Copa América 2019

As seleções que atravessam o planeta para jogar a Copa América

A Conmebol convidou os asiáticos Catar e Japão para compor os participantes do torneio sul-americano. No ano que vem, os cataris estarão de volta com a Austrália

Nakajima comemora gol na partida do Japão contra o Equador.
Nakajima comemora gol na partida do Japão contra o Equador.YURI EDMUNDO (EFE)

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Catar e Japão já foram eliminados da Copa América 2019, mas nenhuma das duas equipes saiu do continente decepcionada. As seleções que fizeram a final da Copa da Ásia em fevereiro deste ano foram as convidadas da Conmebol para a disputa do torneio sul-americano no Brasil, somando às dez participantes frequentes e possibilitando a separação da tabela em três grupos de quatro integrantes. Enquanto os cataris tiraram pontos de Paraguai e incomodaram a Colômbia, os japoneses empataram com o Uruguai e com o Equador. Resultados decentes para duas jovens seleções que souberam usar o torneio da América do Sul como preparação para as duas principais competições esportivas dos próximos anos —as Olimpíadas de Tóquio 2020 e a Copa do Mundo do Catar em 2022—, mas que despertaram críticas por virem de um continente do outro lado do globo.

Três meses após terminar com o vice-campeonato do torneio asiático, o treinador japonês Hajime Moriyasu escolheu convocar 17 jogadores da seleção olímpica, que têm menos de 23 anos, para a Copa América. “Nossa meta é o ouro nas Olimpíadas de Tóquio. Escolhi esses jogadores para que eles possam crescer na Copa América”, disse o treinador na oportunidade, confessando que a competição sul-americana serviria como planejamento para o elenco que deve disputar os Jogos Olímpicos no ano que vem. Posteriormente, ele contou que sua ideia original não era trazer tantos jovens atletas. “Quando fizemos a convocação para a Copa, não pudemos conseguir a liberações de jogadores importantes, porque as equipes do campeonato japonês não são obrigadas a liberar os atletas. Esses foram os melhores [jogadores] que pudemos convocar”.

Entre os que vieram, Nakajima, Miyoshi, Maeda e Kubo chamaram a atenção pela rapidez e habilidade no ataque; o último, de apenas 18 anos, é uma das maiores promessas da história do Japão e já foi negociado com o Real Madrid. A nova geração foi responsável pelos empates com os times principais de Uruguai e Equador na primeira fase, que deixaram os japoneses com dois pontos no grupo C -- um a mais que o Catar, a outra seleção convidada e integrante do grupo B. Os cataris empataram com o Paraguai na estreia e venderam caro uma derrota por 1 a 0 para a Colômbia, mas terminaram eliminados perdendo para a Argentina na última rodada.

Atual campeão asiático, o Catar disputou o segundo torneio continental em dois meses como projeto para chegar capaz de fazer uma boa campanha no Mundial de 2022, do qual é sede e já está garantindo. “Um dos nossos objetivos aqui era ver até onde conseguiríamos competir contra grandes rivais. E esse desempenho nos dá a sensação de que com mais trabalho estaremos bem na Copa”, disse o treinador espanhol Felix Sánchez após a derrota para os colombianos. “Estar aqui [na América do Sul] não deixa de ser uma vitrine para as pessoas conhecerem mais sobre o nosso nível”.

Yerry Mina, zagueiro da seleção colombiana com passagem por Palmeiras e Barcelona, esteve entre os que conheceram o nível catari na Copa América. O atual jogador do Everton participou da partida no Morumbi, pela segunda rodada do grupo B, na qual os colombianos arrancaram uma vitória por 1 a 0 com um gol de Zapata no fim do segundo tempo. “Sabíamos que não ia ser nada fácil. Precisamos trabalhar para chegar no nível de Copa do Mundo, já que sabemos que eles estarão lá”. Seu parceiro de zaga, Davinson Sanchez, do Tottenham, completou dizendo que “o Catar é uma equipe que se fecha bem atrás e, apesar de recusar a posse de bola, tem seus méritos”.

“Sempre é difícil ter equipes de fora do continente na Copa porque não conhecemos muito das seleções", continua Sanchez. Ele lembra que a Copa América costuma trazer sempre seleções convidadas, mas normalmente elas vêm da América Central ou do Norte. "Por outro lado, é bom pensando no Mundial de 2022”. O lateral Arias, que assistiu a vitória da seleção colombiana sobre os cataris do banco de reserva, disse que a importância da partida vai além da fase de grupos da Copa América. "Se trata de começar a conhecer o adversário e saber quais os pontos fortes e fracos. Também é bom conhecer outras culturas; isso nos motiva".

Copa América para os americanos

Apesar dos pontos positivos apontados pelos colombianos, nem todos os adversários de Catar e Japão elogiaram a participação dos convidados. "Não quero soar antipático, mas não se vê na Eurocopa equipes de outros continentes. Isso não tem relação com o nosso rival anterior [Catar], mas sigo acreditando que a Copa América deva ser jogadas por equipes americanas". A frase é de Eduardo Berizzo, técnico do Paraguai, que empatou com a seleção catari na estreia após estar ganhando por 2 a 0. Berizzo saiu em defesa de Rafael Dudamel, treinador da Venezuela, que, apesar de estar no único grupo que não continha estrangeiros, foi o primeiro a criticar os asiáticos. "Tem que ser com seleções sul-americanas. Não concordo com convidados como o Japão, que participou com um time sub-23. Eles faltaram com respeito a nossa competição".

Entre os jogadores, as respostas vieram apenas por meio de Okazaki, experiente atacante japonês, que classificou como injustas as palavras de Berizzo e Dudamel. O treinador Moriyasu se limitou a afirmar que "não me importa a opinião deles. Fomos convidados". As críticas também dizem respeito aos motivos pelos quais a Conmebol escolheu Catar e Japão como convidados, uma vez que a Qatar Airways, companhia aérea controlada pelo governo do país árabe, é uma das patrocinadoras da Confederação sul-americana, que também teria interesse em expandir seu mercado para a Ásia. Desta forma, a participação dos convidados, além de promover suas seleções às vésperas de Olimpíadas e Copa do Mundo, também atenderia os interesses financeiros da Conmebol.

Por dinheiro ou não, é certo que, mesmo saindo da América do Sul sem uma vitória, o Catar estará de volta no ano que vem. A seleção do próximo país-sede do Mundial virá jogar a edição de 2020 da Copa América, que acontecerá na Argentina e na Colômbia e servirá para acertar o calendário do torneio, que a partir do ano que vem passa a acontecer de quatro em quatro anos e juntamente com a Eurocopa. O Japão será substituído pela Austrália -- outra seleção que precisará atravessar o planeta para jogar a competição sul-americana.