Trump quebra tradição e indica direitista para a chefia do BID, que entra em zona de turbulência

Candidato dos EUA, Mauricio Claver-Caron gera mal-estar na instituição, onde já é visto como ganhador por ter o apoio da maioria dos Governos da América Latina

Mauricio Claver-Carone, candidato a presidir el BID, durante una reciente visita a Bolivia.
Mauricio Claver-Carone, candidato a presidir el BID, durante una reciente visita a Bolivia.Juan Karita (AP)

Há normas não escritas que convém respeitar para não transformar o cenário internacional em um vespeiro: a chefia do Banco Mundial cabe sempre a um norte-americano, a direção do Fundo Monetário Internacional (FMI) fica com um europeu e a presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) é reservada a um latino-americano. Mas Donald Trump é um especialista em chutar baldes, e desta vez não será diferente: o presidente da maior potência mundial apresentará, pela primeira vez nos 60 anos de história da instituição, um candidato norte-americano à chefia do BID. Um movimento que rompe uma tradição e um acordo tácito na região, e que gerou forte mal-estar em amplos setores latino-americanos.

A ex-presidenta costa-riquenha Laura Chinchila partia como claríssima favorita antes da pandemia de coronavírus: tinha tudo para vencer a disputa contra o argentino Gustavo Béliz, mas a entrada na corrida —em plena crise sanitária, no momento menos esperado— de Mauricio Claver-Carone, norte-americano de ascendência cubana, causou uma reviravolta no processo. A dois meses da escolha do sucessor do diplomata e ex-ministro colombiano Luis Alberto Moreno, que passou 15 anos à frente do órgão, qualquer resultado que não for a sua vitória seria uma surpresa maiúscula.

Para chegar à presidência do BID, é preciso obter a maioria não só dos países do continente (ou seja, pelo menos 15 dos 28), mas também do capital da organização. Em ambos os casos, o terreno está livre para Claver-Carone, que já foi representante dos EUA junto ao FMI. Ele mesmo anunciou o apoio de pelo menos metade dos Governos americanos, entre eles os do Brasil e Colômbia —duas peças-chave na engrenagem regional—, e seu país continua atuando como dono e senhor entre os acionistas do Banco (tem 30% dos direitos de voto, a anos-luz do resto dos sócios).

A esta altura, as fontes consultadas só veem uma mínima chance de evitar que o BID seja chefiado por um personagem tão controvertido como Claver-Carone: forçar um adiamento da votação até depois das eleições presidenciais de novembro na maior potência global. “Isso pode ser possível por consenso ou por falta de quórum quando a votação acontecer, para o que seria necessário que dois grandes países latino-americanos —por exemplo, o México e a Argentina— se abstivessem, e que os quatro grandes países europeus —Espanha, Alemanha, França e Itália— corroborassem essa abstenção”, especula José Juan Ruiz, que foi economista-chefe do organismo até poucos meses atrás.

Essa opção, entretanto, parece distante. A Europa ainda não mostrou suas cartas, o presidente mexicano exibiu uma chamativa sintonia com Donald Trump em sua recente visita à Casa Branca, e a Argentina manterá a indicação do seu candidato apesar de reconhecer sua falta de chances no corpo a corpo contra o homem de Trump. “Nossa estratégia continua aliada com a do México, mas sabendo que este panorama diminui as chances da Argentina de ter um candidato com peso próprio. A proposta dos EUA tem hoje 60% de apoio, de todos os países com os quais tem uma aliança”, diz ao EL PAÍS uma fonte governamental argentina familiarizada com as negociações da sucessão no BID. A indicação norte-americana foi recebida com surpresa em todo o continente americano. Mas, em Buenos Aires, o Governo de Alberto Fernández a considera compatível com a política externa de Trump. “Há uma decisão geopolítica de ocupar espaços frente ao avanço regional da China. O BID é uma fonte de financiamento que pode competir com o dinheiro chinês na América Latina”, salienta essa fonte, informa Federico Rivas Molina.

A postulação de Claver-Carone recebeu as críticas de cinco ex-presidentes latino-americanos. O colombiano Juan Manuel Santos, o brasileiro Fernando Henrique Cardoso, o chileno Ricardo Lagos, o uruguaio Julio María Sanguinetti e o mexicano Ernesto Zedillo consideram que o movimento de Washington representa uma “nova agressão do Governo dos Estados Unidos ao sistema multilateral”. Os ex-mandatários lançaram um apelo aos países membros do BID para que se ponham de acordo e busquem uma maioria alternativa, mas até agora isso não foi possível. Uma fonte ressalta que o México teve a oportunidade de apresentar um candidato próprio e não quis, o que na prática supõe um apoio indireto à posição dos Estados Unidos. “Pepe Toño González [ex-secretário de Fazenda], Alejandro Werner [diretor do FMI para a América Latina] e Santiago Levy [número dois do BID entre 2008 e 2018] seriam opções maravilhosas, com todas as credenciais. Mas López Obrador não quis apresentar um mexicano”, lamenta a fonte.

Com estas premissas, muitos acham que a sorte está lançada. “A eleição de Claver-Carone é um fato”, argumenta Mauricio Cárdenas, que ocupou várias pastas econômicas nos Governos de César Gaviria, Andrés Pastrana e Santos, na Colômbia, e que hoje dá aulas na Universidade Columbia (EUA). Depois de ter recebido os apoios da Colômbia e do Brasil, diz, “não há dúvidas sobre a eleição de Claver-Carone”. Mas há, e crescentes, sobre o futuro de seu principal protetor, Trump, que comprou sua ambição de chegar à chefia do BID e tem pela frente um horizonte eleitoral no mínimo duvidoso, pois praticamente todas as pesquisas indicam que hoje seria derrotado pelo democrata Joe Biden. “Claver-Carone é um candidato pessoalmente muito associado a Trump, e a dúvida é o que acontecerá se Biden ganhar.”

Contudo, Cárdenas marca uma diferença entre o que geralmente se diz antes de chegar a um cargo de responsabilidade como a presidência do BID e o que se acaba fazendo após sentar na cadeira. “As instituições acabam sendo mais fortes que as opiniões de seus presidentes. Ou, em outras palavras: os presidentes costumam se acomodar mais às instituições que as instituições a seus presidentes”, afirma por telefone, evocando o caso do também norte-americano David Malpass, muito polêmico antes de ser eleito presidente do Banco Mundial, mas discreto depois de tomar posse como chefe do organismo multilateral. “Neste caso, suas posturas provavelmente se matizarão”, prevê o ex-ministro colombiano.

Inquietação

Mas o que já se ouviu da boca de Claver-Carone inquieta, e muito, dentro do BID. Todos os projetos financiados pela instituição são acompanhados de uma série de proteções ambientais, sociais e de transparência e, com os precedentes da política de Trump, teme-se na sede da avenida New York, 1.300, em Washington, que o banco sofra uma mudança radical em seus postulados. “O dia a dia continua, business as usual, mas há preocupação e nervosismo, até sabendo que não há muito que se possa fazer. Há temor de que passemos a ser uma ferramenta política, quando até agora estávamos fora da batalha”, diz um funcionário sob a condição de anonimato.

“Entre os funcionários a indignação é enorme... e justificada. Teme-se uma agenda oculta e que privilegie os interesses do setor privado. Os europeus, e muito particularmente a Espanha, têm que perceber que este senhor vai politizar o banco, com uma agenda muito direitista”, aponta um ex-alto funcionário do organismo que conhece com perfeição seus meandros internos. O que está em jogo, insiste essa fonte, “não é uma coisa geopolítica de curto prazo, e sim a orientação estratégica de uma instituição muito importante para a região. A parte da mudança climática eles vão esquecer por completo”, alerta.

“Muitos países que votarão nele, inclusive a Colômbia, deveriam entender o que significa o BID para a região e o que significa para o BID ter alguém assim na presidência. É triste: não é só que responda a Trump, mas sim que, por sua inclinação ideológica, possa tomar opções nocivas nos temas em que o banco tem trabalhado. É uma pessoa muito conservadora”, ataca o colombiano Eduardo Lora, ex-chefe de análise do órgão multilateral. “É muito preocupante, porque é não levar a sério o papel de um organismo que tradicionalmente tinha estado à margem de questões políticas e que será muito importante durante a crise”.


Mais informações