Babu Santana, o ator que saiu do Vidigal, mas não deixa a favela

Mesmo premiado e com mais de dez novelas no currículo, o intérprete de Tim Maia no cinema só ganhou visibilidade pelo BBB, uma esperança para se livrar das dívidas e do desemprego

Usando pente-garfo como amuleto, Babu leva discurso antirracista ao Big Brother.
Usando pente-garfo como amuleto, Babu leva discurso antirracista ao Big Brother.Reprodução

Ao comemorar seus consecutivos e desacreditados triunfos no reality show mais próspero da Globo, o ator carioca Alexandre da Silva Santana, o Babu, solta um berro do fundo da alma em sinal de agradecimento à comunidade onde cresceu: “Favelaaa!”. Nascido e criado no Morro do Vidigal, ele se tornou conhecido por interpretar o cantor Tim Maia em cinebiografia lançada em 2014. Apesar de ter sido aclamado pelo filme, Babu encontrava-se endividado e desempregado antes de entrar para o Big Brother Brasil no início do ano. Pai de três filhos, conseguiu sair do Vidigal, mas não deixa a favela.

Discursos com a temática racial, embasados por sua origem humilde e as vivências como homem negro, formam parte de seus melhores momentos no programa. O próprio apelido, por sinal, surgiu de uma abreviação de cunho racista, já que, para irritá-lo, colegas de infância o comparavam a um babuíno. Decidiu ressignificar a ofensa adotando-a como nome artístico, alcunha pela qual seu pai também é chamado. Antes de virar ator, fez serviços de pedreiro, eletricista e vendedor. O primeiro emprego formal foi em uma livraria no centro do Rio de Janeiro, onde o racismo lhe serviria de motivação para vingar na carreira sobre os palcos.

Mais informações

Certa vez, pediu liberação à patroa para fazer um teste no Nós do Morro, um projeto social que forma atores no Vidigal. A dona da livraria riu de sua cara. Respondeu que um “preto, feio e queixudo” não servia para ser ator. Babu engoliu em seco aquela humilhação, decidido a provar o contrário. A desconfiança sobre as chances de um favelado se tornar artista de sucesso sempre o rondou. Desde cedo, o pai, que era segurança no antigo Teatro Fênix, apresentou-lhe o universo das artes cênicas. A mãe e uma tia o incentivaram a entrar para um curso de teatro ainda criança, com intuito de melhorar sua dicção. Prognata, fruto de um desvio na parte inferior da mandíbula que projeta o queixo para fora do rosto, ele tentava convencer a família de que poderia viver do ofício de ator.

Passou no teste do Nós do Morro e, em seguida, acabou selecionado para encenar o papel de um traficante em Cidade de Deus. Nunca se resignou com o fato de interpretar, na maioria dos convites que surgiam, bandidos periféricos. Seu antídoto era imprimir complexidade aos personagens, humanizando-os a fim de quebrar o estereótipo do negro da favela tachado de criminoso. O primeiro papel de protagonista —em que não seria bandido nem vilão— só apareceu quando já tinha mais de uma década de carreira. A atuação como Tim Maia lhe rendeu o prêmio de melhor ator do ano no cinema brasileiro, dividido com Tony Ramos, indicado pela interpretação de Getúlio Vargas.

O êxito do filme apontava para uma guinada na trajetória como ator, mas a poupança do cachê não durou muito tempo, assim como a fama repentina. Chegou a ser convidado para interpretar Maguila e começou a se preparar treinando boxe. Porém, o projeto acabou engavetado por falta de patrocínios. Mesmo com mais de dez novelas no currículo, os trabalhos sazonais em produções de TV não eram suficientes para manter as contas em dia. Babu mora de aluguel em uma casa simples na Ilha da Gigoia, a pouco mais de dez quilômetros do Vidigal, com a namorada, os filhos e um amigo que ajuda a bancar as despesas. Não pensou duas vezes ao aceitar o convite para a atual edição do BBB, inserido na cota de personalidades selecionadas pela produção, vislumbrando a chance de ganhar notoriedade e pagar as dívidas que contraiu nos últimos anos.

No reality show, Babu tem se esforçado para exibir ao público sua faceta mais engajada na luta contra o racismo. Estabeleceu um pacto de não votar em Thelma, mesmo que tenham estado, por vezes, em lados opostos do jogo. Segundo ele, existe “algo muito maior” que o impede de indicar a médica negra ao paredão. No último domingo, depois de ser votado por Thelma, o ator permaneceu irredutível em proteger a colega de confinamento. “Esse é o BBB das bandeiras. E eu defendo uma muito forte. Mantendo minha coerência e minha luta de sempre, vou votar na Rafa, porque eu já falei: na Thelminha eu não voto”, justificou. Em seguida, aproveitou para dizer que se sentiu discriminado por outras competidoras.

Depois de adotar o pente-garfo para cabelo afro como amuleto, ele foi vítima de comentários racistas por parte de Ivy, sua adversária no jogo, que debochou às gargalhadas do acessório: “Quem é que penteia cabelo com um trem desse?”, zombou a mineira. Em outra ocasião, Babu explicou às participantes sobre o simbolismo do apetrecho para o movimento negro. “É o empoderamento black. Antigamente, a gente [pessoas negras] não podia ter cabelo black, porque era associado à sujeira ou a uma coisa feia e subversiva. Quando você pega o pente e abre o cabelo, o black é a coroa. E o pente, a libertação.” Babu ainda demonstrou incômodo por ter sido chamado de “monstro” por Ivy e suas amigas, incluindo a médica Marcela, a quem o ator comparou à ex-chefe que o humilhara em seu primeiro emprego. “Ela me olha igual a minha patroa. Eu já recebi muitos olhares como o dela.” No paredão em que Marcela foi eliminada, Babu recebeu apenas 1% dos votos.

Entretanto, seu brilho na casa é ofuscado pelos próprios preconceitos que carrega. Recorreu a insultos homofóbicos ao manifestar revolta contra o desafeto Daniel e se aliou a homens eliminados por causa de atitudes machistas, a exemplo do arquiteto Felipe Prior, de quem mais se aproximou ao longo do programa. Cobrado pelas mulheres que restaram no confinamento, reconheceu que os deslizes são “resquício de masculinidade tóxica”, lembrando o contexto que moldou sua conduta. “Sou um jovem dos anos 90. Naquela época, você só conseguia entrar no Maracanã dando cinco ou seis porradas. Só subia no ônibus dando cotovelada um no outro. É ruim, mas essa foi minha realidade. São vícios de linguagem que tento mudar. Hoje, aos 40 anos, eu seria incapaz de agredir alguém”, contou ao rechaçar a pecha de violento que lhe atribuíram na casa. Durante o reality show, tanto Ivy quanto Marcela afirmaram ter medo de falar com o ator.

Por outro lado, Babu se mostra receptivo a refletir sobre lapsos preconceituosos, assumir os erros e a repreender colegas por comportamentos machistas, como fez com Prior. “Fui educado por mulheres que me criaram nessa vibe do feminismo. Me considero um homem pró-feminismo em processo de educação.” A morte da mãe, há cinco anos, foi um gatilho para que o ator entrasse em depressão, por sentir falta de carinho e, naturalmente, de reconhecimento em uma carreira que ela preferia que o filho tivesse evitado. “O Babu é uma pessoa adorável. Um ursão que, às vezes, parece uma coisa bruta, cheio de defeitos, mas também muito doce, emocional e apegado à família”, diz o colega de profissão Lázaro Ramos, exaltando o apelido de Paizão pelo qual o ator se orgulha de ser intitulado. “Ele é um trabalhador, resistente e sobrevivente.”

Embora não fosse “anônimo” como parte de seus concorrentes no BBB, o ator era tido como um azarão dentro da casa, até mesmo pelo amigo Prior. Quando levou a melhor na disputa com hipnólogo e youtuber Pyong Lee, os participantes desconfiaram de que pudesse se tratar de uma eliminação falsa. Precisou resistir a oito paredões, um recorde entre todas as 20 edições do programa, para começar a ser assimilado internamente como um dos favoritos do público. Em sua torcida, se destacam jogadores de futebol como Gabigol, ídolo de Babu, que é torcedor rubro-negro. Antes da paralisação dos campeonatos, o atacante do Flamengo havia comemorado um gol em homenagem ao ator e já prometeu visitar o Morro do Vidigal quando ele sair da casa.

O reconhecimento tardio, na esteira de popularidade do BBB, é relativo. Desde que foi confinado, Babu ganhou mais de quatro milhões de seguidores no Instagram, número inferior ao de Prior. Com seis milhões no total, o arquiteto, mesmo sem lastro artístico, amealhou quase um milhão de novos seguidores após as acusações de estupro reveladas assim que deixou a competição. Os haters, por sua vez, se mobilizam para desgastar a imagem de Babu. A família resolveu acionar advogados diante dos frequentes ataques racistas que tem sofrido nas redes sociais. Todavia, Babu pode se apegar ao menos à sinalização de mais ofertas de trabalho ao final do programa. Sensibilizado com a fala do ator sobre os escassos convites para atuar, o youtuber e empresário Felipe Neto prometeu-lhe um emprego nem que seja para apresentar seu canal. Cineastas e diretores de novela também manifestam intenção de contar com o Paizão em futuras produções.

Caso seja campeão do Big Brother, ele pretende investir o prêmio de 1,5 milhão de reais em um imóvel próprio, uma casa para o pai, que ainda mora no Vidigal, e na reforma de um galpão na favela, em apoio ao projeto Nós do Morro. Babu entende que o teatro salvou sua vida, não somente por capacitá-lo em um ofício, mas, sobretudo, por lhe proporcionar sobriedade. “Me tornei uma pessoa um pouco mais culta, militante dos direitos de minorias, e um pai mais presente.” A gratidão pela oportunidade o levou a tatuar o símbolo do projeto em seu braço esquerdo e o motiva a seguir trabalhando pela transformação social da comunidade que jamais deixou de frequentar. Para empunhar sua bandeira no lugar mais alto do morro, espera subir novamente as ladeiras do Vidigal coroado como o primeiro homem negro a vencer o reality show de maior audiência no país.

No EL PAÍS, dezenas de jornalistas trabalham para levar a você as informações apuradas com mais cuidado e para cumprir sua missão de serviço público. Se quiser apoiar nosso jornalismo e ter acesso ilimitado, pode fazê-lo aqui por 1 euro no primeiro mês e 10 euros a partir do mês seguinte, sem compromisso de permanência.

Inscreva-se

Mais informações