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Trump e Bolsonaro: semelhanças alarmantes frente à pandemia

Quando um país precisa se unir em prol de um objetivo comum, táticas como fomentar divisões na sociedade e buscar inimigos externos, sem políticas públicas efetivas, não funcionam

Os presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump se cumprimentam durante entrevista coletiva no jardim da Casa Branca, em março.
Os presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump se cumprimentam durante entrevista coletiva no jardim da Casa Branca, em março.Kevin Lamarque / Reuters

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Em outubro de 2018, pouco antes das eleições presidenciais no Brasil, publiquei um artigo que apontava semelhanças alarmantes entre os fenômenos do trumpismo e do bolsonarismo. Nos dois casos, por exemplo, chamava atenção a utilização de táticas para alimentar preconceitos e divisões internas na sociedade como estratégia político-eleitoral.

No atual momento, o Brasil e os Estados Unidos continuam liderando o ranking mundial de estatísticas trágicas da covid-19: nos EUA, já se chegou a 5,8 milhões de casos confirmados e 180.000 mortes; no Brasil, há mais de 3,7 milhões de casos confirmados e 117.000 vidas perdidas. Com apenas 7% da população mundial, os dois países somam 39% do total de casos confirmados e 36% das mortes em nível global. Analisando as respostas do Trump e Bolsonaro à pandemia, destacam-se novamente semelhanças de comportamento, com consequências desastrosas.

Nos Estados Unidos, a resposta do presidente Trump aos primeiros casos de covid-19 foi marcada pela simples negação do problema, alegando que tudo era “engano dos democratas” e que a doença desapareceria rapidamente. Apostando que reconhecer a seriedade da pandemia ameaçaria a economia e suas chances de reeleição, Trump resolveu menosprezar as orientações dos maiores cientistas e especialistas em saúde pública do país. Como resultado, não existe até hoje um plano nacional de prevenção e controle da covid-19. Não se viabilizou ações efetivas de combate à pandemia, lideradas pelo Governo federal, como testagem ampla e rápida, rastreamento e isolamento de infectados, garantia de equipamentos de proteção individual e outras medidas de apoio essencial para o pessoal de saúde atuando nas linhas de frente. Todo esse quadro tem sido agravado por décadas de neoliberalismo nos EUA, em que se desprestigiou políticas de saúde pública como Medicare, e as investidas do Trump para desmontar os avanços do Obamacare, deixando o país ainda mais vulnerável à pandemia.

Ao invés de enfrentar o problema com seriedade, Trump tem insistido em táticas para desviar a atenção, como culpar o Governo chinês pela pandemia e fazer propaganda sobre a hidroxicloroquina como solução milagrosa, apesar da falta absoluta de comprovação científica e graves contraindicações, como risco de arritmia. Uma de suas atitudes mais desastradas tem sido a recusa em reconhecer a importância do uso de máscaras de proteção facial e distanciamento social como medidas de responsabilidade cívica na prevenção de transmissão de um vírus altamente contagioso por via respiratória, inclusive por pessoas assintomáticas.

Nas últimas semanas, com as eleições presidenciais de novembro se aproximando, o presidente Trump tem mantido narrativas baseadas na sua percepção de que seria vantagem político-eleitoral, como insistir na reabertura de escolas, desconsiderando precauções como a necessidade de controle da pandemia nas comunidades ao seu redor. Enquanto isso, tem insistido em divulgar informações falsas na imprensa, alegando que a pandemia está sob controle. Ademais, tem vetado a participação do doutor Anthony Fauci, respeitadíssimo diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infeciosas (NIAT, na sigla em inglês), em coletivas de imprensa da força-tarefa da Casa Branca, da qual faz parte. Nos últimos dias, Trump chegou ao ponto de mandar assessores criticarem publicamente Fauci, pelo fato de manter a sua postura fiel à ciência (e demonstrar índices de popularidade na opinião pública acima dos do presidente).

No Brasil, a resposta do presidente Bolsonaro à pandemia tem demonstrado semelhanças em relação ao comportamento de seu aliado e mentor, Donald Trump. Em primeiro lugar, houve a negação do problema, argumentando que tudo não passava de uma “gripezinha”. Com esse argumento, Bolsonaro adotou o costume de aparecer em público sem máscara em atos de seus seguidores, desconsiderando medidas de precaução, até testar positivo para a doença. Apesar da enorme vantagem de contar com o SUS para o atendimento ao público e pesquisa aplicada, com renomadas instituições como a Fiocruz, o Governo Bolsonaro não desenvolveu um plano nacional de prevenção e controle da pandemia, deixando estados e municípios a enfrentarem a crise sem o apoio necessário do Executivo federal. Como Trump, Bolsonaro menosprezou as orientações baseadas na ciência e especialistas em saúde pública, culminando na demissão de dois ministros da saúde, Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, em plena pandemia, por discordarem de posições equivocadas como a divulgação da hidroxicloroquina pelo SUS. A opção pela militarização do Ministério de Saúde, desviando as forças armadas de suas funções constitucionais, tem enfraquecido ainda mais a resposta do Governo à pandemia. Com a explosão da covid-19 no Brasil, houve a tentativa, como no caso do Trump, de culpar a China pela tragédia, no intuito de desviar atenções das deficiências na resposta do próprio Governo.

Um dos atos mais criticados do Bolsonaro tem sido o veto a provisões essenciais do Projeto de Lei 1.142/20, relatado pela deputada federal Joênia Wapichana, que estabelece ações para combater o avanço da covid-19 entre indígenas, quilombolas, pescadores artesanais e outras comunidades tradicionais especialmente vulneráveis à pandemia. Estes grupos têm sido duplamente afetados pelo descaso do Governo federal com a covid-19 e pelo desmonte de políticas socioambientais (inclusive desrespeitando obrigações constitucionais) em temas como combate à grilagem de terras públicas, reconhecimento de direitos territoriais dos povos indígenas e quilombolas e combate a crimes ambientais. Estimulados pela omissão e conivência do Governo federal, invasores como garimpeiros, grileiros e madeireiros ilegais têm intensificado atos de depredação em territórios de povos indígenas e de outras comunidades tradicionais, espalhando o vírus entre populações vulneráveis —como nos casos dos Yanomami em Roraima e dos Munduruku e seus vizinhos ribeirinhos do rio Tapajós no Pará.

As respostas desastrosas do Trump e Bolsonaro à pandemia do novo coronavírus —já a um custo de mais de 297.000 vidas ceifadas— têm revelado as limitações inerentes de políticos norteados por um populismo de extrema direita frente às suas obrigações de cuidar do interesse público, inclusive dificuldades para conviver com instituições democráticas e admitir erros cometidos. Ademais, frente às consequências trágicas da pandemia, como a morte de indígenas vulnerabilizados na Amazônia —e casos como o assassinato brutal de George Floyd por policiais em Minneapolis— percebe-se entre políticos como Trump e Bolsonaro uma incapacidade para algo fundamental ao ser humano: sentir empatia pelo próximo, principalmente quando isso envolve seus inventados inimigos.

Num momento de extrema crise na saúde pública, quando um país precisa urgentemente se unir em prol de um objetivo comum, táticas como fomentar divisões dentro da sociedade e buscar inimigos externos, sem políticas públicas efetivas, simplesmente não funcionam —nem sequer para atender interesses oportunistas de políticos. Paradoxalmente, a incapacidade do Trump e Bolsonaro em liderar respostas efetivas à pandemia da covid-19 tem prejudicado —além da reabertura da economia que tanto defendem— seus índices de popularidade junto a cidadãos cada vez mais preocupados com os desafios de uma pandemia inédita, que requer soluções inteligentes de Governos competentes e comprometidos com os interesses da coletividade.

Brent Millikan é mestre em geografia pela Universidade da Califórnia em Berkeley (EUA) e diretor da International Rivers no Brasil.

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