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Casa Branca busca descredibilizar seu principal epidemiologista

Governo Trump distribui à mídia uma lista de supostos erros do especialista Anthony Fauci, que auxilia o presidente nas decisões durante a pandemia do novo coronavírus

O presidente Donlad Trump e o epidemiologista Anthony Fauci, na Casa Branca, em 17 de abril. Em vídeo, Trump diz ter uma boa relação com Fauci.
O presidente Donlad Trump e o epidemiologista Anthony Fauci, na Casa Branca, em 17 de abril. Em vídeo, Trump diz ter uma boa relação com Fauci.Leah Millis (Reuters)
Antonia Laborde

Há mais de dois meses Anthony Fauci, o principal epidemiologista do grupo de trabalho da Casa Branca para a crise do coronavírus, não despacha diretamente com Donald Trump. A última vez que Fauci esteve pessoalmente com o presidente norte-americano foi em 2 de junho. Os rumores do choque entre eles se validaram neste fim de semana, quando o Governo federal enviou um memorando a alguns meios de comunicação alertando que vários funcionários estavam “preocupados com a quantidade de vezes que o doutor Fauci se equivocou”.

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Britain's Prime Minister Boris Johnson talks with a paramedic as he visits headquarters of the London Ambulance Service NHS Trust, amid the spread of the coronavirus disease (COVID-19), in London, Britain July 13, 2020. Ben Stansall/Pool via REUTERS
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“Temos um país polarizado e isso não ajuda a controlar um surto”
11/07/2020 11 July 2020, US, Orlando: People are seen wearing face masks as they ride Thunder Mountain Railroad at the Magic Kingdom in Walt Disney World in Orlando, after it was reopened following months of closure due to the Coronavirus pandemic. Photo: Cory Knowlton/ZUMA Wire/dpa
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Cory Knowlton/ZUMA Wire/dpa
Flórida registra recorde diário de novos casos de covid-19 nos EUA desde o início da pandemia

O mandatário republicano não repercutiu a publicação no Twitter, mas nesta segunda-feira retuitou várias mensagens que desacreditavam os cientistas, dizendo que o Centro de Controle e a Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) e os médicos, “não todos, mas a maioria”, mentiram sobre a covid-19.

O texto, vazado por funcionários da Casa Branca a alguns repórteres de veículos como The Washington Post e CNN, tachava de inexatas uma série de afirmações feitas por Fauci no começo da pandemia. Por exemplo, quando minimizou, em fevereiro, a possibilidade de propagação assintomática e assegurou que as pessoas não precisavam fazer grandes mudanças em suas vidas. Entretanto, o texto exclui a parte da declaração em que advertia que a situação podia mudar e que, se ficasse demonstrado que o vírus se pulverizava, isso podia obrigar as pessoas a tomarem medidas de proteção. Também se inclui nesse memorando uma declaração de março em que o epidemiologista recomendou que as pessoas “não deveriam sair andando de máscara por aí”, conforme publica a NBC.

É extremamente incomum que a própria Casa Branca difunda um documento para desacreditar o trabalho de um funcionário que trabalha para a Administração, como se tratasse de um rival político. A distância entre Trump e Fauci aumenta à medida que cresce o número de contágios. Vários Estados que tinham começado a reabrir tiveram que recuar após novos surtos, concentrados no sul e oeste do país. Texas, Flórida e Arizona lideram os novos contágios, que já superam os 3,2 milhões nos EUA. E, embora as entrevistas coletivas de Trump com a equipe de trabalho contra o coronavírus tenha sumido, Fauci tem procurado outras vias para transmitir sua mensagem. O diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas – cargo que ocupa desde 1984 – concedeu entrevistas no Facebook, podcasts e meios escritos para falar da importância do uso da máscara e de seguir o guia que elaborou com sua equipe para a retomada das atividades nos Estados.

Visões distintas

Fauci esclareceu na quinta-feira passada que embora alguns Estados tivessem de fato o vírus sob controle, “quando nos comparamos a outros países não acredito que se possa dizer que estamos indo superbem. Quero dizer, simplesmente é assim”, afirmou ele num podcast do site FiveThirtyEight.com. Também argumentou que lhe parecia “compreensível” o veto da União Europeia e de outros países à entrada de cidadãos norte-americanos. A mensagem pessimista se choca diretamente com a posição de Trump, que tenta atribuir a disparada no número de casos a um aumento no número de testes realizados. Numa entrevista ao EL PAÍS, o epidemiologista foi taxativo ao apontar que “obviamente” as razões não se limitam à maior oferta de exames. “Não há dúvida de que os casos sobem porque há mais gente contagiada, assim como as hospitalizações aumentam”, salientou.

Durante a pandemia, tanto Trump como Fauci evitaram o conflito aberto. Inclusive quando o mandatário recomendou o uso da hidroxicloroquina, base de um tratamento contra a malária, e o cientista qualificou as provas de “pontuais”, o episódio não teve maiores consequências. Entretanto, quatro meses depois do início da pandemia nos EUA, e a outros quatro das eleições presidenciais, o mandatário mudou de estratégia. Na semana passada, em uma entrevista ao programa de TV Full Court Press, o republicano disse que Fauci “é um bom homem, mas cometeu muitos erros”. Sobre a advertência do cientista ao Congresso em 30 de junho, quando disse que os EUA não iam na direção correta, Trump respondeu: “Não estou de acordo com ele”.

As críticas à liderança de Fauci não provêm apenas do presidente norte-americano. O almirante Brett Giroir, membro da equipe de trabalho contra o coronavírus da Casa Branca, disse neste fim de semana à NBC que o doutor Fauci “não tem 100% de razão” e tampouco tem em mente todo o interesse nacional. “Ele olha de um ponto de vista muito limitado de saúde pública”, apontou. O assessor comercial da Casa Branca Peter Navarro também aderiu às críticas contra o epidemiologista, chegando a dizer que “se equivocou a respeito de tudo”. Enquanto isso, Fauci manifesta sua preocupação.

Manifestações contra o uso de máscara

No domingo, mesmo dia em que a Flórida registrava o maior número de novos casos diários nos Estados Unidos desde o início da pandemia (15.299), houve protestos nesse Estado contra o uso obrigatório das máscaras. Além disso, perto de Orlando, que reabriu as portas de seu parque de atrações Disney World, o restaurante 33 & Melt deu de presente até 100 refeições grátis aos clientes que entrassem no local sem máscara para consumir, informa a Reuters. Quando agentes da polícia chegaram ao estabelecimento para falar com os donos, os clientes, entre eles famílias com crianças, começaram a gritar: “Não nos fechem!” e “Isto é os Estados Unidos!”, entre outras queixas, como se vê em um vídeo que circula nas redes sociais.

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