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América Latina se recupera, mas sem criar empregos

Mercado de trabalho brasileiro é o que mais sofre com o crescimento lento, segundo a OIT

Uma boa e uma má notícia para a América Latina. Depois de dois anos de recessão, o Produto Interno Bruto (PIB) da região crescerá 1,1% no fechamento de 2017. A recuperação será motivada por um aumento do comércio mundial, uma melhora nos preços das matérias-primas e uma baixa volatilidade financeira nos mercados internacionais, segundo as mais recentes previsões da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal). A saída do buraco, no entanto, é inócua para a criação de empregos. A taxa de desemprego urbano, que continua crescente desde 2014, chegará ao nível recorde de 9,4% ao final deste ano, depois de ter alcançado 8,9% em 2016. A cifra se traduz em 23 milhões de desempregados nas cidades, em um continente com mais de 512 milhões de habitantes, quase 50% deles com um trabalho na informalidade.

Mulheres consultam ofertas de emprego na rua em São Paulo, no dia 29 de junho
Mulheres consultam ofertas de emprego na rua em São Paulo, no dia 29 de junhoPaulo Whitaker (Reuters)

“A situação dos mercados de trabalho na região é grave. Estamos ante as taxas de desocupação mais altas em uma década”, afirma José Manuel Salazar Xirinachs, diretor do escritório regional da Organização Internacional do Trabalho (OIT) para América Latina e Caribe. De acordo com o representante da instituição internacional, o desemprego total (rural mais urbano) na região foi de 8,1% em 2016 (25 milhões de pessoas). Estima-se que aumentará para 8,4% em 2017 (26 milhões). “A recuperação tem sido insuficiente para reverter o aumento do desemprego”, disse Alicia Bárcenas, secretária-geral da Cepal, durante a apresentação das perspectivas econômicas da região, nesta semana.

“Essa é apenas a ponta do iceberg”, afirma Salazar Xirinachs. Na região, 47% dos trabalhadores ocupados, cerca de 134 milhões de pessoas, o fazem na informalidade, com baixa produtividade e sem direitos trabalhistas nem proteção social. O desemprego entre os jovens, por sua vez, é de 18%, o que significa que quase 1 de cada 5 jovens latino-americanos está desempregado. Além disso, diminuiu o emprego assalariado e aumentou o trabalho por conta própria, dois indicadores da deterioração na qualidade do trabalho. Apesar de a recuperação econômica representar uma melhora indiscutível, diz o representante da OIT, ainda está longe de diminuir a piora no mercado de trabalho da região, onde o Brasil é quem mais sofre.

O país – que após dois anos de contração do PIB terá avanço de 0,4% em 2017 – registra um grande prejuízo no número de pessoas empregadas. No ano passado, a taxa de desemprego chegou a seu maior nível na última década, com 13% de sua população desempregada. Durante o primeiro trimestre do atual exercício, o número de desocupados subiu para cerca de 14 milhões de pessoas (uma taxa de 13,7%). A América Latina, sem dúvidas, tem sido arrastada pelo Brasil, afirma Alfredo Coutiño, diretor da Moody´s para a região. O Brasil, afetado por uma crise política e institucional, registrou sua maior recessão nos últimos 24 anos, com oito trimestres consecutivos de queda do PIB, segundo o especialista.

Apesar da luz no fim do túnel este ano, o especialista da agência de classificação de risco afirma que repor os trabalhos perdidos na região levará tempo. “A região passou de dois anos de recessão a um crescimento econômico pobre em 2017”, afirma o especialista da Moody´s, que inclusive prevê um cenário não tão positivo no encerramento do atual exercício. O aumento do PIB poderia ficar abaixo de 1%, o que impediria a geração de empregos adicionais, afirma. Para que o número de desempregados pare de aumentar, segundo o analista, a economia precisaria apresentar taxas sustentadas de ao menos 4% nos próximos anos, do contrário a sangria continuará.

A República da inflação

Dos 33 países que integram a América Latina, só três registrarão uma redução em sua riqueza no final de 2017. Santa Lucia, Suriname e Venezuela serão as únicas nações da região com quedas em seu PIB. No caso desta última, terminará o ano com uma contração de 7,2%, chegando assim a seu quarto ano consecutivo em crise. As previsões da Cepal apontam que continuará a pressão no aumento dos preços. Em 2016, a República Bolivariana comunicou ao Fundo Monetário Internacional uma inflação de 254,9%. As previsões do FMI são de que este índice chegará a 720,5% ao final do atual exercício. Para 2018, estima-se que alcance 2.068,5%.

De maneira geral, o crescimento econômico da América Latina avança em três velocidades. Por exemplo, espera-se que o PIB da América do Sul avance este ano 0,6%. Já as nações da América Central e o México crescerão 2,5% em média, graças ao aumento das receitas por remessas do exterior e as melhores expectativas de crescimento dos Estados Unidos, seu principal parceiro comercial. Para os países do Caribe, espera-se uma alta de 1,2%, após contração de 0,8% registrada em 2016.

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“É necessário maior crescimento”, afirma Ramón Casilda, autor do livro América Latina Emergente e professor do Instituto de Estudos de Bolsas de Valores (IEB, na sigla em espanhol), em Madri. “As classes médias aspiram a recuperar o terreno perdido com a crise”, acrescenta. Para o próximo ano, segundo a Cepal, a região crescerá aproximadamente 2%. Mas, a curto prazo, a alavanca para essa alta será um aumento no preço das matérias-primas, uma receita que no passado levou a região a tocar a glória, mas que também a afundou em uma profunda recessão, segundo o analista.

Uma das economias que teve uma mudança favorável em suas perspectivas por parte da Cepal foi o México. O organismo regional estimava uma alta de 1,9% no início do ano e, em sua mais recente revisão, espera um aumento de 2,2%. Segundo a Cepal, as ameaças econômicas do atual morador da Casa Branca, Donald Trump, perderam força, e a entidade inclusive afirma que a renegociação do Nafta pode ser benéfica para o país latino-americano. No entanto, nem tudo é positivo. Espera-se que em 2017 a inflação se situe em torno de 5,9% (em 2016 terminou em 3,4%), devido ao repasse da depreciação da taxa de câmbio, que tem afetado o país durante os últimos anos, e o aumento do preço da gasolina.

Chile perde força

O Chile não atravessa o seu melhor momento econômico. A Cepal reduziu sua previsão de crescimento econômico em 2017 de 2,0% para 1,3%. O país está encurralado pela contração, nos últimos trimestres, de setores como mineração, manufatura, construção, eletricidade, gás, água e serviços empresariais, que, em conjunto, representam aproximadamente 40% do PIB.

O organismo regional afirma que o desempenho da atividade econômica também se vê afetado pela recente greve realizada na mina de cobre Escondida (entre 9 de fevereiro e 23 de março), que representa aproximadamente 20% da produção deste metal no Chile.

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