanos do Rio da Paz, uma ONG do Jacarezinho, participou da entrega de alimentos. Por volta das 11 horas, “já não havia tiroteio, mas a polícia continuava dentro”. Após esse enganoso parênteses, a fuzilaria voltou com fúria ao tempo em que os celulares da comunidade ferviam com notícias de que os suspeitos estavam se rendendo.

Justamente o que os familiares de algumas vítimas contaram na segunda-feira à Defensoria Pública, segundo o presidente da associação de moradores, Leonardo Pimentel, de 34 anos, tratado como um prefeito nestas vielas. “Contaram que receberam vídeos das pessoas que morreram dizendo ‘estou vivo, vou me entregar. Olha, estou em uma casa, não consegui chegar na nossa casa...’.”

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Quando a operação terminou sete horas depois do primeiro falecidos, havia mortos jogados nos becos e quartos em vários pontos da favela. As fotos e vídeos dos cadáveres que circulam por WhatsApp mostram vários com tiros na cabeça. E um sentado em uma cadeira, com um dedo na boca. A maioria, de shorts e chinelos. A polícia levou os cadáveres ao hospital, embrulhados em lençóis, alterando as cenas das mortes. Outra rotina. Diante das denúncias de execuções extrajudiciais e a destruição de provas, a ONU pediu imediatamente uma investigação independente. A Promotoria já investiga as denúncias.

O ativista Louback faz uma bateria de perguntas: “Eram necessárias tantas mortes? Quais são os protocolos da polícia? Foram aplicados? E onde estão as outras políticas públicas, a cultura, o lazer... Porque a única política pública que chega (à favela) é a do confronto”. E moradores e defensores dos direitos humanos —sempre insultados por Bolsonaro— dizem que mesmo que as vítimas traficassem drogas tinham o direito a ser detidas, julgadas e, se preciso, condenadas e presas.

Família de uma das casas que receberam disparos.
Família de uma das casas que receberam disparos. Leonardo Carrato

Mas o Brasil não funciona sempre assim. A brutalidade policial é endêmica. Das 47.000 mortes violentas de 2019, 13% ocorreram durante intervenções policiais, segundo o anuário mais recente do Fórum Brasileiro de Segurança. E o Rio se destaca como o lugar mais letal aos suspeitos. O fogo cruzado é tão frequente que o Fogo Cruzado, um aplicativo de celular, alerta qualquer um em tempo real.

É um dos pesadelos familiares nas favelas. Fernanda, de 42 anos, conta que cada vez que começa uma operação policial ela corre para casa para ficar com seus filhos. O menino é quem mais preocupa esta mulher que escolhe esse nome para se proteger. “Tenho muito medo de deixá-lo sozinho em casa porque, com 15 anos, é muito corpulento”. Quando se é brasileiro jovem, negro e pobre, a suspeita dispara.

O comércio demorou pouco para reabrir. A maconha, a cocaína e o crack eram vendidos na terça-feira à vista de todos em mesinhas instaladas na rua, como se fossem bugigangas. Cada favela customiza sua mercadoria com uma embalagem que a diferencia das outras comunidades.

O tráfico de drogas é um dos ingredientes do coquetel criminoso do Rio de Janeiro por trás de sua bela fachada. A disputa pelo território é feroz e as prósperas milícias, com ligações suspeitas com o clã Bolsonaro, já controlam mais espaço do que o tráfico. Completam o coquetel a delinquência de sempre ligada ao jogo do bicho e uma classe política carcomida pela corrupção.

Aqui no Jacarezinho o jogador Romário, hoje senador, deu seus primeiros chutes. Pimentel, parado o tempo todo pelos moradores e tratado como um prefeito, conta que a favela foi um polo industrial que ao entrar em decadência viu a violência aumentar. Nestas vielas as penúrias e tentações são abundantes. Os jovens “não têm oportunidades de ter outra vida”, diz seu prefeito encarregado.

Um antigo líder comunitário, Marcos de Castro, acrescenta que quando sua mãe não tem dinheiro para o aluguel e você mora em um lugar sem emprego, oportunidades e diversão, ser o garoto do fuzil que chama a atenção das meninas é muito tentador. Dinheiro fácil. Por outro lado, o esforço de muitas mães para educar sua prole e fazer com que sigam o bom caminho é titânico. “A polícia não pode ser como os bandidos, precisa nos proteger”, diz uma indignada moradora do Jacarezinho.

Vista da favela do Jacarezinho a partir da Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora.
Vista da favela do Jacarezinho a partir da Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora. Leonardo Carrato

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