Não sou mulher

Sou uma exceção, em uma área -- América Latina e Caribe -- que tem, segundo um relatório da ONU de 2017, "a maior taxa de violência sexual fora do relacionamento no mundo e a segunda maior taxa de violência por parte de parceiro ou ex-parceiro"

Uma demonstração na contramão do feminicídio na cidade da Guatemala
Uma demonstração na contramão do feminicídio na cidade da GuatemalaCris Faga (Getty Images)

Não sou mulher. Vivo em um país latino-americano e sou do gênero feminino. Mas ganho mais dinheiro que muitos homens que conheço; se tivesse de fazer um aborto –embora no meu país, a Argentina, a interrupção da gravidez seja ilegal–, teria podido pagar a um bom médico e não correria o risco de acabar morta ou estéril por causa de uma infecção; nunca me jogaram ácido na cara; não me arrancaram os olhos; não me queimaram viva; não fui estuprada nem por estranhos nem por meu companheiro; jamais fui espancada por um homem; nunca tive que me encarregar de cuidar sozinha dos doentes da minha família; não sou a única na minha casa que cozinha ou faz as compras; a “pressão social” para eu me reproduzir não me afetou (a ponto de não tê-la sentido). Vivi em, de, por e para a liberdade, a autossuficiência e a insurreição, e paguei por isso os preços que qualquer pessoa paga, macho, fêmea, travesti, transgênero, etcetera, de qualquer orientação sexual. Já disse: não sou mulher.

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Ou melhor: sou uma mulher de classe média, com estudos universitários, sem crença religiosa, com conhecimentos precisos sobre a anticoncepção, as doenças de transmissão sexual, a consciência do corpo e os direitos do cidadão que me conferem, com independência econômica, um trabalho de que gosto e um cônjuge que compartilha as tarefas cotidianas e que não usa frases que terminam com “para você”, como “Eu lavei os pratos para você” ou “Eu fiz as compras para você”, já que os pratos e as compras são assuntos dos dois, não somente meus. Viajo para onde quero sem pedir permissão; saio com amigos sem que isso dispare ciúmes de qualquer tipo; não presto contas; não peço nem dou explicações; não checo telefones celulares alheios nem fazem isso com os meus; abomino as frases “coisas de garotas”, “conversa de mulheres” ou “o grupo das mamães”, e nunca senti que meu gênero fosse um empecilho para fazer o que gosto (nem tampouco o contrário: meu gênero não me facilitou nada).

Por essas e muitas outras, sou uma exceção – acompanhada por um bom punhado de exceções que não são mais que isso: um punhado – em uma área – a América Latina e o Caribe – que tem, segundo um relatório da ONU de 2017, “a maior taxa de violência sexual fora do casal no mundo e a segunda maior taxa de violência por parte do companheiro ou ex-companheiro”, apesar de que nos últimos anos dezoito países da região incluíram leis tipificando o crime de assassinato de uma mulher pelo simples fato de ser mulher: isso que conhecemos como feminicídio.

Por causa do protagonismo que tem nesta parte do planeta essa violência exorbitante contra as do meu gênero – minhas irmãs –, poderiam pensar que colocar sobre a mesa neste 8 de março temas como a igualdade de salários, as leis de quota ou o chamado teto de vidro equivale a se preocupar com um eczema quando a pessoa tem de se submeter a uma operação a coração aberto. Eu me permito pensar que não é assim, porque a questão vem em conjunto, e de longe.

Algo vai muito mal se é preciso “explicar” os motivos pelos quais não está certo esfaquear ou esmagar com pancadas a metade da população; algo vai muito mal se é preciso “explicar” os motivos pelos quais não é admissível que uma mulher ganhe menos que um homem se faz o mesmo trabalho; e algo vai muito mal se é preciso “explicar” os motivos pelos quais não deve haver nenhum mecanismo, explícito ou dissimulado, que impeça o acesso a um cargo por questões de gênero. Mas há algo que está muito mal bem antes de chegar à violência desmedida, à discriminação e à desigualdade, e que começa com um mundo dividido –por mulheres e por homens– em azul celeste e rosa. Um mundo no qual campeiam ideias como “isso não é coisa de meninas” (e sua contrapartida “essas são coisas de meninas”); ideias como “o sonho de toda mulher é ser mãe” (e sua derivada: “uma mulher que não é mãe não é uma mulher completa”); ideias como “a sensibilidade feminina é distinta da masculina” (o que nos leva de regresso ao princípio: “há coisas de meninos e coisas de meninas”). Ideias, estas e muitas outras, que homens e mulheres repetem ancestralmente como um mantra inquestionável e que são tão perniciosas –e tão invisíveis– como o teto de vidro.

Há um fio condutor nada inocente, filho direto dessas ideias, que une, por exemplo, o fato aparentemente banal de que quase toda a publicidade de artigos de limpeza – ou de fraldas– esteja dirigida a mulheres e a frase “eu a matei porque era minha”. Há um fio condutor nada inocente, filho direto dessas ideias, que une, por exemplo, o fato de que os jornalistas continuem traçando com rapidez artigos sobre, para dizer o mínimo, “mulheres que dirigem ônibus” (como se fosse preciso celebrar que seres geneticamente incapazes de mover alavancas tivessem conseguido uma conquista importante), e o fosso salarial. Há um fio condutor nada inocente, filho direto dessas ideias, que une, por exemplo, o fato em aparência positivo de que sejam organizadas mesas redondas nas quais se convidam mulheres a falarem de “literatura feminina” (como se isso existisse), e a dificuldade para ter acesso a certos espaços por questões de gênero.

Enquanto o ativismo de educar as meninas para “coisas de meninas” e os meninos para “coisas de meninos” persistir sob qualquer de suas formas, e inevitavelmente se replicar como um vibrião colérico em todos os campos da vida social, não haverá menos mulheres mortas e as ideias de equidade e igualdade –em qualquer terreno–serão graais inalcançáveis. Por tudo isso, fica claro que esta não é uma guerra de sexos: porque não é um assunto de mulheres, mas de pessoas. De todas as pessoas.