Análise
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No BBB, Babu ficou e furou a bolha das ‘fadas sensatas’, que também podem ser racistas

Participantes do reality show têm um duplo choque de realidade com aviso sobre coronavírus e paredão que atesta que o jogo virou

A modelo Ivy (esquerda) e a médica Marcela (direita), participantes do Big Brother Brasil 2020.
A modelo Ivy (esquerda) e a médica Marcela (direita), participantes do Big Brother Brasil 2020.Rede Globo

“Se o Babu não sair, vai ser um choque para nós. Eu não sei o que vai acontecer nessa casa, não”, disse a médica Marcela, uma das 20 participantes do Big Brother Brasil (BBB) um dia antes de conhecer o resultado do paredão que confrontou o ator Babu Santana, a influencer Rafa Kalimann e o hipnólogo e youtuber Pyong Lee, e que resultou na saída deste último, considerado o maior estrategista da edição. Pyong foi cancelado pelo público com 51,45% dos votos para surpresa do grupo que se autointitulou “comunidade hippie” e, em bloco, isolou de todas as formas Babu, um ator negro, espontâneo, fumante e fora de forma, antítese desse time de jogadores que também se antepôs a Prior, fiel amigo do ator de 40 anos, aparente peixe fora d'água na competição.

Babu experimentou a rejeição — e chorou por isso — em frente às câmeras. Foi votado em todos os paredões e enfrentou quatro deles. Ao sobreviver, com 47% dos votos, ao carisma de Pyong, mostrou aos seus adversários no programa que a estratégia do chamado bloco hegemônico da casa —Marcela, a modelo Ivy, o ator Daniel, Pyong e a advogada Gizelly—, já não funciona com os telespectadores. O jogo, que nas últimas semanas foi marcado inclusive por diversos comentários racistas direcionados ao ator que interpretou Tim Maia no cinema, virou.


Feminismo, sim. Racismo também

Na noite de segunda-feira, os brothers já tinham recebido um choque de realidade quando o apresentador Tiago Leifert rompeu parte do isolamento do programa ao contar ao vivo para os participantes, com a ajuda de um infectologista, que o mundo sofre uma pandemia de coronavírus. Não faltaram bocas abertas em susto e surpresa, queixos caídos e olhos marejados.

Mas a ansiedade dos participantes voltou, nesta terça-feira, com a chegada do paredão. Foram 385 milhões de votos, uma das votações mais altas do programa. Com o anúncio de que Pyong saía, foi difícil disfarçar a cara de decepção. A permanência de Babu abala a confiança de um grupo capitaneado por Marcela, auto-declarada feminista, que entrou na casa com o discurso de que tentaria proteger as mulheres no jogo, responsável por eliminar os “machos escrotos” da casa. Um bloco de cinco participantes, além de Prior, irritou o público e as mulheres de dentro da casa por sua postura machista agressiva. Tudo começou com comentários depreciativos sobre os corpos das mulheres, que culminaram em denúncias de assédio e machismo como estratégia de jogo.

Nas duas primeiras semanas do BBB, um dos participantes, Petrix Barbosa, chegou a ser intimado pela Polícia Civil do Rio de Janeiro por denúncia de assédio a colegas de confinamento. Foi a união das mulheres, fortalecidas pela entrada de Ivy e Daniel (inicialmente confinados na casa de vidro), que transmitiram a elas mensagens de apoio do público, que reverteu a situação e colocou o feminismo em pauta na edição. Formou-se, assim, o grupo das “fadas sensatas”, que falam de empoderamento e igualdade de gênero quase todos os dias. A busca pela palavra sororidade, por exemplo, aumentou em 250% no Google após ser usada pela cantora e atriz Manu Gavassi no reality show.

Mas fadas sensatas também podem ser racistas, e deixar a empatia de lado. A mesma Gavassi comentou, dias depois, que casais da “mesma cor” são “esteticamente agradáveis”, referindo-se a Marcela e seu namorado, Daniel. “Para mim, casal que a cor combina, a cor das pessoas mesmo, é muito forte. Esteticamente falando, vocês são extremamente agradáveis, parabéns”, disse ela. As redes sociais apontaram esse e outros momentos —alguns mais sutis, outros menos— de um racismo que está no ar, mas que ninguém dentro da casa tem coragem de nomear.

Babu Santana, ator com extenso currículo, premiado e, ainda assim, desempregado e endividado, já foi associado mais de uma vez à sensação de medo e à figura de “monstro” por algumas participantes. “A Marcela me olha que nem uma madame, do mesmo jeito que minha patroa me olhava. Eu tenho trauma desse olhar”, desabafou ele com Thelma, única outra pessoa negra da casa. Em conversa com Thelma, Marcela e Ivy disseram que têm medo de falar com Babu. “Medo do quê? Que ele vá bater em vocês?”, questionou ela, ao que Marcela justificou: “De que ele vá gritar". “Grita também“, disse Thelma.

De onde vem esse medo? Veio à tona o debate sobre o ranço escravocrata do olhar de corpos brancos sobre corpos negros. Histórica e culturalmente, os corpos dos homens negros são criminalizados, principalmente em um país como o Brasil. O comentário das participantes evocou a figura do “negro raivoso”, sobre a qual se construíram teses pseudocientíficas para sustentar o crime da escravidão.

Em outro momento, durante uma conversa com Ivy, Flayslane, Daniel e Mari, Marcela —então no lado VIP da casa, onde há fartura de comida— disse que consideraria trazer Babu, que estava há semanas na xepa, comendo pouco mais que macarrão instantâneo e rapadura, para o grupo. “Se a convivência não fosse tão difícil, eu tiraria ele da xepa por respeito, por ficar lá há tanto tempo. Traria ele para cá para arrumar a cozinha todo dia…", riu. O comentário rendeu a hashtag #BabuNãoéEscravo nas redes sociais.

No último domingo (15/03), o público pediu a expulsão de Ivy por mais um comentário sobre Babu. No quarto em que estava com Gizelly e Pyong, ela questionou ao ver o pente garfo que o ator usa para arrumar o cabelo crespo: “Quem que penteia o cabelo com um trem desse?”, perguntou aos risos. O Babu, gente. Só dá para fazer com esse o dele", respondeu Pyong. A mineira insistiu, perguntando por quê, e a conversa acabou entre risos de deboche.

Nas redes, parte do público questiona por que as brothers afirmam ser tão difícil a convivência com Babu, um pai de família de 40 anos, o mais velho da casa, que gosta de cozinhar e preza pela organização, quando passam pano para Daniel, de 22 anos, que perde estalecas (equivalente a dinheiro no BBB) constantemente por descumprir regras do programa, como não usar o microfone. Uma fã do reality postou no Twitter: “Essas moças falam de sororidade sem saber antes o que é solidariedade”. Referia-se ao eterno castigo de deixar Babu e seu fiel escudeiro Prior na xepa, comendo mal, por mais de um mês.

“Acho uma ironia do destino”, dizia Gavassi tentando assimilar a saída do amigo Pyong. “Nos uniu e foi embora”, completou. Junto com as outras amigas, duvidava que o público tivesse votado corretamente. Lembra as bolhas onde os brasileiros vivem, vendo realidades parciais. O resultado do paredão desta terça-feira quiçá traga à tona outros debates: falem de feminismo, mas falem de racismo e falta de empatia também.

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