Pandemia de coronavírus

Mandetta: “O SUS foi minado. O que vem pela frente é mais complicado do que o que já ficou para trás”

Ex-ministro da Saúde diz que o sistema de saúde perdeu a coordenação federal diante da pandemia e virou 'terra de ninguém'. Funciona, neste momento, com o esforço das esferas estadual e a municipal

Luiz Henrique Mandetta em 3 de abril, duas semanas antes de ser demitido do Ministério da Saúde.
Luiz Henrique Mandetta em 3 de abril, duas semanas antes de ser demitido do Ministério da Saúde.ADRIANO MACHADO / Reuters

Desde que foi demitido em abril do Ministério da Saúde por não embarcar na política negacionista e anti-ciência do presidente Jair Bolsonaro, o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta (Campo Grande, 1964) está em quarentena laboral. Impedido de assumir outro trabalho durante seis meses por ter exercido cargo de confiança no Governo, segue recebendo o salário de cerca de 30.000 reais. Por ora, divide seu tempo entre escrever um livro contando os bastidores de Brasília durante a pandemia de coronavírus, visitar a fazenda da família no Mato Grosso do Sul e exercer seu hobby de marceneiro. Médico ortopedista e ex-deputado pelo DEM, Mandetta tem participado de várias entrevistas e lives ―como a que esteve nesta quinta-feira (13) no EL PAÍS― nas quais costuma fazer críticas ao Governo principalmente pelas políticas de enfrentamento ao coronavírus.

É recorrendo a seus conhecimentos médicos que ele fala da postura de Bolsonaro diante da pandemia que já vitimou mais de 106.000 brasileiros, oficialmente. “Tem pessoas que, quando recebem uma notícia dura, uma notícia ruim na área de saúde, quando o médico diz que ele está com leucemia, ele diz: ‘Eu não acredito nisso. Vou pedir outro exame’”, diz Mandetta que classifica a reação como a fase da negação de um paciente. “A pessoa nega, é natural do ser humano. Na fase seguinte, passa a ter raiva. Eu vi o presidente oscilar entre a fase da negação, que foram essas frases infelizes ―”isso é uma gripezinha”― e vi ele passar para a fase da ira”, testemunha.

Mandetta viu também no entorno do presidente um grupo de pessoas que fomentou essa fase da ira, do combate à realidade. Empresários, médicos e deputados que davam entrevistas sugerindo que o Brasil teria menos de 10.000 óbitos por covid-19, fortalecendo o negacionismo do mandatário. “Ele se aconselhava muito pouco com os ministros. Tinha um aconselhamento paralelo. E, quando você tem pessoas que te aconselham falando o que você quer ouvir, dizendo que você está certo e que isso vai acabar, não escuta a ciência”, diz. “Tentei falar, tentei explicar, entreguei por escrito”, lembra ele. Mas foi voto vencido e sua permanência no Governo ficou insustentável. No dia 16 de abril, anunciou no Twitter sua saída. “Acabo de ouvir do presidente Jair Bolsonaro o aviso da minha demissão do Ministério da Saúde”, afirmou.

Bolsonaro queria que o Ministério da Saúde embarcasse numa disputa política num ano de eleições municipais. “Ele queria que o ministério saísse dessa doença, ficasse calado, e fosse crítico aos prefeitos e governadores, porque na eleição municipal o ponto principal é saúde”, recorda. “E esse tema ficaria restrito à eleição municipal, e na hora que viesse a fase econômica, ele poderia dizer que estaria lutando pela recuperação econômica porque economia é a pauta presidencial.”

Para o ex-ministro, as ações do presidente Jair Bolsonaro visam mais descolá-lo da crise do que mitigá-la. A estratégia, aponta, passa por retirar o protagonismo do Ministério da Saúde, que deveria evitar entrevistas, amenizar os números da pandemia e empurrar a responsabilidade para governadores e prefeitos. A postura do presidente teria apagado a coordenação nacional das políticas de saúde e aberto espaço até para ações “fora da curva”, como por exemplo os chamados kit covid. Algumas cidades passaram a distribuir esses kits de medicamentos sem eficácia comprovada para o tratamento ― incluindo a cloroquina alardeada pelo presidente. “O sistema por parte federal apagou as luzes e se calou. Então vai ter que se reaproximar pra reconstruir um sistema que hoje está à deriva”, diz o ex-ministro.

Mandetta acredita que as duas substituições do comando da Saúde durante a crise ― depois dele, o cargo de ministro foi assumido pelo médico Nelson Teich durante um mês e agora é exercido de forma interina por um militar, o general Eduardo Pazuello― foram prejudiciais, mas a troca da equipe técnica do Ministério foi mais grave e deixou o país “sem referência”, além de ter repercutido em ações preventivas de saúde que deixaram de ser tocadas e que podem causar uma explosão de outras doenças no futuro. “O que vem pela frente é mais complicado do que o que já ficou pra trás”, analisa.

O ex-ministro conta que tentou alertar o presidente Bolsonaro várias vezes sobre a gravidade da doença, verbalmente e por escrito, e que Bolsonaro conhecia as projeções de mortes caso não houvesse uma política de enfrentamento. Dentre os vários cenários com os quais o ministério trabalhava, um deles indicava que o país poderia chegar a 100.000 óbitos em setembro. O Brasil atingiu essa marca em agosto ― e hoje já conta mais de 106.000 mortes pela covid-19.

Preso à “ira” para se eximir de culpas, o Governo apontou o dedo para responsabilizar Mandetta. É sob essa leitura que ele atribui declarações de Pazuello, de que o ex-ministro teria errado ao orientar que as pessoas só buscassem os hospitais quando sentissem falta de ar, no início da pandemia. “Uma crítica vinda dele [Pazuello], eu escuto. Não posso criticá-lo porque eu não entendo nada de militarismo, de paraquedas, de armadilha, de [fuzil] AR15. Se eu fosse fazer uma crítica de que ele não dobra bem um paraquedas, ele ia olhar pra mim e ia dizer: ‘Mas vem cá, você já dobrou algum na sua vida?’ Eu ia dizer, não. Na Saúde é mais ou menos a mesma coisa”, responde.

Mandetta acredita ter conseguido enviar uma mensagem clara à população no início da crise, apesar do presidente, mas pontua que as informações desencontradas da OMS fizeram com que o mundo ocidental precisasse rever estratégias nos primeiros meses de pandemia. Segundo ele, o coronavírus foi apresentado ao mundo como um vírus lento e, naquele momento, se pensava que fazendo a vigilância e determinando bloqueios seria possível contê-lo. Só quando o vírus ganhou força na Itália, o mundo ocidental atentou para a gravidade do problema. “O nosso SUS se prepara até esse caso da Itália para um vírus lento. Quando a gente vê que ele é um vírus extremamente competente, com velocidade de transmissão muito grande, a gente tem de redimensionar todo nosso sistema”, conta.

Quando o presidente Donald Trump passou a classificar a doença como uma gripe menor, Mandetta diz ter acreditado que os Estados Unidos tivessem uma “bala de prata”, seja uma vacina ou um medicamento, mas a queda do sistema de saúde de Nova York logo demonstrou que ela não existia. Mesmo assim, ele diz que Bolsonaro seguiu os passos de Trump no discurso e usou a cloroquina como um atalho para acabar com o distanciamento social e priorizar sua pauta econômica.

Mandetta avalia que o Brasil seguiu as projeções mais duras da epidemia previstas pelo seu ministério, mas acredita que o número de mortes diárias no país deve começar a cair ainda neste mês de agosto, gradualmente. Apesar das inúmeras críticas à condução da crise pelo presidente Bolsonaro, o ex-ministro diz não ver um genocídio ―como alegam denúncias apresentadas ao Tribunal de Haia―, mas sim “negligência” e “omissão de socorro”. Indagado se está arrependido de seu voto em Bolsonaro nas últimas eleições, Mandetta diz que não, mas espera não ter de escolher por exclusão em 2022, como o fez em 2018 diante da polarização política. “É impossível para mim hoje ter essa sensação de quero mais com ele [Bolsonaro], porque ele jogou a favor de quem eu mais combato na vida, que é a morte”. O ex-ministro ainda sinaliza que pode disputar as eleições de 2022, mas pondera que a disputa está muito distante.

A seguir, os principais trechos da entrevista do ministro por tópicos:

Dificuldades inicias no combate à pandemia

O vírus foi apresentado ao mundo como se fora um vírus lento. E todo mundo entendendo que se houvesse vigilância, identificasse o caso, você partia para o bloqueio. (...) Somente quando o vírus derruba o sistema italiano ―a Itália abre a sua epidemia no dia que o Brasil tem seu primeiro caso confirmado, ali era segunda ou terça-feira de Carnaval― o Ocidente se depara e vai caindo em dominó, um atrás do outro. Cai Itália, cai Espanha, cai Inglaterra.

O nosso SUS se prepara, até esse caso da Itália, para um vírus lento. Quando a gente vê que ele é um vírus extremamente competente, com velocidade de transmissão muito grande, a gente tem de redimensionar todo o nosso sistema. Pede a colaboração da população para que ela fique em casa, poupe o sistema. [Enquanto isso], a China fechou a exportação de suas máscaras, de seus respiradores, ventiladores. A gente chega perigosamente a um nível tão baixo, que quase falta para a rotina, para um parto, para apendicite. O mundo cometeu um erro de concentrar suas compras e de desindustrializar a área de saúde.

Vejo a primeira fase, os primeiros 30 ou 40 dias, com um raciocínio voltado para um vírus de transmissão lenta. Questionei a [Organização Mundial de Saúde] OMS: isso é uma pandemia? Porque ele [o vírus] está saindo muito rápido. Eles brigaram, falaram que não era uma pandemia. Para depois de 20 dias dizerem que era. Aquele início foi com muitas informações desencontradas. A reação à doença é quase que para duas doenças distintas. [Uma] que ocorreu na China — Pequim não teve epidemia, uma cidade totalmente aglomerada. Alguma coisa nessa doença ocorreu de maneira diferente. Ou é outra doença ou as informações, os números, não foram claros. O fato é que o mundo ocidental se deparou com a face mais dura. Todo mundo teve de rever e refazer a sua estratégia.

O negacionismo de Bolsonaro

Tem pessoas que quando recebem uma notícia dura, quando o médico diz que ele está com leucemia, ele diz: ‘Eu não acredito nisso. Vou pedir outro exame'. É a fase da negação. ‘Isso não é leucemia, dever ser só uma anemia, devo ter comido alguma coisa, foi um sol que tomei errado'. A pessoa nega, é natural do ser humano. Na fase seguinte, passa a ter raiva. Eu vi o presidente oscilar entre a fase da negação, que foram essas frases infelizes ―“isso é uma gripezinha”― e vi ele passar para a fase da ira. Vi que no seu entorno se aconselhava muito pouco com os ministros. Tinha um aconselhamento paralelo. E, quando você tem pessoas que te aconselham falando o que você quer ouvir, dizendo que você está certo e que isso vai acabar, não escuta a ciência. Tentei falar, tentei explicar, entreguei por escrito.

Tentativas de alertar o presidente

Lembro que na época tinha teorias das mais absurdas. Uma dizia que o vírus não se multiplicaria em lugares quentes. Portanto, Manaus não tinha de se preocupar com nada. O superintendente da Zona Franca de Manaus passava na cidade e falava: “Todas as empresas aqui vão ficar abertas”. Pois lá em Manaus a doença entrou exatamente pela Vila Operária. E eles estavam totalmente desorganizados. Foi uma situação de desassistência até funerária. Até valas coletivas tiveram de abrir com trator. Depois, a doença se replicou em Belém do Pará, agora, em Cuiabá [outras cidades em que os termômetros costumam superar os 30ºC]. O calor, o clima, não havia nada.

“Isolamento vertical seria uma carnificina”

Vi pessoas falarem do isolamento vertical. ‘Quem for abaixo dos 60 anos vai trabalhar, vamos viver a vida e vamos deixar quem tem de 60 anos para cima em casa'. Como se a casa não fosse o ponto de encontro de quem sai e se expõe. Eu resisti muito àquela teoria porque ela teria sido uma carnificina, seria tenebroso. Levei da maneira técnica e medindo sempre as palavras. Mas era claro aquele descompasso. Quando o presidente começou a dar demonstrações públicas, passou não só a não apoiar [o isolamento social] como começou a desautorizar governadores e prefeitos que estavam tentando. Começou a chamar as pessoas para virem para rua, irem às manifestações contra o Congresso Nacional, a favor do regime militar. Ele ia para frente, abraçava pessoas. A gente dizia: “Presidente, não faça isso. Não vai ficar bem”. [Mas ele fazia] pronunciamentos à nação, falava: “Isso é uma gripezinha, vamos passar por isso e não façam nada que as pessoas da Saúde estão falando”.

“Pauta presidencial era a econômica”

Ele [Bolsonaro] queria que o Ministério da Saúde saísse dessa doença, ficasse calado, fora dessa doença, ficasse crítico aos prefeitos e governadores, porque na eleição municipal o ponto principal é saúde. E esse tema ficaria restrito à eleição municipal, e na hora que viesse a fase econômica, ele poderia dizer que estaria lutando pela recuperação econômica porque economia é a pauta presidencial.

Cloroquina, um atalho para acabar com distanciamento

Acho que ele raciocinou só politicamente e esqueceu a técnica. Até na famosa história da cloroquina ele repetiu o Trump. O Trump pegou uma caixa de cloroquina, ele viu que o remédio tinha aqui e resolveu pegar também. (...) As pessoas tinham que ter uma saída, o Governo tinha de oferecer alguma coisa. Uma doença que você fala: ‘não temos uma vacina, não temos um medicamento, não temos condição de evitar essa doença a não ser higiene e o máximo de distanciamento das pessoas.’ As fábricas parando, o comércio parando, a economia sofrendo, vejo hoje que ele raciocinava muito por esse lado. Como fazer com que as pessoas tenham o mínimo de entendimento de que elas deveriam arriscar as suas vidas? Como dizer para as pessoas: “olha, saiam de casa e toquem as suas vidas”? Precisava de alguma coisa. E a cloroquina cumpriu bem esse papel. Porque ela veio embrulhada por alguns médicos. (...) O político tem muita dificuldade em entender o tempo das coisas. Em entender o tempo da ciência e lhe dar apoio p. Para eles é sempre muito duro. Então, se tiver qualquer atalho que politicamente seja justificável, eles aderem. E o dele foi a cloroquina.

O deboche e a busca pela vacina

A mesma ciência que eles debocharam (...) Agora batem à porta da Fiocruz e pedem, pelo amor de Deus, pela vacina e trazem o seu saco de dinheiro. É a narrativa política tradicional. Não tem nada de novo nisso. Ele simplesmente repete os erros de várias epidemias, com esse falso dilema de saúde e economia que já se repetiu na história da humanidade centenas de vezes.

“Acho que em agosto as mortes começam a cair”

Há três maneiras de tocar essa doença. Uma, naquela ideia absurda deles no começo de achar que era uma gripezinha e todo mundo deveria tocar a vida. Se aquilo tivesse prevalecido, a gente não ia estar falando de 100.000 óbitos, íamos estar falando de 400.000 óbitos ou sei lá quantos porque o sistema não estava preparado. O quadro teria sido tenebroso. Outra maneira é com o enfrentamento duro: isolar, ficar em casa, melhorar o sistema. Assim que tivéssemos os testes em massa, poderíamos fazer o teste, fazer o isolamento. Vamos tendo casos, mas em números baixos e vamos isolando, brigando com esse vírus caso a caso. E um terceiro, que foi o que acabou desaguando por vias tortas: nem sou totalmente permissivo e não deixo o vírus totalmente à vontade, mas também não faço o enfrentamento. Abre um pouquinho, volta. Essa terceira maneira faz uma epidemia de base mais larga, leva mais tempo. Dia 10 de maio fizemos 10.000 óbitos. Estamos em agosto com 100.000. Então estamos fazendo mil mortes por dia há 90 dias, ininterruptos. E nada me diz que essa semana nós vamos cair. Eu acho que em agosto [a curva de novos óbitos] começa a cair. Vai sair do milhar e ir para centena alta, depois para centena média, depois centena baixa. Mas não precisava ter sido assim.

A omissão presidencial e os pedidos de impeachment

Não vejo como genocídio [do presidente]. Acho que é muito mais uma negligência. É uma espécie de omissão de socorro. O povo precisava nesse momento de cuidado, de socorro. Não tem nenhum clima para nenhum tipo de impeachment. Essa parte aí com centrão, com composição política, com cargos, isso se resolve de uma maneira muito simples politicamente. Também não acredito nada com as representações nas cortes internacionais. Acho que são atos políticos.

Os cenários desenhados em abril

O presidente e os ministros tiveram os cenários. Eu nunca trabalhei em público com os números porque isso só causaria mais estresse coletivo. E era contra isso que a gente tinha de lutar. O que a gente propunha era o enfrentamento muito duro dessa doença para diminuir o número de óbitos. Os cenários estavam todos lá. O cenário que eu trabalhava era o mais duro, e acabou que é o que está se materializando, infelizmente.

Resposta às críticas de Pazuello

Mudaram e fizeram um protocolo para a cloroquina. Está lá na página do Ministério da Saúde, é um dos únicos países do mundo que têm isso como proposta oficial. Uma crítica vinda dele [Pazuello], eu escuto. Não posso criticá-lo porque eu não entendo nada de militarismo, de paraquedas, de armadilha, de AR15. Se eu fosse fazer uma crítica de que ele não dobra bem um paraquedas, ele ia olhar para mim e ia dizer: “Mas vem cá, você já dobrou algum na sua vida? Eu ia dizer, não. Na Saúde é mais ou menos a mesma coisa. A gente estava com todas as sociedades de especialidades, com todas da América Latina, com as europeias. Estávamos com a USP, com o Instituto de Medicina Tropical de Manaus, com a UFRJ, com a UFRS.

Ele está lá, deve estar tendo muita agonia, muita pressão. Agora vem a fase deles terem raiva e apontarem o dedo a culpados. Outro dia fizeram uma lista com o nome do governador e do prefeito do lado [circulou uma lista de governadores e prefeitos no whatsapp que foram contra a postura do presidente e hoje têm número alto de casos] para ficar: “Olha, tá vendo? São eles”. É bem pequeno, raso e superficial. Esta é uma luta da nossa sociedade como um todo para tentar melhorar. Se a gente conseguir melhorar depois dessa, vai ter valido a pena passar. Se for para continuar criando desculpa, é mais um incentivo a não olhar para as suas práticas e consertá-las.

A falta de um ministro titular durante a crise

Trocar o ministro pode não ser o ideal, mas não deveria ter trocado a equipe técnica. Os técnicos do Ministério da Saúde tinham todo o contexto em suas mãos. Quando saiu o Wanderson [de Oliveira, ex-secretário da Vigilância], tirou todo mundo abaixo dele. Eles perderam completamente qualquer ponto de referência. Nosso sistema de saúde é como se fosse um bicho de três pernas. Você tem o municipal, o estadual e o federal. A ordem que veio foi para o federal sair da epidemia. Não dê mais entrevistas, não fale, se possível não mostre os dados. Tentaram deixar de mostrar até os números. Faz de conta que nós não temos nada a ver com isso. Jogaram isso, e o SUS está tentando lutar somente com duas pernas, a estadual e a municipal. (...) Então, você minou o SUS. Tirou o ente federativo que era para fazer a coordenação e que dava o respaldo técnico, o empoderamento, e chamava a atenção do eventual prefeito que estivesse fazendo algo fora da curva. Como eles saíram, começou a ser uma terra de ninguém.

Você colocar um interino que não é do ramo ―e não é por ser militar, poderia ser um físico nuclear― é como ter uma guerra e colocar um pediatra para comandá-la. Então esta foi uma escolha dura para o sistema de saúde, com um diálogo dificílimo.

“Nós deixamos de fazer o preventivo”

Se você olhar o número de mamografias que fizemos na média no ano passado e neste primeiro semestre, o número caiu lá para baixo. O que significa isso? Quando voltarmos a fazer as mamografias, vamos encontrar muito câncer de mama já com metástase, no estágio quatro. Nós deixamos de fazer o preventivo, a avaliação cardíaca, uma parte grande e o sistema está desorganizado. Planejar esse sistema e ter equipe para voltar a enfrentar isso exigiria hoje o melhor que tivéssemos dentro da saúde pública para planejar uma retomada e um recálculo. O que vem pela frente é mais complicado do que o que já ficou para trás. Vem pela frente um sistema todo para reorganizar, precisa de gente técnica. O Brasil tem técnicos maravilhosos, não precisa ser ligado nem a quem já passou lá.

Disputa presidencial

Em 2022, vai ter eleição para presidente, vice, governador, senador, deputado federal e estadual. A única coisa que eu sei é que para deputado federal eu não vou ser candidato. Já cumpri uma agenda, fui um deputado federal que estudava todos os projetos, ia a todas as sessões da seguridade social (...) As outras opções vão acontecer. E o resto… 2022 está lá. Eu posso não ser candidato a nada. O que eu quero é que deixe de haver essa polarização absurda que só interessa aos dois. É o PT falando “vote em mim se não o Bolsonaro fica”, e Bolsonaro olha e fala: “vote em mim se não o PT volta”. A gente fica espremido, e eles vão levando com essa polarização, vão ocupando esse espaço e fazem com que a gente entre naquela cabine e diga: “E agora? faço o quê?”.

Voto em Bolsonaro

Eu votei no Bolsonaro em 2018 porque era impraticável naquele momento fazer um voto ao PT. Seria absorver toda a lambança não só da parte de corrupção, mas a lambança administrativa. As pessoas esquecem, mas nós perdemos… perdemos não, nós incineramos essa década de 2010-2020 começando por aquela política de maquiar preço de gasolina, subsídio, capitalismo de Estado, BNDES, Odebrecht… Depois uma crise política provocada pelo PT. O PT é quem faz o impeachment da Dilma [Rousseff]. Depois aquele arremedo do presidente [Michel] Temer, de fazer um presidencialismo de coalizão absoluto. É isso que leva a ir numa votação e dizer que aquilo não quero que se repita. Acho que muitos brasileiros chegaram na hora e falaram assim: “Esse modelo não dá”. Eu espero que a gente não tenha que chegar numa eleição com esse tipo de escolha, por exclusão. Espero que surjam os nomes. Vou estar de qualquer maneira participando. Se for como cidadão, expressando a minha opinião e entregando santinho. Se for como candidato, sendo verdadeiramente candidato.

“Bolsonaro jogou a favor da morte”

Enganado [por Bolsonaro] não me sinto porque votei nele sabendo que eu não queria o outro partido. Não me sinto nem um pouco enganado, não. Acho até o corpo de ministros muito bom. Vários que estavam ali dentro é um pessoal muito querido e trabalhador, tudo querendo acertar, reconstruir o país. O presidente é um ser político e tomou um caminho político contra a Saúde, a política da vida. O meu juramento e a minha vida é pra combater a morte. Eu não me conformo com a morte, ela é minha inimiga número um. (...) E o presidente jogou do outro lado. Então é impossível para mim hoje ter essa sensação de quero mais com ele [Bolsonaro], porque ele jogou a favor de quem eu mais combato na vida, que é a morte.

“Não sei se o Brasil está mais mal avaliado pela Saúde ou pelo Meio Ambiente”

O Brasil e os Estados Unidos estão de mãos dadas fazendo a crônica da sua doença. Isso ainda vai levar muito tempo. Eu não sei se o Brasil está mais mal avaliado internacionalmente pela Saúde ou pelo Meio Ambiente. Converso muito com veículos de comunicação internacional, e as perguntas principalmente quando feitas por jornalistas estrangeiros, são de abismados. Eles não entendem. Como é que o Brasil chegou nesse ponto? Estamos muito mal na fita. E acho que isso vai levar um bom tempo. Não se muda com bravata, com vídeo, com militância de internet, xingando as pessoas. Vai levar um bom tempo até o Brasil conseguir voltar a sentar à mesa. O Brasil falar que está considerando sair da OMS, você imagina? O Brasil é proponente, é um dos sócios fundadores. Na OMS, nós fazemos parte de fundos rotatórios. É ali que se discute o regulamento sanitário internacional, que é como as nações vão se relacionar do ponto de vista do ir e vir de pessoas, mercadorias. (...) Vai levar ainda um bom tempo para o Brasil se recompor internacionalmente e ganhar algum nível de participação não só na Saúde, mas em outros temas internacionais.

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