Racismo no futebol

Vasco da Gama, o clube que abriu as portas do futebol para os negros

Embora não tenha sido o primeiro a contar com jogadores negros, time se tornou símbolo de luta contra o racismo depois da 'Resposta Histórica' redigida há 95 anos

Camisas Negras: o time do Vasco campeão carioca em 1923.
Camisas Negras: o time do Vasco campeão carioca em 1923.

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“Para nós, de fato, esse documento é como um troféu”, afirma João Ernesto Ferreira, vice-presidente de relações especializadas do Vasco, ao justificar a exibição de uma réplica da carta na nobre galeria de taças. Consolidado no remo, o clube só começou a se destacar pelos gramados no início da década de 1920. Sem a mesma tradição dos times da zona Sul do Rio na modalidade, a estratégia era montar elencos com jogadores das classes sociais menos favorecidas. A equipe campeã da segunda divisão em 1922 tinha como craques operários, choferes, pintores e faxineiros. Assim, assegurou o direito de disputar, no ano seguinte, a primeira divisão ao lado dos já consagrados América, Botafogo, Flamengo e Fluminense.

Com a base de trabalhadores braçais mantida no plantel, o Vasco desbancou favoritos, arrebatou 11 vitórias em 14 jogos e faturou o título do campeonato organizado pela Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMDT). Incomodados pela ascensão meteórica dos vascaínos, rivais decidiram criar uma nova liga, a Associação Metropolitana de Esportes Athleticos (AMEA), impondo ao clube apelidado de Camisas Negras, pela cor de seu uniforme, a exigência de excluir 12 jogadores que, de acordo com os cartolas, não apresentavam “condições sociais apropriadas para o convívio esportivo”. O analfabetismo foi uma das razões enumeradas pela liga para desqualificar parte do elenco campeão.

Por unanimidade, a diretoria cruzmaltina desistiu de integrar a AMEA e, então, endereçou a carta à liga esclarecendo por que rechaçava a ordem para abrir mão de jogadores negros e pobres. “O ato público que pode maculá-los nunca será praticado com a solidariedade dos que dirigem a casa que os acolheu, nem sob o pavilhão que eles, com tanta galhardia, cobriram de glórias”, detalha o quinto parágrafo da Resposta Histórica. Enquanto os grandes clubes institucionalizavam o elitismo do futebol com a criação de um torneio paralelo, o Vasco via sua popularidade aumentar, sobretudo entre as camadas suburbanas da sociedade carioca, lotava estádios a cada jogo e, em 1924, voltou a sagrar-se campeão, dessa vez de forma invicta, do campeonato regido pela LMDT.

Diante do sucesso de público, renda e repercussão dos Camisas Negras, a AMEA resolveu admitir o Vasco em 1925. Até então, a liga alimentava a expectativa de ver o Cruzmaltino “constituir equipes genuinamente portuguesas” – em referência à colônia fundadora do clube –, “para uma demonstração esportiva das verdadeiras qualidades dessa raça secular”, conforme ofício assinado pelo presidente da AMEA em tréplica à Resposta Histórica. Para o historiador Ricardo Pinto dos Santos, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o aspecto econômico influenciou decisivamente tanto a defesa vascaína em nome dos atletas quanto a mudança de ideia dos cartolas sobre a exclusão do clube. “O Vasco percebeu que não poderia sobreviver sem o talento de seus jogadores da classe trabalhadora, assim como a AMEA, mais adiante, entendeu que a incorporação daquele time que arrastava multidões aos estádios seria lucrativa. Houve retorno financeiro para os dois lados com a aceitação de atletas negros.”

Pinto dos Santos, que trabalhou por seis anos no Vasco e ajudou a fundar o Centro de Memória em São Januário, argumenta que os dirigentes da época foram hábeis ao capitalizar a ampla divulgação da carta. Embora não tenha sido o primeiro a contar com jogadores negros no Brasil, o clube ganhou fama de pioneirismo pela maneira como afrontou a discriminação da AMEA. Antes, em 1905, o Bangu, time fabril do subúrbio carioca, já havia integrado o jovem Francisco Carregal, de 16 anos, à sua equipe. No fim daquela década, o clube se afastaria da LMDT por causa da restrição explícita a “pessoas de cor” entre os participantes da liga. A diferença para o Vasco, porém, é que o time alvirrubro só foi chamar a atenção por seus bons resultados em 1933, quando conquistou o Campeonato Carioca. “O primeiro campeão a ter negros no time foi o Vasco”, afirma João Ernesto Ferreira. “A classe social ou etnia dos jogadores não importava para o clube.”

O Vasco também foi o primeiro clube esportivo brasileiro a ter um presidente negro, Cândido José de Araújo, que ficou no cargo entre 1904 e 1906. No entanto, depois de Araújo, as esferas de poder vascaínas são marcadas pelo predomínio dos brancos. Atualmente, entre membros da diretoria e da cúpula de conselheiros, apenas dois negros ocupam posições estratégicas em São Januário: Edmílson Valentim, presidente do Conselho Fiscal, e o vice-presidente Elói Ferreira, ex-secretário especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República. A baixa representatividade de negros e pobres no comando é reforçada por barreiras como a cobrança de taxa de admissão a novos sócios, exigência de tempo mínimo de 10 anos no quadro associativo para candidatos a presidente e a manutenção de eleições indiretas.

Torcida do Vasco relembra as origens do clube em São Januário.
Torcida do Vasco relembra as origens do clube em São Januário.

Não há uma política permanente pela promoção da igualdade racial nem mesmo cotas para negros no plano executivo do clube. As ações se resumem a campanhas de marketing, como o lançamento de um uniforme retro inspirado nos Camisas Negras, ou parcerias esporádicas com instituições de combate ao racismo, a exemplo de um evento realizado em São Januário para divulgar o relatório anual do Observatório da Discriminação Racial. Em seu site oficial, o clube não hesita em cravar que “o Vasco impediu o racismo no futebol”, em alusão à Resposta Histórica, mas os episódios de injúrias raciais continuam sendo parte da realidade no esporte, inclusive em seus próprios domínios. Cristóvão Borges, último técnico negro da equipe, chegou a ouvir ofensas discriminatórias no estádio do Gigante da Colina ao fim de sua primeira passagem como treinador. Em 2018, o zagueiro Paulão foi alvo de insultos racistas de torcedores vascaínos nas redes sociais. Já nos bastidores, Elói Ferreira acusou o presidente Alexandre Campello de racismo após o mandatário trocar a fechadura de sua sala sem lhe comunicar. Campello considerou a acusação um ataque político com o intuito de difamá-lo e “desgastar a imagem do clube”.

“O Vasco não pode viver apenas de celebrar o passado”, diz Ricardo Pinto dos Santos. “Para manter a representação de clube comprometido com a luta contra o racismo, é preciso se engajar no presente. O futebol, como um todo, ainda reproduz as estruturas racistas da sociedade. Isso demanda um posicionamento mais enfático, um enfrentamento contínuo ao preconceito.” Há 95 anos, a Resposta Histórica contribuiu para ampliar o alcance de um esporte elitizado a negros e pobres e foi um marco para a era do profissionalismo no futebol. Até hoje, a torcida vascaína reverencia a carta com os versos de um cântico aclamado nas arquibancadas: “Eu já lutei por negros e operários... Camisas Negras que guardo na memória”. Mas o enfrentamento ao racismo ainda é uma página incompleta na história do clube que deve boa parte de suas glórias ao heroísmo dos ídolos negros.