Pandemia de coronavírus

América do Sul observa com cautela a variante lambda da covid-19

Os dados disponíveis sugerem maior transmissibilidade dessa mutação, detectada originalmente no Peru, mas os especialistas pedem mais e melhores evidências. No Brasil, três casos e uma morte já estão relacionados à nova cepa

Trabalhadores da saúde cruzam o rio Camaná para imunizar idosos com doses da vacina Pfizer-BioNTech contra a covid-19 em Arequipa, no sul do Peru, em 2 de julho.
Trabalhadores da saúde cruzam o rio Camaná para imunizar idosos com doses da vacina Pfizer-BioNTech contra a covid-19 em Arequipa, no sul do Peru, em 2 de julho.DIEGO RAMOS / AFP

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A lambda já é uma “variante de interesse” da covid-19 para a Organização Mundial da Saúde (OMS). Esta classificação equivale a colocar a linhagem provavelmente originada no Peru sob vigilância cautelosa, mas atenta: indica que, com base nas evidências disponíveis, a C.37 mostrou potencial para ser mais perigosa entre os humanos em ao menos uma das dimensões que preocupam sobre o vírus (principalmente sua capacidade de contágio ou de escapar da imunidade adquirida). Se finalmente será, e em que medida, é algo a confirmar. Mas os indícios coletados na área andina (Peru, mas também Chile e Argentina) não são animadores. No Brasil, três casos e uma morte já estão relacionados à nova cepa.

Contudo, esses mesmos indícios são insuficientes para tirar conclusões fortes. Possivelmente, a origem e a localização geográfica da lambda têm a ver com isso. A história da lambda é indissociável de seu surgimento em um ambiente com capacidade de vigilância genômica relativamente escassa. Sem investimento, capacidade instalada e transparência nas evidências acumuladas, é muito mais lento e difícil mensurar o perigo.

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Origem andina

Pablo Tsukayama, coordenador do laboratório de Genética Microbiana da Universidade Cayetano Heredia, em Lima, faz parte de uma equipe de pesquisadores cujo trabalho foi fundamental para detectar, medir e dimensionar a variante lambda em um primeiro momento, quando ainda era conhecida por seu código de linhagem: C.37. Segundo a última versão do estudo que a caracteriza (ainda pendente de revisão), a lambda representou 100% das amostras de vírus coletadas no Peru já em abril de 2021. É essa elevada presença nas amostras que os leva a lançar a hipótese da origem peruana.

Chile e Argentina são os outros dois países objeto de atenção. “A Argentina reportou menos de 100 sequências, mas possivelmente tem muitas mais”, considera Tsukayama. Ele ainda esclarece que isso tem a ver com a forma como o sistema argentino analisa cada amostra. Cada país tem sua metodologia, em muitos casos limitada pela necessidade de economia ou eficiência, ou por práticas estabelecidas. No caso peruano, por exemplo, o próprio Tsukayama afirmou que só a partir de abril receberam os recursos necessários para produzir uma análise como a que acabaram publicando, e que trouxe a lambda à luz.

A falta de dados abertos também não ajuda: no dia 25 de junho o Ministério da Saúde do Peru divulgou seu próprio percentual de amostras da lambda coletadas sobre o total, que ficou em 71,1% entre janeiro e junho. Várias vozes da ciência, entre elas a de Tsukayama, se queixaram então da falta de acesso aos dados que estão por trás: “Pedimos que divulgassem os dados e não o fizeram”, disse.

Mas, ainda assim, o trabalho de compilação de iniciativas, como a plataforma GISAID, ou a colaboração entre laboratórios, plasmada no portal outbreak.info, facilitam a perimetragem relativa das variantes. Neste caso, a hipótese da origem peruana é reforçada pela notória presença nos vizinhos Chile e Argentina, ambos os países com picos recentes de contágio que não puderam manejar por completo.

A localização tem mais a ver com o contexto do que com as características intrínsecas da lambda, esclarece Tsukayama. E fala da importância da mobilidade para explicar o contágio. “O que vimos (com as variantes) é que elas aparecem e se espalham pela região”. Mas isso se deve ao fato de que há mais movimentos, “introduções” na terminologia epidemiológica. “O sucesso de uma variante em um país depende não apenas de quão transmissível ela é, mas de quantas introduções existem”. A lambda pode ter se espalhado agilmente entre as fronteiras, tanto por sua vantagem competitiva quanto pelo número de pessoas que a levaram de um país vizinho para outro.

Mais contagiosa?

Na hora de avaliar com precisão a maior transmissibilidade da lambda, Tsukayama considera que “a única evidência, preliminar, mas acredito que seja sólida, é seu rápido crescimento”, especialmente no Peru. “Algo que quase não existia no final de 2020, e que em março já estava em 80%, significa que provavelmente tem algum tipo de vantagem. É semeada (com as introduções) e rapidamente se expande”. É provavelmente o que chamou a atenção da OMS, motivando a inclusão da variante no grupo de interesse.

No entanto, a origem dessa vantagem, bem como seu grau e sustentabilidade, continua sendo uma pergunta em aberto. A própria OMS admite que as evidências não são suficientes para concluir preocupação, apenas para apontar o mencionado potencial de risco.

Uma das razões da dúvida é o peso do entorno. Quando expansões rápidas de novas variantes são observadas em contextos específicos, talvez a velocidade tenha tanto ou mais a ver com algumas características desses contextos. Por exemplo: talvez a lambda tenha conseguido crescer com tanta agilidade graças às condições de densidade e habitabilidade das cidades em que se fez forte. Não há evidências diretas que sustentem tal hipótese, mas com as primeiras ondas de contágio verificou-se em Lima, Buenos Aires, São Paulo ou Bogotá que o SARS-CoV-2 segue em certa medida os caminhos da aglomeração e das piores condições de vida em meio urbano. Além disso, com outras variantes, como a famosa e preocupante delta, as estimativas de uma alta porcentagem de contágio foram ajustadas para baixo, embora permanecendo acima de suas antecessoras, à medida que se dispunha de mais dados para eliminar o ruído contextual do sinal emitido por cifras como a diferença entre as taxas secundárias de contágio: como é mais provável que uma pessoa portadora de SARS-CoV-2 versão lambda ou delta a transfira para outra, em comparação com uma que porta variantes anteriores.

Para distinguir entre os elementos contextuais e aqueles atribuíveis à genética do vírus, os pesquisadores, como Tsukayama, continuam trabalhando: “Nós ainda não fizemos esses cálculos, em parte porque ainda não coletamos sequências suficientes. Estamos nesse processo”.

“O mundo se acostumou com a evidência rápida” sobre as variantes, acrescenta, lembrando que isso é algo bom, mas também determinado pelo fato de muitas delas terem se apresentado em situações de grande atenção pública à saúde e disponibilidade de recursos para responder agilmente às perguntas que iam surgindo —particularmente no Reino Unido, um país com sistemas de saúde que trabalham junto com pesquisadores e instituições ímpares na frente epidemiológica e virológica. Algo que até agora não necessariamente acompanhou a lambda, uma variante típica de países de renda média ou média-alta.

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Mais vigilância e melhor vacinação

A outra pergunta que ocupa todas as mentes sobre a lambda, assim como sobre qualquer variante nascida ou por nascer, é quão eficaz ela é para escapar da proteção com a qual nosso sistema imunológico é dotado por meio da vacinação. Sobre isso, as evidências são ainda mais escassas do que sobre a transmissibilidade. Existem apenas dois estudos disponíveis, ambos em condições de laboratório.

Um deles, liderado pelo virologista chileno Ricardo Soto Rifo, concentrou-se na vacina CoronaVac, do laboratório chinês Sinovac e desenvolvida no Brasil em conjunto com o Instituto Butantan. Observando um grupo de trabalhadores de saúde voluntários, descobriram que a lambda apresentava “capacidade de infecção e de escape imunológico incrementada contra os anticorpos neutralizantes” que esta vacina fomenta. O alcance fora do laboratório de tal perda relativa, nunca completa, de proteção ainda está por ser esclarecido.

No outro estudo disponível —assim como o anterior, pendente de revisão por pares científicos—, uma equipe da Universidade de Nova York encontrou reduções semelhantes para as vacinas da Pfizer e da Moderna, que os autores consideraram “relativamente menores”.

Para além das nuances, e à espera de evidências sólidas no mundo real como a que já temos para a variante delta, o que se adivinha é uma tendência com cada nova variante de deterioração menor, mas gradual, na capacidade de proteção das vacinas. “É praticamente impossível prever como um vírus sofrerá mutação”, afirma Tsukayama. “Mas existem algumas lições. Até agora não vimos uma variante claramente mais patogênica. Mas o que vai bem para o vírus é se tornar mais transmissível. É por isso que estamos vendo avanços graduais” tanto na transmissibilidade quanto no escape imunológico, com o segundo fator alimentando o primeiro.

Sistemas de vigilância genômica e de avaliação posterior avançados, sólidos, são fundamentais para rastrear esses avanços graduais. Soto Rifo e seus coautores concluem em seu estudo sobre anticorpos e a variante lambda que “as campanhas de vacinação em massa em países com alta circulação de SARS-CoV-2 devem ser acompanhadas de uma vigilância estrita que permita a identificação” de mutações significativas para o escape imunológico. Agora que a OMS determinou oficialmente a lambda como uma variante de interesse, Tsukayama espera que mais laboratórios se juntem para completar os estudos necessários para calibrar o tamanho da ameaça que representa para a região sul-americana e para o resto da população mundial.

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