A resposta histórica do Fluminense à homofobia

Derrota na final da Taça Guanabara fica em segundo plano diante da grandeza tricolor ao rebater provocação do vascaíno Fellipe Bastos

Fellipe Bastos cantou provocação homofóbica ao Flu após título do Vasco.
Fellipe Bastos cantou provocação homofóbica ao Flu após título do Vasco. (Arquivo pessoal)

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Cânticos homofóbicos são banalizados nos estádios. Para muitos, como o ex-jogador Vampeta, eles fazem parte da cultura do futebol, do ritual de torcedores para tirar sarro dos rivais. Ao se comportar como um deles, o volante Fellipe Bastos, do Vasco, reproduziu, após sua equipe conquistar a Taça Guanabara, no Maracanã, um grito bem conhecido das arquibancadas, referindo-se ao Fluminense como “time de viado”. Embora carregue conotação homofóbica inquestionável, por tratar da homossexualidade de maneira pejorativa para debochar de um adversário, esse tipo de provocação sempre foi relativizado por causa da omissão de clubes e federações, que evitam se posicionar contra a homofobia disfarçada de folclore futebolístico.

Mas o Fluminense decidiu marcar posição. Com uma resposta contundente, o clube das Laranjeiras mostrou que deboche preconceituoso, a essa altura do campeonato, já não tem mais nenhuma graça. “O Fluminense entende que uma vitória seguida de homofobia é uma derrota para o esporte, para a sociedade”, inicia o manifesto tricolor, aludindo ao triunfo do Vasco em campo neste domingo. “E o país onde mais se assassina LGBTs no mundo não pode deixar uma demonstração tão clara de preconceito morrer. Por respeito. Por justiça. Por humanidade. O Fluminense, assim como todo clube de futebol, é feito de homens e mulheres de várias cores, condições sociais, sexualidades e tem muito orgulho de cada um de seus torcedores. Por isso faz questão de afirmar, quantas vezes forem necessárias, que é um #TimeDeTodos.”

Em seguida, o lateral Igor Julião, ativo nas redes e reconhecido por seus posicionamentos em defesa de causas sociais, celebrou a manifestação do clube que defende. “Eu jogo há 16 anos no #TimeDeTodos. Todos são bem-vindos, menos os atrasados e preconceituosos. Que orgulho em vestir a camisa do Fluminense por tanto tempo”, postou o jogador que, no ano passado, revelou que um tio se suicidou depois de vários anos sofrendo com a homofobia. Em jogo marcado por rivalidade tóxica nos bastidores, desorganização e desrespeito aos torcedores, que só puderam entrar no estádio a partir dos 30 minutos do primeiro tempo, a derrota do Fluminense se torna irrelevante diante de um triunfo institucional tão mais expressivo fora dos gramados.

Chama a atenção que jogadores, salvo raras exceções como Igor Julião, não demonstrem empatia com os companheiros de profissão gays. Historicamente, o futebol é um meio machista e homofóbico. Não se admite que eles declarem sua orientação sexual, sob o risco de serem ameaçados por torcedores violentos e terem a carreira boicotada por dirigentes de mentalidade “atrasada”, como diz Julião. Em um documentário produzido pela Vice, o ex-corintiano Vampeta reconhece que a atmosfera de intolerância impede que colegas homossexuais falem abertamente sobre o tema, mas não se furta de chamar rivais são-paulinos pelo apelido jocoso de “bambis”.

No mesmo documentário, o então diretor do departamento social do Vasco, José Pinto Monteiro, disse que, apesar de a homofobia não ser assunto debatido com frequência em São Januário, o clube ofereceria condições para proteger os direitos de jogadores que eventualmente se declarassem gays. Em janeiro, a gestão vascaína se manifestou contra cânticos homofóbicos proferidos pela torcida do Taubaté toda vez que o goleiro Alexsander cobrava tiros de meta em jogo da Copa São Paulo Júnior. “Não há espaço para atitudes como esta”, condenou o time carioca, lembrando que a FIFA já sancionou agremiações cujas torcidas tiveram comportamento semelhante. Entre elas a CBF, reincidente por gritos homofóbicos em jogos da seleção. Ainda assim, a confederação tem sido condescendente com a prática em território nacional, evitando denúncias e punições severas a clubes filiados que fecham os olhos para a homofobia em seus estádios.

Por isso, o posicionamento de entidades do futebol a favor da diversidade, como no manifesto do Fluminense, tem de ir além das redes sociais, de modo permanente, e não apenas em casos pontuais – seja para vender a imagem de uma falsa política de responsabilidade social, para evitar possíveis sanções ou pelo oportunismo das rivalidades. É o que se espera de grandes instituições como o tricolor carioca, perseguido pela pecha homofóbica desde que um jogador do clube usou pó de arroz para disfarçar a cor da pele nos tempos em que o futebol não aceitava negros. Ou como o Vasco, que, naquela época, solidificou sua grandeza por meio da Resposta Histórica, um manifesto em que se recusava a excluir seus jogadores negros da liga local.

Orgulhoso de ter sido protagonista na luta contra o racismo, sobretudo pela fama de clube popular e inclusivo, o Vasco também precisa se portar como um time de todos no campo da diversidade sexual. Admitir manifestações homofóbicas de jogadores que vestem seu uniforme é uma afronta à sua história. A resposta à atitude de Fellipe Bastos demanda contundência e didática à mesma altura do Fluminense, resultando em ações efetivas – a repercussão do manifesto tricolor tem contribuído para divulgar os canais de denúncia contra homofobia do Ministério Público – e duradouras. O jogador pediu “desculpas a todas as pessoas que se sentiram ofendidas”, admitindo o erro ao se exaltar na comemoração do título, enquanto o clube manifestou repúdio “a todo e qualquer tipo de preconceito”, sublinhando que discutirá o caso internamente. Uma discussão que não deveria se resumir ao episódio nem a uma eventual punição ao atleta, mas sim se estender a medidas afirmativas que asseverem um compromisso verdadeiro pela igualdade.

Algumas torcidas, conscientes de que gritos homofóbicos não podem mais ser tratados como brincadeira, já entenderam que é possível zombar de rivais sem ser preconceituoso. Esse processo civilizatório passa, essencialmente, pela sensibilização de instituições, dirigentes e jogadores. Para que, daqui a muitos anos, a convivência pacífica com a discriminação de gênero desperte o mesmo constrangimento nas futuras gerações que a segregação racial causa hoje em dia nos cidadãos instruídos para não repetir os erros do passado. Para que, décadas adiante, o manifesto do Fluminense contra a homofobia seja lembrado com a mesma importância da Resposta História vascaína no enfrentamento ao preconceito pela via do esporte.

Um domingo de caos no Maracanã

Cercada pela briga de bastidores entre Vasco e Fluminense, que não abriam mão de que seus torcedores ocupassem o setor sul do Maracanã, a final da Taça Guanabara começou sem a presença de nenhuma das torcidas. Na véspera da partida, a Justiça do Rio de Janeiro determinou que o duelo fosse realizado com portões fechados por causa do imbróglio envolvendo as duas diretorias. No entanto, o Vasco, mandante do jogo, decidiu ignorar a determinação judicial e convocou seus torcedores para o estádio, comprometendo-se a pagar a multa estabelecida em 500.000 reais por descumprimento. Sem autorização para abrir os portões, a polícia barrou a entrada dos torcedores e, após o apito inicial, uma grande confusão se formou no entorno do Maracanã.

Policiais dispararam bombas de efeito moral na tentativa de dispersar a aglomeração. Mais de 30 pessoas ficaram feridas em meio ao corre-corre e à repressão da PM. A imagem de uma mulher carregando sua filha foi um dos símbolos do caos. Quando muitos torcedores com ingresso já retornavam para casa, a Justiça resolveu permitir a abertura dos portões. No gramado, o relógio do árbitro marcava meia-hora de jogo. Os 29.000 espectadores que conseguiram resistir à sequência de atentados ao Estatuto do Torcedor viram o Vasco vencer por 1 a 0 e conquistar o título do primeiro turno do Estadual, numa tarde em que o futebol carioca perdeu para a insensatez de seus dirigentes e a inanição das autoridades.

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