“Os negros mortos são números, eles não têm nome”: as vozes contra o racismo que mata no Brasil

Ato de denúncia reúne milhares de manifestantes em São Paulo e outras capitais uma semana depois do massacre no Jacarezinho, onde 28 pessoas foram assassinadas durante uma operação policial

Manifestantes protestam em São Paulo em 13 de maio de 2021, data em que se celebra a Lei Áurea, para denunciar o racismo da sociedade brasileira, uma semana depois da chacina do Jacarezinho.
Manifestantes protestam em São Paulo em 13 de maio de 2021, data em que se celebra a Lei Áurea, para denunciar o racismo da sociedade brasileira, uma semana depois da chacina do Jacarezinho.Júlio César Almeida
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A chacina do Jacarezinho segue reverberando nas ruas. “Chega de chacina. Educação, auxílio e vacina”, cantavam nesta quinta-feira milhares de manifestantes na avenida Paulista, em São Paulo, uma semana depois da operação policial que acabou com a vida de 28 pessoas. Suas vítimas foram constantemente lembradas neste 13 de maio, dia em que foi assinada a Lei Áurea, que marcou o fim do regime de trabalho escravo no Brasil. A data se transformou num dia nacional de denúncia do racismo, e de lembrar que essa estrutura segue matando centenas de milhares de negros todos os anos —“de bala, de fome e de covid-19”, como diziam os manifestantes. “Hoje não é um dia de comemoração, é um dia de denúncia desse falso processo de abolição que até hoje coloca a população negra na marginalidade”, opina Wellington Amorim, de 26 anos.

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Os atos foram convocados pela Coalizão Negra por Direitos, grupo formado por mais de 150 organizações do movimento negro, no Rio de Janeiro, em São Paulo e outras 15 capitais —além de cidades como Niterói (RJ), Macaé (RJ), Santos (SP) e Bauru (SP). No Rio, onde ocorreu a chacina que vitimou 28 pessoas, o protesto foi marcado para às 17h, mesmo horário do início da concentração perto do Museu de Arte de São Paulo (MASP), na avenida Paulista. “Marielle perguntou, eu também vou perguntar, quantos mais têm que morrer, pra essa guerra acabar?”, cantavam os manifestantes, que caminharam pela Paulista e desceram a rua da Consolação até a praça Roosevelt. Buscaram minimizar os riscos de se aglomerar em tempos de covid-19 com máscaras PFF2. O ato foi encerrado às 21h40 sem registros de violência, apesar da presença da tropa de choque da Polícia Militar e de provocações de grupos bolsonaristas.

Wellington Amorim, de 26, participa de protesto contra o racismo em São Paulo.
Wellington Amorim, de 26, participa de protesto contra o racismo em São Paulo.Júlio César Almeida

“Chegou o momento de dizer chega para esse genocídio”

Apesar dos riscos causados pela pandemia, havia urgência em ocupar as ruas. “O grande mote desse ato é nem bala, nem vírus, nem fome. Essa manifestação é também um grito de socorro. As pessoas pretas querem viver”, afirma Wellington Amorim. Morador do Jardim Ângela, na zona Sul de São Paulo, ele fala sobre as motivações pessoais que o levaram para a manifestação neste 13 de maio. “Faz mais ou menos um mês que um jovem do meu bairro foi morto pela polícia. Há pouco mais de um mês perdi minha prima para a covid-19. Estou aqui porque essas pessoas estão indo e virando número”, afirma.

A violência policial se soma às mortes causadas pela pandemia, que atinge sobretudo as camadas mais pobres da população, argumenta ele. “Chegou o momento de dizer chega para esse genocídio”. Esse “processo de extermínio”, explica, está em curso há muito tempo. A chacina do Jacarezinho serviu para escancará-lo. “E é importante lembrar que no Brasil não tem pena de morte”, afirma.

Tiago Castro, de 36 anos, participa de protesto contra o racismo em São Paulo.
Tiago Castro, de 36 anos, participa de protesto contra o racismo em São Paulo.Júlio César Almeida

“Estão nos matando em casa!”

É justamente isso o que mais assusta Tiago Castro: o Brasil não tem pena de morte, mas ainda assim milhares de pessoas, a maioria negra e pobre, são condenadas a morrer nas mãos do Estado. “Estão nos matando em casa!”, exclama o professor de Geografia e educador popular, de 36 anos. A chacina do Jacarezinho também impacta porque “o Estado mantém a posição de que foi uma ação positiva da polícia”, acrescenta. Para para ele, está claro que houve execução. “Os negros e pobres mortos são números, eles não têm nome. Até o momento os nomes desses 28 não são o mais importante, mas sim que tinham passagem pela polícia”.

O povo negro, explica Castro, se vê obrigado a sair de casa em meio à necessidade de se manter em isolamento social. A lógica é cruel: se não sai para buscar sua sobrevivência, morre de fome; se sai, pega covid-19. E, mesmo dentro de casa, a segurança física não está garantida, a exemplo do que aconteceu no Jacarezinho. “A gente sofre do genocídio da bala, a gente sofre do genocídio da fome, a gente sofre do genocídio da covid-19. A gente sofre de todos os problemas e imposições que são colocados sobre nossos ombros”, afirma. “Temos que fazer esse sacrifício de nos expor em uma aglomeração para dar uma resposta ao que está posto. Estamos buscando acender a luz no fim do túnel.”

Maria José Menezes, 58 anos, participa do ato contra o racismo em São Paulo.
Maria José Menezes, 58 anos, participa do ato contra o racismo em São Paulo.Júlio César Almeida

“A covid-19 não ser controlada é projeto de governo”

A bióloga Maria José Menezes, de 58 anos, também está na rua por causa dessa “desumanização” à qual o povo negro é submetido “há mais de 500 anos”, segundo explica. “Não nos permitem vivenciar nossa humanidade. Nos matam, acabam com nossa juventude, com nosso futuro”, protesta. Menezes está no ativismo desde sua adolescência e, hoje, milita na Coalizão Negra, mais especificamente na Marcha das Mulheres de São Paulo. O momento é especialmente preocupante por causa do Governo Jair Bolsonaro, que lidera uma extrema direita que busca destruir “tudo o que conquistamos de direitos da população negra, de cidadania e de sobrevivência”.

Para ela, o ato deste 13 de maio ganha importância por causa da “perversidade de uma fome pensada, que é projeto de governo”. E também por conta de uma pandemia de covid-19 “que não foi controlada por ser um projeto de governo”. “É mais que necessário tomarmos as ruas e continuarmos nas ruas. Enquanto a gente não conseguir derrubar esse Governo e não civilizar essas terras, seguiremos nas ruas”.

Amaralis Costa, de 28 anos, participa de protesto contra o racismo em São Paulo.
Amaralis Costa, de 28 anos, participa de protesto contra o racismo em São Paulo.Júlio César Almeida

“É preciso dizer a verdade sobre as estruturas racistas do Brasil”

O 13 de maio também é importante para “desvendar várias mentiras históricas” e buscar reestruturar “um pacto civilizatório que inclua pessoas negras, LGBT, pobres e periféricas”, explica explica a advogada Amaralis Costa, de 28 anos. A data “marca uma falsa abolição, e é preciso dizer a verdade sobre as estruturas racistas do Brasil”, mas também aspirar por uma “sociedade livre, justa e solidária”, como já prevê a Constituição de 1988, segundo explica.

Costa opina ainda que o massacre do Jacarezinho é resultado do aprimoramento da letalidade do Estado. “Diferentemente de outros, ele descortina uma letalidade policial onde as pessoas negras têm a violência invadindo suas casas, através do rompimento da barreira do lar, e veem suas vidas, de jovens e crianças, serem ceifadas”.

Matheus dos Santos Silva, 22 anos, participa de ato contra o racismo em SP.
Matheus dos Santos Silva, 22 anos, participa de ato contra o racismo em SP.Júlio César Almeida

“Estamos aqui por uma causa justa, que é nossa vida”

Para o poeta Matheus dos Santos Silva, de 22 anos, é importante não ficar calado enquanto esse tipo de violência estatal ainda acontece. “Quero cerrar meu punho e ter meu corpo político junto ao de tantas outras pessoas pretas para tentar fazer uma revolução possível no mundo e no nosso país”, explica ele. Trata-se também de unir sua voz a tantas outras que “gritam e agonizam uma série de dores, angústias e traumas há muito tempo”.

As novas tecnologias audiovisuais, argumenta ele, evidenciam cada vez mais a estrutura racista da sociedade. Isso também ajuda explicar o impacto que a chacina do Jacarezinho causou na sociedade. “As pessoas estão acordando um pouquinho mais para o racismo”, opina. Também diz que os ativistas vem ganhando repertório político e sabendo reagir mais aos acontecimentos. “Estamos cada vez mais mostrando para o mundo que não estamos aqui a passeio. Estamos aqui por uma causa justa, que é nossa vida”.

Milton Barbosa, de 73 anos, Regina Lucia dos Santos, de 66 anos, e Pedro Henrique, de 9 anos, participam do protesto contra o racismo em São Paulo.
Milton Barbosa, de 73 anos, Regina Lucia dos Santos, de 66 anos, e Pedro Henrique, de 9 anos, participam do protesto contra o racismo em São Paulo.Júlio César Almeida

“O Estado demonstrou que a vida do povo negro não vale nada”

O casal Milton Barbosa, de 73 anos, e Regina Lucia dos Santos, de 66 anos, milita no movimento negro há mais de 40 anos, muito antes das novas mídias aparecerem. Juntos fundaram, em conjunto com outros ativistas, o Movimento Negro Unificado (MNU), em junho de 1978. “Lutamos muito para desmascarar a falácia da democracia racial. Conseguimos transformar o 13 de maio em dia nacional de luta contra o racismo”, explica Santos, que até esta quinta permanecia em isolamento social. “Mas, diante do que aconteceu do Jacarezinho, a gente não podia deixar de vir para a rua.”

Ao contrário de outras chacinas, em que policiais agiram nas sombras por conta própria, dessa vez “a instituição policial montou uma operação ilegal e foi para a favela”, explica Santos. “Acho que todo o Brasil deveria estar na rua hoje. Com essa chacina, o Estado demonstrou que a vida do povo negro não vale nada e declarou que estamos vivendo sob um Estado terrorista de direita”.

Seu marido, o Miltão, se mostra admirado pela presença da juventude negra, que é maioria no ato. “Esses jovens hoje têm muito mais formação, muito mais instrumentos de luta, então estamos vivendo outro momento. Aquela coisa que se fazia antes em petit comité se tornou massiva e vitoriosa”, afirma ele, ao lado do neto Pedro Henrique, de 9 anos, membro da próxima geração de ativistas. “Eles são a certeza de que este país vai entrar no eixo, até mesmo na porrada se for necessário”.

Manifestantes protestam em São Paulo em 13 de maio de 2021, data em que se celebra a Lei Áurea, para denunciar o racismo da sociedade brasileira, uma semana depois da chacina do Jacarezinho.
Manifestantes protestam em São Paulo em 13 de maio de 2021, data em que se celebra a Lei Áurea, para denunciar o racismo da sociedade brasileira, uma semana depois da chacina do Jacarezinho.Júlio César Almeida

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