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Do “AeroFla” ao “AeroPorco”: torcedores migram do estádio para o aeroporto

Onda de mobilizações fora das arquibancadas contrapõe elitização do futebol e censura a torcidas

Aerofla
“AeroFla”: torcida lota os arredores do Santos Dumont. C.R. Flamengo

“Onde estiver, estarei. Oh, meu Mengo!”

Cânticos a plenos pulmões, bandeiras tremulando, batuque dos tambores, papel picado, foguetório e sinalizadores. A ambientação remete aos grandes estádios de futebol, mas a festa acontece bem longe deles. Os aeroportos se transformaram no palco predileto de torcedores que não têm dinheiro para acompanhar seus times da arquibancada e ou tendem a preferir o clima de carnaval à bola rolando. Recentemente, torcidas de norte a sul – sobretudo a do Flamengo, clube mais popular do Brasil –, têm promovido recorrentes “invasões” de espaços públicos no rastro dos ídolos.

Não é de hoje que os rubro-negros protagonizam recepções grandiosas em aeroportos, como na chegada do folclórico Dadá Maravilha ao Santos Dumont, em 1973. Tal qual os corintianos, que entupiram o terminal internacional de Cumbica em 2012 para se despedir do time rumo à disputa do Mundial de Clubes. Mas as recentes manifestações de apoio dos torcedores ganharam corpo não somente em ocasiões especiais. Na última segunda-feira, por exemplo, milhares de torcedores do Flamengo foram ao Santos Dumont apoiar a delegação antes do embarque para Curitiba, onde a equipe enfrentou o Atlético-PR pela quarta rodada da fase de grupos da Libertadores – no desembarque na capital paranaense, cerca de 200 flamenguistas esperavam pelos jogadores no aeroporto Afonso Pena.

No ano passado, a torcida rubro-negra já havia produzido cenas semelhantes na recepção ao meia Diego e às vésperas do duelo contra o Palmeiras pelo segundo turno do Campeonato Brasileiro. A prática, que já se tornou um ritual, atrai torcedores excluídos do espetáculo nos estádios. Os ingressos mais baratos para as partidas do Flamengo na Libertadores custam 120 reais. Planos de sócio-torcedor que oferecem descontos na compra das entradas variam de 30 a 200 reais por mês. “Ganho salário mínimo e não tenho condições de comparecer aos jogos. Sai muito caro. O jeito é ir pro aeroporto mesmo”, diz Márcio Rodrigues, de 29 anos, que nunca andou de avião, mas esteve em todos os “AeroFlas”, como a torcida batizou as mobilizações, desde o ano passado.

Torcida do Flamengo no aeroporto Santos Dumont. ampliar foto
Torcida do Flamengo no aeroporto Santos Dumont.

Para Mauricio Murad, professor e doutor em sociologia do esporte, que estuda o comportamento de torcidas há mais de duas décadas, o encarecimento dos ingressos – sobretudo após a construção das arenas para a Copa do Mundo –, somado aos inúmeros vetos impostos por dirigentes e autoridades, que vão desde bandeiras a instrumentos musicais e sinalizadores, estão diretamente relacionados à migração de torcedores para os aeroportos. “O torcedor tem necessidade do contato direto com seus ídolos. Enquanto o acesso aos estádios ficou mais elitizado, o aeroporto ainda permite essa proximidade com o time de forma democrática. Sem contar que hoje em dia há muitas restrições no estádio, onde tudo é controlado e proibido. Nesse sentido, os eventos nos aeroportos recuperam a essência, o espírito de carnaval que define o futebol como uma festa do povo.”

Luís Fabiano foi recebido com festa no hangar do aeroporto Santos Dumont.
Luís Fabiano foi recebido com festa no hangar do aeroporto Santos Dumont. C.R. Vasco da Gama

Também costumam marcar presença nos aeroportos as organizadas banidas dos estádios por atos de violência, como a Torcida Jovem do Flamengo, que foi punida no início do mês após ter cinco integrantes presos pelo assassinato de um torcedor do Botafogo, e a Força Jovem, do Vasco, que compareceu em peso no “AeroFabuloso”, como ficou conhecida a calorosa recepção ao atacante Luís Fabiano no Santos Dumont, em fevereiro. Na ocasião, a polícia registrou o único incidente em mobilizações do tipo no aeroporto, quando alguns vascaínos tentaram invadir uma loja oficial do Flamengo. Funcionários agiram rápido e conseguiram fechar as portas antes da entrada dos torcedores. O estabelecimento qualificou o ocorrido como atitude isolada de “uma pequena minoria, que não representa a imensa torcida vascaína”.

Aglomeração com organização

Nesta quinta-feira, centenas de torcedores do Palmeiras reeditaram o “AeroPorco” ao receberem a equipe no aeroporto de Guarulhos após a vitória sobre o Peñarol, no Uruguai. Em novembro do ano passado, aproximadamente 2.000 torcedores do Palmeiras já haviam tomado o aeroporto de Congonhas, em São Paulo, antes da partida contra o Atlético-MG pelo Campeonato Brasileiro. Assim como o Santos Dumont, no Rio, o terminal paulistano é administrado pela Infraero. A estatal, responsável pela gestão de 59 aeroportos no país, atua em parceria com os clubes para organizar a movimentação de torcedores. Com dados de monitoramento das redes sociais, a empresa identifica jogos e chegadas de reforços que possam instigar mobilizações, estabelece contato com a diretoria do clube em questão e aciona a área operacional dos terminais para direcionar o fluxo da torcida.

A Infraero conta com um plano de contingência para evitar que as aglomerações resultem em atraso de voos ou tumultos. Além de encaminhar os torcedores para as áreas mais vazias dos aeroportos, prestando informações em tempo real através de suas redes sociais, a empresa também mobiliza equipes de segurança para acompanhar a movimentação. Por meio da assessoria de imprensa, a Infraero informa que “não promove essas manifestações em seus aeroportos”, mas “em respeito ao sentimento de aproximação entre torcida e clube e ciente de seu papel no processo de integração nacional, seja entre localidades, seja entre pessoas, busca garantir a fluidez e a segurança dos encontros”. De acordo com a estatal, não há registros de atrasos ou episódios violentos em operações recentes.

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