BBB 20Análise
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Depois de ‘Amor de Mãe’ contra o machismo, torça pelos machistas do BBB

TV Globo abraça discursos contraditórios e surfa na audiência do Brasil polarizado. Polícia Civil do Rio intima participante do ‘reality’ por denúncia de assédio

O horário nobre da emissora com maior audiência no Brasil —a TV Globo— está recheado de narrativas sobre o machismo. Começa com a exibição de uma novela cujo enredo está centrado na maternidade e na busca de uma mãe por um filho vendido pelo próprio marido. Amor de Mãe aborda questões de gênero em vários núcleos e parece estar sempre buscando exaltar o protagonismo feminino. Logo depois da novela, a programação segue com um reality show que historicamente levanta casos de machismo. Nas duas primeiras semanas do Big Brother Brasil 20, houve de denúncias de assédio até comentários depreciativos sobre o corpo das mulheres. Na tarde desta segunda-feira, a Polícia Civil do Rio de Janeiro intimou o participante Petrix Barbosa por denúncia de assédio a colegas de confinamento. Nos últimos dias, o machismo ainda ganhou uma característica pouco usual nas edições anteriores do reality: virou estratégia escancarada de jogo de alguns brothers. Embora a novela e o BBB tenham naturezas diferentes, eles trazem à tona a imagem de um Brasil polarizado também nos debates de gênero e mostram como a TV Globo vem dialogando, e surfando na audiência gerada, com ambos os discursos.

Petrix Barbosa entrou no Big Brother a convite da produção. Em uma das primeiras festas, o premiado atleta de ginástica artística tocou os seios da colega de confinamento, Bianca Andrade, depois de tentar estalar suas costas para relaxá-la. O ato motivou muitas críticas nas redes sociais. No Twitter, usuários argumentavam que ela não havia consentido o toque e que nem poderia fazê-lo porque estava bêbada. A direção do programa então chamou a sister ao confessionário para perguntar se em algum momento ela se sentiu desconfortável. Bianca negou. Essa cena foi transmitida como uma tentativa de dar transparência a uma questão recorrente nas últimas edições, inclusive sem a distorção de voz característica dos momentos em que o diretor Boninho se comunica com os confinados. A voz da direção dizia que seguiria atenta, provavelmente uma resposta mais direcionada à exigência do público do que para tranquilizar a participante.

Mas dias depois Petrix seguiu com atitudes que são, no mínimo, bastante invasivas. Sem camisa e vestindo apenas uma calça, aproximou suas partes intímas da cabeça de outra colega, Flayslane, durante uma festa. Mais uma vez, o público das redes sociais não o perdoou. A resposta do programa, porém, veio com menos transparência que na primeira vez. Petrix foi convocado ao confessionário, mas a conversa com a produção nunca foi ao ar. O que se viu foi o atleta procurar as duas companheiras para perguntar, incrédulo, se havia passado do ponto alguma vez. Ambas responderam que sim.

Ao público, o apresentador Tiago Leifert apenas explicou o motivo da convocação, sem citar nem mesmo os muitos pedidos de expulsão feitos pelos usuários do Twitter, que mantiveram a hashtag #PetrixExpulso por horas nos trending topics. A demanda dos internautas tinha motivação dupla: as acusações de assédio e o ato visto por muitos como desleal, quando o ginasta atropelou um outro participante para vencer uma prova. Se a TV Globo pareceu titubear diante do comportamento, a resposta enérgica veio da Polícia Civil do Rio de Janeiro, que deu o prazo de até sexta-feira para que Petrix Barbosa deixe a casa e se explique. “Nenhum assédio será tolerado”, disse a delegada Juliana Emerique, da Delegacia Especial de Atendimento à Mulher de Jacarepaguá.

Esta não é a primeira vez que as autoridades policiais atuam por conta de assédio e machismo no programa. Um dos casos emblemáticos aconteceu há dois anos, diante das frequentes discussões (com direito a beliscões, apertões e terror psicológico) entre os participantes Marcos Harter e Emily Araújo. Na ocasião, a emissora foi criticada por ter demorado 24 horas para expulsar Marcos. A justificativa dada à época foi de que a produção esperava o resultado da perícia policial. Hoje, o público segue questionando a direção do programa pelas posturas nos casos de machismo.

O machismo como estratégia de jogo

Situações assim são comuns nas edições. Ao longo dos anos, a manifestação do machismo estrutural, que permeia a narrativa do programa de forma mais sutil, se fez presente. São muitos os homens que entram no programa achando que têm mais chances de vencer pelo simples fato de serem homens (como Gustavo, da edição do ano passado, que bateu no peito para defender uma suposta superioridade masculina). O que é inédito neste ano é o machismo ser usado escancaradamente como estratégia de jogo.

Foi esse o grande motivo de uma discussão que envolveu praticamente toda a casa durante a madrugada desta segunda-feira. Marcela, uma participante que tem dito reiteradas vezes que tentará proteger as mulheres no jogo, contou às demais companheiras do plano dos rapazes para seduzir as participantes comprometidas e assim queimá-las com o público. A estratégia machista foi verbalizada por Hadson, que a negou veementemente quando foi desmascarado. Na confusão, Felipe Prior explicou que Hadson havia dito aquilo à Marcela apenas para testar se ela contaria aos demais. Quando o programa exibiu o VT dessa conversa há alguns dias, o apresentador Tiago Leifert disse ao público que a estratégia não era verdadeira. Mas vídeos com conversas entre os participantes Lucas e Petrix mostram que ela não é assim tão descabida. Seja como for, o “teste” parte de um conceito extremamente machista.

Tudo isso é exibido todos os dias no horário nobre, logo após uma novela que tem se destacado por exaltar o protagonismo feminino. No universo criado por Manuela Dias, que já disse que sua novela se centra no elemento mais central e mais desvalorizado da sociedade, as mães, a advogada Vitória é menosprezada o tempo todo pelo seu chefe Álvaro, que reiteradas vezes critica sua “falta de disponibilidade exclusiva” para o trabalho depois que virou mãe. Tem também a cabelereira Érika descobrindo uma nova paixão ao trabalhar como empresária de seu irmão músico. Ela vive às voltas com as tentativas do namorado Raul em limitá-la, sempre reclamando que ela dá pouca atenção ao salão de beleza que ele lhe comprou. Além de Matias e Miranda, que separou do marido porque ele não foi capaz de lidar com sua reivindicação por direitos iguais, ao exigir um vale night após descobrir uma traição. Os elementos machistas estão todos no enredo, mas o que se sobressai na trama é como essas mulheres se posicionam sobre eles. Elas reivindicam direitos e se rebelam em discursos por autonomia que viralizam e agradam a ala progressista das redes.

Mas o compromisso da dramaturgia e do telejornalismo com a causa —o Jornal Nacional faz uma intensa e completa cobertura sobre feminicídios pelo país, por exemplo— não é suficiente para fazer o canal abrir mão dos velhos truques que mantêm de pé o BBB. O programa, um longevo sucesso se comparado a seus congêneres no mundo, é construído para ser um caldeirão proveniente de distintos lugares e pensamentos. Embora a produção escolha os perfis a cada edição, a premissa é de que eles estão relativamente em consonância com a sociedade e a realidade. Não por acaso, na sociedade cada vez mais viciada nas telas de mão, essa edição traz influencers já com milhares de seguidores. O BBB não tem mais o poder absoluto de lançar celebridades, ele precisa das estrelas do Instagram para ecoar as polêmicas, essa palavra infame usada para disfarçar apelação machista e, não raro, crime em frente às câmeras.