Seleccione Edição
Login

No futebol, a face mais explícita do racismo que “faz parte do jogo”

Número de ofensas racistas relacionadas ao futebol aumenta no Brasil enquanto CBF evita punições a clubes e agressores

O último clássico baiano, que voltou a acontecer na primeira divisão do Campeonato Brasileiro este ano, foi marcado pelo choro do volante Renê Júnior na saída do gramado. “Ele me chamou de macaco, ele me chamou de macaco”, gritava o jogador do Bahia em direção ao atacante Santiago Tréllez, do Vitória. A desavença em campo, que descambou para acusação de ofensa racial, no fim de outubro, levou Tréllez a ser denunciado pela Procuradoria do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) por ato discriminatório. O colombiano acabou absolvido depois de argumentar que, por uma questão familiar, não poderia ser racista. “Meu pai é negro e rastafári”, disse ao se desculpar pelas ofensas que trocou com Renê Júnior no fim do clássico, negando, porém, ter proferido o xingamento preconceituoso. “Queria que eu e todos os meus filhos fôssemos julgados pela personalidade, e não pela cor da pele. É inadmissível que uma coisa dessas ainda aconteça”, afirma o volante do Bahia.

Racismo futebol rene junior
Renê Júnior se emociona após denunciar injúria racial no clássico baiano. Divulgação

Assim como ele, outros jogadores já denunciaram injúrias raciais sofridas no exercício da profissão. Assim como o dele, outros casos de racismo terminaram sem punição ou investigação mais profunda da Justiça Desportiva, inclusive no próprio clássico entre os gigantes baianos. Em abril, a vítima foi o zagueiro Kanu, do Vitória. O também zagueiro Lucas Fonseca, do Bahia, foi flagrado pelas câmeras da Fonte Nova dizendo que o rival fedia e tinha bafo. Na época, Kanu afirmou que processaria Fonseca, que é branco, por ato discriminatório, mas desistiu da ação. O jogador do Bahia não chegou a ser denunciado pelo STJD. Em julho, Élton, do Ceará, acusou o zagueiro Victor Cuesta, do Internacional, de tê-lo chamado de “macaco” por duas vezes durante o duelo entre as equipes pela Série B. O atacante do clube cearense prestou queixa na polícia contra o jogador colorado, que, ao contrário de Tréllez, não foi a julgamento no STJD. O boletim de ocorrência também não foi suficiente para fazer com que o zagueiro argentino acusado por Élton fosse indiciado pela Justiça comum.

“Atletas estão criando coragem para denunciar. Isso já é um avanço”, diz o pesquisador Marcelo Carvalho, diretor do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, que elabora um levantamento anual de ocorrências de racismo relacionadas ao esporte mais popular do país. De acordo com dados do Observatório, o futebol brasileiro já registrou 36 casos de racismo ou injúria racial contra árbitros, técnicos, torcedores e, sobretudo, jogadores em 2017, 11 a mais do que em todo ano passado. Como a temporada ainda não foi encerrada, o número pode ser ainda maior. Além de ofensas entre rivais em campo, tem aumentado também a incidência de casos de racismo explícito, como xingamentos a atletas em redes sociais e nas arquibancadas. “O ambiente do futebol reflete a sociedade. Pelo momento político do país, que tem observado o crescimento de discursos de ódio e da extrema direita, o racismo está mais escancarado”, afirma Carvalho.

Vinicius Junior, jovem promessa do Flamengo, passou pelo trauma de ter familiares, que estavam em um camarote do estádio Nilton Santos, ofendidos com gestos e insultos racistas durante o clássico com o Botafogo pela Copa do Brasil, em agosto. O torcedor botafoguense, que não teve o nome divulgado, foi preso no estádio. Liberado na mesma noite, ele foi proibido de acompanhar jogos do Botafogo por seis meses, tem de se apresentar ao fórum do Rio de Janeiro uma vez por mês e não pode mudar de endereço sem comunicar ao Juizado Especial do Torcedor. Mesma pena aplicada a Wagner Marinho Tavares, torcedor do Flamengo que ofendeu um segurança negro no Maracanã. “Vai trabalhar vendendo banana, filho de preto” foi a frase ouvida não só pelo segurança, como também por outros torcedores e um policial militar que presenciaram a cena. Tanto Botafogo quanto Flamengo não foram convocados ao tribunal para responder pela conduta dos agressores.

Torcedor do Botafogo ofende familiares de Vinicius Jr. no Engenhão.

“Ainda permanece a ideia de que, no futebol, vale tudo. E de que a hostilidade preconceituosa ‘faz parte do jogo’, encarando o racismo como algo aceitável”, analisa Marcel Diego Tonini, historiador e cientista social da Universidade de São Paulo. Um dos raros e mais emblemáticos casos de punição por ofensa racial no futebol aconteceu em 2006, quando o zagueiro Antonio Carlos, então no Juventude, pegou 120 dias de suspensão por esfregar a mão no próprio braço para depreciar o rival Jeuvânio, negro. O jogador com passagem pela seleção brasileira diz se arrepender do gesto, mas se justificou argumentando que insultos racistas são comuns na “cultura do futebol” e que “o que acontece no campo, morre no campo”. Já o episódio mais notório de punição a clubes por atos discriminatórios de torcedores envolveu o Grêmio e o goleiro Aranha no confronto com o Santos, em 2014. O arqueiro santista foi chamado de “macaco” por torcedores do clube gaúcho, que acabou punido com a perda de três pontos pelo STJD e, consequentemente, acabou desclassificado da Copa do Brasil. Trata-se do único caso de eliminação de time brasileiro devido a ofensas racistas de seus torcedores.

Em julho deste ano, agora como jogador da Ponte Preta, Aranha voltou à Arena do Grêmio e foi hostilizado pela torcida local. A diretoria gremista enxergou as vaias sofridas pelo goleiro como um justo revide pelo que entendem como uma “injustiça” contra o clube, além de qualificá-lo como “pessoa perigosa e difícil”. “Já cansei de ouvir que eu me aproveito da situação para me promover, que estou me vitimizando. Mesmo depois de sofrer os xingamentos que sofri, eu ainda sou visto como o vilão da história”, conta Aranha. Diretor do Observatório da Discriminação Racial, Marcelo Carvalho usa um exemplo recente para contextualizar o caso do goleiro. “Várias pessoas saíram em defesa do William Waack depois que um vídeo dele dizendo ‘é coisa de preto’ vazou. A maioria delas nem o conhecem. Isso não acontece com o atleta negro que é discriminado e resolve denunciar. Geralmente a vítima de uma injúria racial no futebol acaba sofrendo um linchamento, é vista como culpada. O caso do Aranha ilustra bem esse processo.”

Desde 2014, ano em que o ex-volante Tinga ouviu grunhidos imitando o som de macaco como provocação de torcedores no Peru, em um jogo da Copa Libertadores, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) adotou a campanha “Somos todos iguais”, que exibe faixas e mensagens contra o racismo nos estádios. No entanto, segundo adverte Carvalho, a campanha educativa é insuficiente para enfrentar a discriminação cada vez menos velada que avança sobre o futebol, principalmente pela falta de investigação e punição por parte da CBF dos casos denunciados. Ele compara o cenário de impunidade no Brasil com a força-tarefa promovida pela FIFA em combate aos cânticos homofóbicos nas arquibancadas, que já renderam cinco sanções com multa à seleção brasileira. “Nunca vi nenhum dirigente da CBF condenar duramente um ato de racismo no futebol”, afirma Carvalho. “A confederação sempre se esquiva para proteger clubes filiados, que raramente são punidos por ofensas racistas de seus torcedores ou jogadores. Isso só contribui para desencorajar as vítimas a denunciarem.”

NA MARCA PENAL

No próximo dia 22 de novembro, em Brasília, o Observatório da Discriminação Racial no Futebol promove o evento de lançamento do relatório com casos de discriminação e preconceito no esporte em 2016, em parceria com a Secretaria Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR). Desde 2014, um projeto de lei que pretende tipificar o crime de injúria racial em estádios e praças esportivas tramita na Câmara dos Deputados. A proposta recebeu parecer favorável da Comissão de Esporte em agosto, mais ainda aguarda análise da Comissão de Justiça e Cidadania antes de ir à votação em plenário. Em outubro, o governo do Rio de Janeiro sancionou uma lei estadual que prevê multa de até 155.000 reais para clubes que não tomarem providências, como a identificação de agressores, diante de atos racistas nos estádios. Em 2006, seguindo orientação da FIFA, competições nacionais passaram a adotar em seus regulamentos cláusulas que punem clubes envolvidos em episódios de racismo com perda de pontos. De lá para cá, entretanto, apenas o Grêmio e Esportivo, também do Rio Grande do Sul – que foi punido após torcedores colocarem bananas sobre o carro do árbitro Márcio Chagas –, tiveram pontos subtraídos pela aplicação da norma.

MAIS INFORMAÇÕES