Pandemia de coronavírus

Bolsonaro testa positivo para coronavírus, mas segue minimizando riscos da doença para jovens

Presidente foi atendido no hospital das Forças Armadas nesta segunda-feira com sintomas da doença. Ele afirma que já está bem e que tomou cloroquina

O presidente Jair Bolsonaro, em março.
O presidente Jair Bolsonaro, em março.SERGIO LIMA / AFP

O presidente Jair Bolsonaro confirmou nesta terça-feira que está com covid-19. Ele se sentiu mal no último domingo, com sintomas da doença, e foi atendido no hospital da Forças Armadas onde realizou o teste para a doença. O resultado positivo saiu por volta de 11h desta terça-feira, afirmou ele a jornalistas. “Começou domingo com uma certa disposição e se agravou na segunda, com cansaço, febre, dor muscular”, explicou. O presidente, no entanto, afirmou que tomou cloroquina, medicamento defendido por ele e que não tem evidências científicas contra a doença, e, por isso, se sente melhor.

“Tomei ontem, por volta das 17h, azitromicina e coloroquina e confesso que, depois da meia noite, consegui sentir alguma melhora. Estou perfeitamente bem”, afirmou.

Desde o início da crise do novo coronavírus no Brasil, o presidente mantém uma atitude negacionista em relação à doença, defendendo, desde o primeiro dia, a ideia de que o alarmismo sobre a pandemia era promovida pela esquerda brasileira para paralisar a economia e precipitar sua saída do Governo. A estratégia brasileira contra o vírus, com os estados promovendo o confinamento e o presidente participando de manifestações e aglomerações nas ruas de Brasília causou alarme até mesmo nos países vizinhos.

Em maio, o presidente do Paraguai, Mario Abdo Benítez, disse que o Brasil era “uma grande ameaça” à segurança da saúde de seu país, já que ambos compartilham 700 quilômetros de fronteira. O presidente argentino Alberto Fernández, com quem Bolsonaro mantém uma inimizade aberta, também alertou que o Brasil era um perigo para a América do Sul. “É um risco muito grande. Entramos em caminhões do Brasil com transporte de carga de São Paulo, que é um dos locais mais infectados“, afirmou. Argentina (80.000 casos), Paraguai (2.400 casos) e Uruguai (960 casos) são três dos países da América do Sul menos afetados pela pandemia.

Nos últimos dias, Bolsonaro teve uma intensa agenda de encontros com ministros e até com o embaixador dos Estados Unidos, Todd Chapman, com quem comemorou a independência da nação norte-americana no último dia 4. Pelo Twitter, a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil afirmou que Chapman se sente bem e que fará o teste para verificar se está ou não com a doença. Os ministros Luiz Eduardo Ramo, chefe da Secretaria de Governo, Rogério Marinho, do Desenvolvimento Regional, e Walter Braga Netto, da Casa Civil, que tiveram contato com o presidente nos últimos dias, já informaram que realizaram o teste nesta terça-feira e que os resultados foram negativos.

Nos últimos dias, o presidente também se encontrou com apoiadores nas ruas. “Confesso que achei que já tinha pego [a covid-19] lá atrás, devido a minha atividade e meu contato intenso com o povo nos últimos meses”, afirmou ele, que ao anunciar aos jornalistas que havia testado positivo, se afastou dos repórteres e retirou a máscara, para mostrar que estava bem disposto. “Tô na frente de combate, não fujo à minha responsabilidade e gosto de estar no meio do povo”, afirmou. “Se não tivesse tomando cloroquina preventivamente, poderia estar pior e até contaminando gente”, ressaltou, novamente, apoiamento o polêmico medicamento.

Em recado direcionado aos jovens, Bolsonaro disse que eles não têm o que temer: “Vamos tomar cuidado, em especial, com os mais idosos e os que têm comorbidades, os mais jovens tomem cuidado, mas se forem acometidos do vírus, fiquem tranquilos que para vocês a possibilidade de algo mais grave é próximo de zero”, disse, contrariando dados que mostram que os mais jovens são também os que costumam ser mais internados pela doença, apesar de morrerem menos que os idosos.

Bolsonaro agora terá que seguir o protocolo de isolamento, que prevê que não entre em contato com outras pessoas por ao menos 14 dias desde o início do desenvolvimento dos sintomas. Na entrevista aos jornalistas na manhã desta terça, ele voltou a criticar as quarentenas adotadas por Estados e municípios. “Houve um superdimensionamento, sabemos da fatalidade do vírus para quem tem mais idade e comorbidades. O isolamento foi feito de forma horizontal, ou seja, todo mundo ficou em casa. Foram medidas exageradas, no meu entender.” Nesta segunda, o Brasil chegou a 1.623.055 casos confirmados e 65.487 mortes.

Quando o novo coronavírus chegou oficialmente ao Brasil —em março, de acordo com o Ministério da Saúde—, Bolsonaro já alertava sobre uma “histeria” em relação à gravidade da infecção. “Eu não sou médico, não sou infectologista. O que eu ouvi até o momento é que outras gripes mataram mais do que esta”, disse em 11 de março, quando havia 52 casos confirmados de covid-19 no país.

Já em meados de março, começaram os primeiros rumores sobre uma possível infecção do próprio presidente, depois de uma viagem aos Estados Unidos, quando, na volta, diversos membros confirmaram, por meio de exames, que estavam com a doença. Na ocasião, Bolsonaro negou-se repetidamente a trazer a público os resultados dos seus exames. Mas após uma demanda judicial do jornal O Estado de S. Paulo, que chegou ao Supremo Tribunal Federal, ele mostrou uma cópia do laudo, com o resultado negativo. Os exames, no entanto, não tinham o nome dele por uma questão de privacidade, alegou. Nesta terça, a CNN Brasil mostrou o resultado atual, positivo, com o nome dele.

Por diversas vezes, ele minimizou não apenas o tamanho da pandemia no país como também os efeitos do vírus no corpo. “Depois da facada, não vai ser uma gripezinha que vai me derrubar, não, tá ok?”, afirmou em 20 de março, quando o país registrava 904 casos e 11 mortes. Quatro dias depois, quando os óbitos já somavam 46 vítimas e havia 2.201 casos confirmados, afirmou: “No meu caso particular, dado ao meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar. Nada sentiria ou seria, quando muito, acometido de uma gripezinha ou resfriadinho.”

Quando o Brasil ultrapassou a marca de 10.000 vítimas mortais da doença, em 9 de maio, Bolsonaro foi visto passeando de jet ski no lago Paranoá, às margens do Palácio da Alvorada, em Brasília. Na ocasião, chegou a aproximar-se de uma lancha de apoiadores, que o questionaram sobre a pandemia. Ele respondeu que se tratava de uma “neurose” e que “70% [dos brasileiros] vão pegar o coronavírus”.

Sua oposição à quarentena e ao distanciamento social colocaram-no em enfrentamento contra os governadores, que, reiteradamente, demonstraram nos últimos três meses preocupações com o impacto da pandemia em seus sistemas de saúde. Para contrastar com o colocou contra os governadores, preocupados com os efeitos da pandemia em seus sistemas de saúde. Em contraposição a esse discurso, Bolsonaro abraçou seus seguidores nas ruas e incentivou as pessoas a quebrar o confinamento imposto em suas cidades. “Não é tão ruim” ou “é uma gripe”, repetia o presidente.

Após o anúncio do presidente nesta terça-feira, alguns desses governadores fizeram votos de saúde e recuperação ao presidente. Foi o caso de João Doria, de São Paulo: “Desejo pronta recuperação ao Presidente Jair Bolsonaro, diagnosticado com COVID-19. Que ele siga as orientações da medicina e, em breve, esteja restabelecido”, escreveu no Twitter. O adversário de Bolsonaro nas eleições de 2018, Fernando Haddad, também lamentou “pelos mais de 1,6 milhão de infectados” no Brasil e desejou “que todos se restabeleçam, inclusive Bolsonaro”.

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