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OPINIÁO i

O brasileiro insensato que rebate racismo com xenofobia

Jogador Serginho foi vítima de ofensas racistas e abandonou o campo na Bolívia. Por aqui, alguns torcedores preferem ofender o país vizinho a refletir sobre seus próprios preconceitos

Serginho racismo Bolivia futebol
Serginho sofreu insultos racistas de torcedores na Bolívia. AFP

Aos 40 minutos do segundo tempo, o meia Serginho, do Jorge Wilstermann, decidiu abandonar o gramado depois de passar toda a partida, válida pelo Campeonato Boliviano e disputada no último domingo, sendo xingado de “macaco” pela torcida do Blooming. Ele havia solicitado ao árbitro que tomasse providências, mas, apesar dos pedidos de atletas adversários, os insultos vindos das arquibancadas não cessaram. Porém, alguns brasileiros, na tentativa de demonstrar solidariedade a um compatriota ofendido no exterior, repetem um comportamento tão reprovável quanto o racismo.

Sempre que um jogador brasileiro ouve ofensas discriminatórias fora do país, as redes sociais são entupidas com xingamentos que generalizam e estigmatizam outros povos, como se um extrato de torcedores preconceituosos os representassem. A típica insensatez do cidadão supostamente bem intencionado que rebate racismo com xenofobia. Foi assim quando hostilizaram Tinga no Peru ou Neymar e Daniel Alves, na Espanha. Dessa vez, as agressões direcionadas à Bolívia – que não merecem ganhar nenhuma visibilidade além da timeline de quem as propaga – se concentram sobre as origens indígenas de boa parte de sua população.

Ninguém precisa atacar de volta nem recorrer a retóricas xenofóbicas para condenar a atitude de parte da torcida do Blooming. Prontamente, o presidente boliviano Evo Morales se pronunciou em defesa de Serginho, afirmando que “o futebol é um esporte que une os povos, não devemos permitir que seja manchado com esses atos discriminatórios”. Postura compartilhada pelo treinador do Jorge Wilstermann, o espanhol Miguel Ángel Portugal, que manifestou seu apoio ao jogador e cobrou punição aos torcedores racistas.

Refletir sobre o racismo que nos cerca, um mal enraizado em vários cantos do mundo, é bem mais produtivo que qualquer tipo de revanchismo aos bolivianos. As indignações despertadas pelo caso Serginho deveriam servir para abrir a mente de brasileiros que fecham os olhos diante dos próprios preconceitos. O velho mal da hipocrisia que faz muitos pensarem que, no Brasil, impera o “racismo velado”, ainda seja patente e notória a escassez de negros em posições de comando, esferas de poder, alto escalão de empresas e, mesmo atenuada pela política de cotas, nas universidades.

O racismo à brasileira é flagrante, reproduzido por instituições de todas as vertentes. E o futebol nos revela essa faceta desde os tempos em que negros eram vetados pelos clubes. Cânticos racistas são rotineiros em nossos estádios, como mostra os relatórios anuais do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, mas, até hoje, apenas dois clubes (Grêmio e Esportivo) receberam punições severas por insultos protagonizados por suas torcidas. De tão frequentes, os episódios de racismo em território nacional acabam rapidamente esquecidos. Esta, aliás, é uma sociedade que premia os racistas. Personalidades que discriminam pedem “desculpa a quem se sentiu ofendido”, tocam o barco como se nada tivesse acontecido e, não raro, recebem promoções no emprego, assinam contratos milionários com algum concorrente, descolam novos patrocinadores, aparecem no Big Brother ou até se elegem para cargos públicos.

Provavelmente, os que agora ofendem bolivianos para posar de patriotas são os mesmos que toleram piadas preconceituosas e relativizam gestos discriminatórios em seu dia a dia como se alguém fosse considerado racista somente ao chamar uma pessoa negra de “macaco”. Esse tipo de conduta, que não se restringe a redes sociais e estádios de futebol, envergonha tanto quanto o ato de torcedores do Blooming e a conivência de um comentarista da Tigo Sports. Na transmissão da partida, ele usou um argumento sórdido para recriminar a reação de Serginho: “São jogadores. Quando escolhem uma profissão, sabem onde estão se metendo”. Algo que também não é exclusividade da imprensa esportiva nos países vizinhos. Por aqui, até ex-jogadores, sem o mínimo de empatia, esbanjaram racismo e xenofobia ao criticar atletas em programas de TV.

Abandonar o campo de jogo é uma resposta contundente à intolerância das arquibancadas. Os ganeses Prince Boateng e Sulley Muntari já haviam protestado dessa forma na Itália. Em solidariedade, colegas e rivais de Serginho poderiam ter feito o mesmo. É necessário pressionar clubes e federações por providências mais rigorosas contra agressores que cruzam a fronteira das rivalidades. Ofensas racistas não devem ser admitidas em nenhuma profissão, sobretudo no ambiente por vezes tão irracional do futebol – a ponto de fazer com que o ser humano se julgue capaz de combater um preconceito com outro igualmente repugnante.

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