Pandemia de coronavírus

Médico tomou cloroquina de “forma preventiva”, mas contraiu Covid-19

Reumatologista, de 78 anos, acha que, se não tivesse tomado o remédio antes, a doença teria sido mais agressiva. “Não dá para ter certeza”, afirma ele, que discorda da pressão do presidente sobre seu uso

Amostras de sangue e plasma em um laboratório na Alemanha que, assim como o Brasil, investiga a cura do coronavírus.
Amostras de sangue e plasma em um laboratório na Alemanha que, assim como o Brasil, investiga a cura do coronavírus.ANDREAS GEBERT / REUTERS

Os estudos sobre os efeitos da cloroquina e da hidroxicloroquina no tratamento de pacientes com a Covid-19 aguardam conclusões. Mas o nome desses dois medicamentos, que são análogos, entrou no vocabulário dos brasileiros nas últimas semanas em meio a uma guerra de narrativas. Até o momento, os maiores evangelizadores para os benefícios da droga sobre pacientes com coronavírus não são médicos. Os presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump viram na cloroquina uma maneira de levantar uma bandeira de esperança em meio a essa pandemia, a despeito da falta de evidências firmes, e dos variados testemunhos de que nem sempre ela é eficaz, com efeitos colaterais que podem causar, por exemplo, arritmia cardíaca. Cientistas e médicos ainda falam sobre a substância com cautela.

Ninguém fica alheio ao debate. Em São Paulo, o médico reumatologista Roberto Bernd, de 78 anos, ousou testar na prática o efeito da cloroquina preventivamente. Começou a tomar o medicamento antes mesmo de contrair a doença e descobriu nele próprio o resultado. “Ela não evita a doença”, diz ele que descobriu no dia 25 de março que havia contraído o coronavírus. Bernd faz parte do corpo médico de um hospital na capital paulista. Foi afastado por fazer parte do grupo mais vulnerável aos efeitos da Covid-19, devido à idade. “Mas me afastei tarde demais”, lamenta.

Reumatologista, Bernd conhece bem o funcionamento da droga, cuja finalidade é, originalmente, tratar enfermidades como reumatismos, lúpus e malária. “Eu já receitava para vários tipos de reumatismos”, conta. “Sou reumatologista velho, quando começaram a falar sobre a substância para tratar do coronavírus, eu comecei a tomar”.

Sua esposa, que também já estava tomando a medicação de “forma preventiva”, adoeceu da mesma forma. Ambos testaram positivo para a doença poucos dias depois de se sentirem mal. Bernd teve os sintomas comuns aos infectados pelo coronavírus: tosse, prostração e falta de apetite. “Ao longo de uns quatro dias, comer era um sacrifício”, afirma. Apenas a mulher, que além dos sintomas do marido também perdeu completamente o olfato, chegou a ficar internada, mas na enfermaria, apenas para observação médica e sem a necessidade de respirador mecânico. “Acredito que se não tivesse tomado a cloroquina, eu teria tido uma forma bem mais pesada da doença”, diz ele. “Claro, não dá para ter certeza disso, mas acredito que sim”, pondera.

Grosso modo, o que os pesquisadores de todo o mundo investigam é o poder de a substância causar uma modificação nas células a ponto de atrapalhar a reprodução do vírus nelas. Mas as conclusões ainda são muito preliminares e resta saber, por outro lado, os efeitos adversos do medicamento. Outra discussão gira em torno do momento certo para tomar o remédio. O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, afirmou que liberou o uso da substância para doentes em estado médio e grave, a critério médico e com consentimento prévio e formal do paciente. Há uma linha de médicos, no entanto, que defende o uso assim que os primeiros sintomas surgirem. O consenso, por enquanto, está muito mais no efeito que o isolamento social pode causar para barrar a doença do que em alguma substância de cura. “Bolsonaro acredita que vai diminuir a pandemia dando o medicamento para todo mundo ao invés de decretar a quarentena. Isso realmente é um absurdo”, diz Bernd.

O uso de cloroquina virou arma de guerra política, a despeito dos riscos que a substância pode ter no organismo. Nesta semana, um tratamento experimental com cloroquina administrado a 81 pacientes vítimas do coronavírus foi interrompido depois que quem recebeu doses mais alta sofreu arritmia. Na semana passada, Denizar Vianna, secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos em Saúde do ministério da Saúde, ressaltou durante entrevista coletiva que o principal efeito colateral da hidroxicloroquina e da cloroquina é a possibilidade de causar arritmia cardíaca. “O coração é uma bomba que depende da ativação de um sistema elétrico próprio. Esse medicamento pode produzir um prolongamento de uma dessas fases elétricas do coração e propiciar um ambiente favorável a uma arritmia que pode ser potencialmente fatal”. Portanto, falta consenso inclusive no próprio Governo Bolsonaro. Em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, o vice-presidente Hamilton Mourão, por exemplo, disse que a discussão a respeito da cloroquina é exacerbada e falta “estudo consistente” sobre sua eficiência.

Enquanto não há consenso e tampouco uma vacina para o coronavírus, Bernd diz que, uma vez curado, pretende voltar ao trabalho no hospital. “Não na linha de frente, mas há a telemedicina que estão criando, onde eu poderia me encaixar”, diz. Mas, ainda que já tenha sido infectado, ele lembra que seguirá tomando todos os cuidados. “A gente vai continuar lavando as mãos e usando máscara. Até que exista uma vacina para essa doença”.

Informações sobre o coronavírus:

- Clique para seguir a cobertura em tempo real, minuto a minuto, da crise da Covid-19;

- O mapa do coronavírus no Brasil e no mundo: assim crescem os casos dia a dia, país por país;

- O que fazer para se proteger? Perguntas e respostas sobre o coronavírus;

- Guia para viver com uma pessoa infectada pelo coronavírus;

- Clique para assinar a newsletter e seguir a cobertura diária

Mais informações