PANDEMIA DE CORONAVÍRUS

A triste sorte dos presidentes negacionistas da covid-19

Líderes relutantes em adotar medidas para controlar a pandemia como Trump e Bolsonaro enfrentam agora um número recorde de afetados pelo coronavírus

Donald Trump em Washington no mês de junho.
Donald Trump em Washington no mês de junho.Patrick Semansky / AP

Na crise do coronavírus, na maioria dos casos havia inicialmente desconhecimento, depois dúvidas, mais tarde desconcerto e, por último, ação. Mas, nesse trânsito, alguns políticos continuaram negando a dimensão da catástrofe e reagiram tarde e de maneira frágil, posição defendida pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que ainda se recusa a usar máscara em público, apesar de governar o país que lidera o número mundial de mortos, com 130.000 (quase um em cada quatro no mundo). Ele é seguido por seu colega do Brasil, Jair Bolsonaro, que na terça-feira deu positivo para covid-19 e caminha nos mercados sem respeitar a distância social em um país que acumula mais de 66.000 vítimas mortais, segundo dados do Ministério da Saúde. “Os Governos que adotaram políticas mais rígidas e o fizeram mais rápido viram um crescimento mais lento das mortes. A ação rápida foi essencial para achatar a curva de contágio do coronavírus”, aponta Thomas Hale, que dirige a ferramenta de rastreio das respostas dos Governos ao coronavírus na Universidade de Oxford.

“Nestes dois países os políticos esperaram demais para levar o problema a sério. Isso permitiu que o vírus se estabelecesse amplamente e que seja necessário muito tempo para reduzir a taxa de infecção. De fato, vemos que o surto persiste, provavelmente porque as restrições foram levantadas prematuramente”, acrescenta Hale. Ambos os líderes minimizaram a doença, ignoraram os dados, zombaram da ciência e das instituições e ignoraram as experiências vividas em outras latitudes ―Boris Johnson, no Reino Unido, por exemplo, começou a gestão de modo hesitante, mas não negou a gravidade da pandemia e acabou dando uma guinada― para priorizar a atividade econômica e se fortalecer antes das eleições: a de Trump em novembro e a de Bolsonaro em 2022.

Mas suas estratégias têm fissuras. Os Estados Unidos já registram quase três milhões de casos e o Brasil ultrapassou 1,6 milhão. São os dois países com mais contágios. A população viu como foram abertas grandes valas comuns em seus solos, como seus presidentes entraram em confronto com os governadores dos Estados que optaram por medidas para evitar os contágios, ou como, no caso do Brasil, perderam dois ministros Saúde em menos de um mês devido a discrepâncias com os critérios de distanciamento social e quarentena. Quase todo dia surge uma notícia contra os dirigentes: um juiz brasileiro advertiu Bolsonaro que o multará se aparecer sem máscara em público em Brasília; a UE vetou os viajantes dos Estados Unidos e do Brasil, o epidemiologista da Casa Branca rebateu Trump sobre a necessidade de se fazer mais testes, depois que os EUA romperam as relações com a Organização Mundial de Saúde (OMS) por sua suposta proximidade com a China, a quem acusou de pressionar para que o mundo subestimasse o coronavírus.

Nesse transe, os Estados Unidos viram sua taxa de desemprego subir para 14,7%, que baixou em junho para 11,1%. No caso do Brasil, o Fundo Monetário Internacional prevê que seu PIB caia 9% este ano. “Quanto antes se consiga deter o vírus, mais rápida e vigorosa será a recuperação”, recomenda sua diretora, Kristalina Georgieva. “O enfoque da economia primeiro é uma visão de muito curto prazo. Não colocar a saúde pública no centro dos planos de ação governamentais não salva a economia”, afirma Juan Pablo Bohoslavsky, especialista em Direitos Humanos e dívida externa e coautor do relatório Covid-19: Políticas Econômicas e Sociais Irresponsáveis no Brasil Colocam em Risco Milhões de Vidas, compilado pelo Escritório do Alto Comissariado da ONU.

A aliança dos avestruzes

“Teremos de ver a situação, mas sem uma estratégia séria, sem um plano pós-pandemia, sem dados confiáveis... a mensagem que enviam à comunidade internacional e aos investidores é de desconfiança. Perde-se a credibilidade neles”, aponta Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas de São Paulo. Para ele, os negacionistas se circunscrevem aos líderes de Brasil, Bielorrússia, Turquemenistão e Nicarágua, para os quais cunhou a fórmula A Aliança dos Avestruzes, por fingirem que o problema não existe. “Ignorá-lo permite que eles falem de coisas boas ou de como a economia se recupera. Precisamente, o que têm em comum é que não sabemos o que está acontecendo em seus países, e para eles isso é ótimo. Não se sabe o que acontece e é isso o que consideram importante.”

O Brasil passou por um apagão de informação sobre os dados; no Turquemenistão nem sequer divulgam o número de contagiados, e seu presidente, Gurbanguly Berdimuhammedow, baniu a palavra coronavírus das Administrações. Na Bielorrússia, com cerca de 450 mortos em uma população de 9,5 milhões de pessoas, o presidente Aleksander Lukashenko manteve os eventos de massa e chamou a pandemia de psicose. “Nossa prioridade deve ser e é nossa economia. Tudo isso passará, como já vemos acontecer na Europa. No entanto, a economia permanecerá para sempre”, disse à Euronews.

“Os líderes do Turquemenistão e da Bielorrússia têm medo de parecerem demasiado humanos para a população. Não têm capacidade de gestão, mas ao mesmo tempo pedem lealdade a seus seguidores, e muitos acreditam neles”, diz Stuenkel, que alerta para as repercussões que suas ações podem ter, não apenas na saúde física ou na economia da população, mas também na saúde mental. “Fala-se menos do impacto que terá a incerteza e a instabilidade por serem dirigidos por governantes que não gerem de forma coerente, embora se equivoquem. O custo emocional para as sociedades em que os líderes não são sérios é incalculável e dificilmente mensurável. O desespero, a falta de liderança e se sentir à deriva é uma questão muito grave”, diz o professor.

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