Economia

América Latina se recupera, mas sem criar empregos

Mercado de trabalho brasileiro é o que mais sofre com o crescimento lento, segundo a OIT

“A situação dos mercados de trabalho na região é grave. Estamos ante as taxas de desocupação mais altas em uma década”, afirma José Manuel Salazar Xirinachs, diretor do escritório regional da Organização Internacional do Trabalho (OIT) para América Latina e Caribe. De acordo com o representante da instituição internacional, o desemprego total (rural mais urbano) na região foi de 8,1% em 2016 (25 milhões de pessoas). Estima-se que aumentará para 8,4% em 2017 (26 milhões). “A recuperação tem sido insuficiente para reverter o aumento do desemprego”, disse Alicia Bárcenas, secretária-geral da Cepal, durante a apresentação das perspectivas econômicas da região, nesta semana.

“Essa é apenas a ponta do iceberg”, afirma Salazar Xirinachs. Na região, 47% dos trabalhadores ocupados, cerca de 134 milhões de pessoas, o fazem na informalidade, com baixa produtividade e sem direitos trabalhistas nem proteção social. O desemprego entre os jovens, por sua vez, é de 18%, o que significa que quase 1 de cada 5 jovens latino-americanos está desempregado. Além disso, diminuiu o emprego assalariado e aumentou o trabalho por conta própria, dois indicadores da deterioração na qualidade do trabalho. Apesar de a recuperação econômica representar uma melhora indiscutível, diz o representante da OIT, ainda está longe de diminuir a piora no mercado de trabalho da região, onde o Brasil é quem mais sofre.

O país – que após dois anos de contração do PIB terá avanço de 0,4% em 2017 – registra um grande prejuízo no número de pessoas empregadas. No ano passado, a taxa de desemprego chegou a seu maior nível na última década, com 13% de sua população desempregada. Durante o primeiro trimestre do atual exercício, o número de desocupados subiu para cerca de 14 milhões de pessoas (uma taxa de 13,7%). A América Latina, sem dúvidas, tem sido arrastada pelo Brasil, afirma Alfredo Coutiño, diretor da Moody´s para a região. O Brasil, afetado por uma crise política e institucional, registrou sua maior recessão nos últimos 24 anos, com oito trimestres consecutivos de queda do PIB, segundo o especialista.

Apesar da luz no fim do túnel este ano, o especialista da agência de classificação de risco afirma que repor os trabalhos perdidos na região levará tempo. “A região passou de dois anos de recessão a um crescimento econômico pobre em 2017”, afirma o especialista da Moody´s, que inclusive prevê um cenário não tão positivo no encerramento do atual exercício. O aumento do PIB poderia ficar abaixo de 1%, o que impediria a geração de empregos adicionais, afirma. Para que o número de desempregados pare de aumentar, segundo o analista, a economia precisaria apresentar taxas sustentadas de ao menos 4% nos próximos anos, do contrário a sangria continuará.

A República da inflação

Dos 33 países que integram a América Latina, só três registrarão uma redução em sua riqueza no final de 2017. Santa Lucia, Suriname e Venezuela serão as únicas nações da região com quedas em seu PIB. No caso desta última, terminará o ano com uma contração de 7,2%, chegando assim a seu quarto ano consecutivo em crise. As previsões da Cepal apontam que continuará a pressão no aumento dos preços. Em 2016, a República Bolivariana comunicou ao Fundo Monetário Internacional uma inflação de 254,9%. As previsões do FMI são de que este índice chegará a 720,5% ao final do atual exercício. Para 2018, estima-se que alcance 2.068,5%.

De maneira geral, o crescimento econômico da América Latina avança em três velocidades. Por exemplo, espera-se que o PIB da América do Sul avance este ano 0,6%. Já as nações da América Central e o México crescerão 2,5% em média, graças ao aumento das receitas por remessas do exterior e as melhores expectativas de crescimento dos Estados Unidos, seu principal parceiro comercial. Para os países do Caribe, espera-se uma alta de 1,2%, após contração de 0,8% registrada em 2016.

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“É necessário maior crescimento”, afirma Ramón Casilda, autor do livro América Latina Emergente e professor do Instituto de Estudos de Bolsas de Valores (IEB, na sigla em espanhol), em Madri. “As classes médias aspiram a recuperar o terreno perdido com a crise”, acrescenta. Para o próximo ano, segundo a Cepal, a região crescerá aproximadamente 2%. Mas, a curto prazo, a alavanca para essa alta será um aumento no preço das matérias-primas, uma receita que no passado levou a região a tocar a glória, mas que também a afundou em uma profunda recessão, segundo o analista.

Uma das economias que teve uma mudança favorável em suas perspectivas por parte da Cepal foi o México. O organismo regional estimava uma alta de 1,9% no início do ano e, em sua mais recente revisão, espera um aumento de 2,2%. Segundo a Cepal, as ameaças econômicas do atual morador da Casa Branca, Donald Trump, perderam força, e a entidade inclusive afirma que a renegociação do Nafta pode ser benéfica para o país latino-americano. No entanto, nem tudo é positivo. Espera-se que em 2017 a inflação se situe em torno de 5,9% (em 2016 terminou em 3,4%), devido ao repasse da depreciação da taxa de câmbio, que tem afetado o país durante os últimos anos, e o aumento do preço da gasolina.

Chile perde força

O Chile não atravessa o seu melhor momento econômico. A Cepal reduziu sua previsão de crescimento econômico em 2017 de 2,0% para 1,3%. O país está encurralado pela contração, nos últimos trimestres, de setores como mineração, manufatura, construção, eletricidade, gás, água e serviços empresariais, que, em conjunto, representam aproximadamente 40% do PIB.

O organismo regional afirma que o desempenho da atividade econômica também se vê afetado pela recente greve realizada na mina de cobre Escondida (entre 9 de fevereiro e 23 de março), que representa aproximadamente 20% da produção deste metal no Chile.

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