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Potências da América Latina discutem respostas à crise humanitária na Venezuela

Aumento da migração e falta de controle do tráfico de drogas, dois dos temas que preocupam Brasil, Argentina, Colômbia e Peru

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Os membros da Assembleia Nacional Constituinte, com Delcy Rodríguez no centro. AFP

A crise da Venezuela já é a prioridade máxima em todas as chancelarias latino-americanas. Este continente, acostumado às ditaduras cruéis do século XX, tinha visto como o século XXI começava com processos de mudanças profundas que eram resolvidas quase sempre democraticamente. O caos que vive o país rico em petróleo é um enorme risco de desestabilização, não só pelo êxodo migratório, que cresce sem parar, mas também pelo problema do tráfico de drogas: nos últimos anos, a Venezuela se tornou um trampolim de saída da droga sul-americana. Referência para muitos grupos da esquerda latino-americana, é a primeira grande crise que enfrenta o novo equilíbrio de poderes surgido das últimas mudanças eleitorais, que arrancaram do poder importantes aliados do chavismo na Argentina e no Brasil e isolou o regime de Caracas, que continua tendo em Cuba seu principal bastião.

As principais potências da região estão em constante troca de informações frente à possibilidade de que a situação saia completamente de controle. Um dos aspectos que mais preocupa é a migração. A crise humanitária se tornou insustentável na Venezuela. A falta de alimentos e remédios complica o dia a dia em um país onde a inflação atinge níveis astronômicos. O êxodo é imparável. No caso da Colômbia, em 2016 mais de 370.000 venezuelanos entraram no país, 15% a mais que no ano anterior, embora seja difícil avaliar com exatidão quantos decidem ficar e em que situação, se for o caso. Os pedidos de asilo também dispararam, de acordo com a ACNUR. Os Estados Unidos foi o país que mais recebeu (18.300), seguido pelo Brasil (12.960), Peru (4.453), Espanha (4.300) e México (1.044).

A instalação da Assembleia Nacional Constituinte na sexta-feira retirou os poderes do Parlamento anterior, de maioria opositora, eleito em 2015. Os críticos do chavismo asseguraram que não vão reconhecer a nova instituição. Perguntado se em seu país considerava que existia uma ditadura, um cidadão respondeu a um repórter britânico há alguns dias de maneira muito ilustrativa: “Os ditadores governam, eu não tenho certeza se aqui temos governo”. Esta nova instituição encontrou o rechaço generalizado na comunidade internacional, mas o Governo de Maduro não parece disposto a recuar.

“É um caos e anarquia permanente”, lamenta Joaquín Villalobos, que coloca o foco em uma das questões que mais preocupam a alguns governos latino-americanos, como o do México: o tráfico de drogas. “Em meio ao caos, a força adquirida pelos grupos criminosos é incrível”, opina o ex-guerrilheiro salvadorenho, hoje consultor para a resolução de conflitos. A Venezuela começou a se tornar uma saída das drogas da Colômbia no início deste século e se consolidou há uma década, com o estabelecimento do Exército de Liberação Nacional (ELN) e paramilitares do Bloco Norte dos dois lados da fronteira com a conivência das autoridades venezuelanas, muitas delas, como o vice-presidente, Tareck El Aissami, sancionadas por vínculos com o tráfico de drogas pelos Estados Unidos.

O descontrole piorou. O cultivo de cocaína na Colômbia atingiu níveis recordes no ano passado: 188.000 hectares plantados, 18% a mais que no ano anterior. Cada vez mais drogas cruza para Venezuela sem problema. “Não há nenhuma coordenação entre o exército venezuelano e o colombiano, há uma desconfiança absoluta, é como se alguém falasse chinês e o outro respondesse em quechua” ilustra Ariel Ávila. Boa parte da mercadoria vai para a Europa, mas, de acordo com o analista colombiano e especialista em segurança, cada vez mais, cerca de 35% ou 40%, vai para a América Central, para terminar nos Estados Unidos. Isso preocupa muito o Governo mexicano, que teme que seu vizinho do norte pressione ainda mais para tentar conter o tráfico de drogas através da fronteira, apontam analistas e fontes diplomáticas. O grande temor é que a falta de controle acabe derrubando o acordo tácito pelo qual Cuba, no final dos anos oitenta, evitou que a ilha se tornasse um corredor da droga para os cartéis colombianos e mexicanos.

A sombra de Cuba é onipresente na Venezuela. A ilha se tornou o agente decisivo após a chegada ao poder de Hugo Chávez. Caracas foi o sustentáculo econômico do castrismo que por sua vez facilitou milhares de assessores políticos, administrativos e militares. A queda do regime de Maduro significaria um revés para a ilha que ainda hoje recebe cerca de 50.000 barris diários de petróleo. Ninguém consegue, no entanto, examinar com precisão os movimentos do castrismo na Venezuela. “A tecnologia da repressão é claramente de Cuba, que pode transferir ao chavismo o conhecimento de como viver com o isolamento internacional, tentando enfraquecer a oposição, com a ideia de que dentro de alguns meses a situação vai mudar”, assegura o historiador cubano Rafael Rojas, que também adverte um relançamento da aliança da ilha com a Venezuela desde o final do ano passado. Uma posição que coincide com um impasse nas reformas da ilha depois da visita de Barack Obama e da chegada de Donald Trump na Casa Branca. “Nota-se uma mudança de linguagem, agora a ideia é que tentam derrubar Maduro e depois Cuba. Se antes havia cenoura para Cuba e porrada para Venezuela, agora é golpes para os dois”, acrescenta Rojas.

O presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, se reuniu com Raúl Castro recentemente para tratar da crise na Venezuela. Não se soube muito mais. Mas Santos foi o primeiro presidente que anunciou que não iria reconhecer os resultados do referendo constituinte. O tempo corre contra a população. “Nem sequer estamos pensando no que poderia acontecer no futuro. O que está acontecendo já é muito grave. Fala-se do risco de guerra civil mais à frente, mas o número de mortos já é enorme. Cada um conta da sua maneira, mas ninguém nega que a crise é grave, estamos agora procurando um consenso para agir”, afirma na Casa Rosada uma pessoa próxima a Mauricio Macri, o presidente argentino. Este Governo, como a maioria dos latino-americanos, optou pelo confronto direto com Maduro enquanto não prospera a estratégia de solução interna. A posição do Vaticano, que rejeita a Constituinte e pede ao Governo de Maduro que respeite os direitos humanos, incentiva este grupo de países que quer ir mais longe.

A crise está mostrando claramente a nova distribuição de poder e as novas lideranças que surgiram nos últimos anos, especialmente na América do Sul. A saída do poder de Cristina Fernández de Kirchner na Argentina e de Dilma Rousseff no Brasil privou Nicolás Maduro de dois importantes apoios diplomáticos. Equador, já sem Rafael Correa, tomou certa distância. Macri endureceu seu discurso contra Maduro e promove, junto com o Brasil, que a Venezuela seja suspensa do Mercosul pela via política, muito mais grave. A deriva dos últimos dias enfraqueceu a resistência do Uruguai, governado pela coalizão de esquerda Frente Ampla. O Governo argentino, em plena campanha eleitoral intermediária e com Cristina Fernández de Kirchner à frente nas pesquisas, está usando a crise contra sua rival. O mesmo ocorre no México, onde o Governo de Enrique Peña Nieto, do Partido Revolucionário Institucional (PRI), faz o mesmo com o principal adversário hoje, o esquerdista Andrés Manuel López Obrador. O atual Governo mexicano deixou de lado sua tradicional prudência diplomática para se alinhar de forma inequívoca contra a deriva do Governo de Nicolás Maduro.

Mas à margem da campanha, há uma verdadeira preocupação pelas consequências da instabilidade regional. Os estrategistas que estão tentando montar um acordo regional para encurralar Maduro acreditam que, apesar da oposição de alguns países como a Bolívia, que mantêm seu apoio, está se instalando um grande consenso de que a crise é profunda, com grande risco para todos países, e a região não pode ficar parada. Quase ninguém se atreve a dizer que não acontece nada. Mesmo organizações de direitos humanos próximas à esquerda como a argentina CELS condenam abertamente os ataques da polícia de Maduro contra a população.

O regime está ficando cada vez mais sozinho. Cada dia mais países apostam pelas sanções e confiam que a pressão fará com que Maduro tenha que encontrar uma saída. Alguns, como o Peru, falam em romper relações diplomáticas. O presidente deste país, Pedro Pablo Kuczynski, se tornou uma referência regional e lidera há meses a oposição a Maduro, enfrentando abertamente o Governo venezuelano, mesmo em cúpulas como Ibero-Americana em Cartagena no ano passado. Agora decidiu convocar uma reunião de chanceleres em Lima na terça-feira, que já conta com a confirmação de 14 países, para buscar respostas conjuntas. A citação em si é um sinal de que alguns países, pela incapacidade da Organização dos Estados Americanos de encontrar um consenso para aprovar sanções – bloqueada pelos aliados que Venezuela ainda possui, como Cuba, Bolívia, Nicarágua e vários pequenos países do Caribe que dependem de seu petróleo – decidiram formar um grupo de pressão separado. A preocupação regional pelas consequências da queda de um gigante como a Venezuela força todos a se mover. Desta vez parece ser sério.

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