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COLUNA

O Brasil hipócrita: a questão do racismo

Aqui, o racista é sempre o outro. Pesquisas apontam que 97% dos entrevistados afirmam não ter qualquer preconceito de cor

Que o Brasil é um país racista não necessitamos de muito esforço para comprová-lo: basta olharmos à nossa volta para constatar a ausência quase completa de negros inseridos no âmbito da classe média. Embora representem, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), metade do total da população, dificilmente nos deparamos com médicos, engenheiros, professores, advogados, jornalistas, escritores, oficiais militares ou políticos negros. A renda média mensal dos negros, mesmo registrando um significativo crescimento ao longo das últimas décadas, ainda equivale a apenas 57,4% da dos brancos.

Mas, antes de tudo, os brasileiros somos hipócritas. Aqui, o racista é sempre o outro. Pesquisas apontam que 97% dos entrevistados afirmam não ter qualquer preconceito de cor, ao mesmo tempo em que admitem conhecer, na mesma proporção, alguém próximo (parente, namorado, amigo, colega de trabalho) que demonstra atitudes discriminatórias. É o chamado “racismo à brasileira” – fruto dileto da cínica e equívoca “democracia racial”, conceito que vem justificando, ao longo da história, a manutenção de um dissimulado apartheid, que segrega a população não-branca à base da pirâmide social.

O desdobramento do caso da torcedora do Grêmio, Patrícia Moreira, flagrada gritando ofensas contra o goleiro do Santos, Aranha, torna-se bastante sintomático da maneira como lidamos com a questão do racismo. Aranha registrou queixa na delegacia de polícia e o time gaúcho foi excluído da Copa do Brasil. Em entrevista coletiva, Patrícia pediu desculpas a Aranha e afirmou que não é racista: “Aquela palavra macaco não foi racismo da minha parte. Foi no calor do jogo, o Grêmio estava perdendo”. Outro torcedor, Rodrigo Rychter, que negou ter injuriado Aranha, contra-atacou dizendo que os torcedores somente reagiram às provocações do goleiro.

Tanto um quanto outro argumento esbarram em um empecilho de difícil transposição. Chamar alguém de macaco pelo fato de ser negro é racismo, e portanto não interessa em que contexto a agressão é proferida, se num estádio de futebol, num escritório de contabilidade ou num posto de gasolina. Assim como reagir a uma provocação usando termos ofensivos à cor da pele não se justifica, nem no campo desportivo nem numa discussão de trânsito. O preconceito racial molda o imaginário brasileiro e é crime que não permite atenuantes.

Lá mesmo em Porto Alegre, uma semana antes das ofensas contra o goleiro Aranha, o escritor Jeferson Tenório aguardava uma carona, na calçada do edifício onde mora, no centro da cidade, para ir trabalhar. De repente, surgiu um carro da Brigada Militar e dele desceu um policial exigindo-lhe os documentos. Em contato por rádio com a central, relatou: “O suspeito é negro, natural do Rio de Janeiro, estatura mediana, casaco preto”. Ao ser informado que o “suspeito” estava “limpo”, o policial desculpou-se, dizendo que apenas cumpria seu trabalho: alguém do prédio em frente havia solicitado a abordagem. Jeferson foi considerado perigoso pelo vizinho por ser negro! Em seus 37 anos de existência, esta foi a 12ª vez que ele sofreu uma abordagem policial, duas delas com uma arma apontada para seu peito...

Não custa lembrar que o Brasil possui uma dívida irresgatável para com a população negra. Trazidos à força para trabalhar como escravos a partir da metade do século XVI, o aprisionamento de africanos da costa ocidental (Angola, Nigéria, Benin) e de Moçambique intensificou-se entre 1700 e 1822, mas não há um número preciso de quantos deles chegaram vivos – estimado, entretanto, em algo em torno de quatro milhões. Libertos em 1888, não por razões humanitárias, mas por motivações meramente econômicas (a mão de obra assalariada possuía um custo de manutenção mais baixo que a escrava), sem qualquer tipo de indenização ou tentativa de inclusão social, os negros foram abandonados à própria sorte. O resultado: 450 anos depois de começar a desembarcar nos portos brasileiros, a população negra permanece apartada das conquistas sociais.

Dados do censo de 2010 mostram que dos 16 milhões de brasileiros vivendo na extrema pobreza (renda de até 70 reais mensais), 11,5 milhões são pardos ou pretos, ou seja, 72% do total. Além disso, enquanto o analfabetismo entre os negros alcança 13,3%, entre os brancos reduz-se a 5,3%; a expectativa de vida para os brancos eleva-se a 73 anos, seis a mais que entre os negros; dos brasileiros brancos, 15% possuem nível universitário, enquanto, entre os negros, esse número se reduz a apenas 4,7%; a possibilidade de ser assassinado é mais que dobro entre os negros, 64%, que entre os brancos, 29% do total de homicídios.

No começo dos anos 1990, morava num edifício cujo espaço para estacionamento era tão pequeno, que convencionou-se que os residentes, assim que chegavam, entregavam a chave para o zelador que, com paciência, organizava os carros nas vagas. Certa feita, um novo morador desembarcou e, vendo um negro de pé ao lado da guarita, sem titubear, entregou-lhe a chave do veículo. O rapaz, espantado, perguntou: O que o senhor está fazendo? E o homem, sem pestanejar, respondeu: É pra você colocar na garagem! O rapaz disse, então, irônico: Senhor, não sou empregado do condomínio. Sou seu vizinho do apartamento 304. Muito prazer!

Emblemático, o caso de racismo contra o goleiro Aranha serve para iluminar a ocorrência de um problema que, conquanto banal em cada rincão brasileiro, permanece, infelizmente, longe do palco dos debates nacionais. Aranha disse que desculpava a torcedora Patrícia Moreira, mas não retirava a queixa policial contra ela – o que pode vir a configurar crime de injúria racial. O escritor Jeferson Tenório, cujo romance de estreia, O beijo na parede, foi premiado como Livro do Ano de 2014 pela Associação Gaúcha de Escritores, aprendeu a se defender após inúmeras abordagens. Aranha, Jeferson, meu vizinho o engenheiro José Antonio Correia, esses têm nome e têm rosto – eles podem interceder pelos milhões de anônimos que todos os dias sofrem ataques os mais diversos, sob as mais diferentes justificativas, pelo simples fato de a cor de sua pele ser negra. E nós, o que temos feito para modificar essa situação?