Pandemia de coronavírus

O pior da pandemia no Brasil visto de uma UTI sem leitos disponíveis

Duas enfermeiras que trabalham na linha de frente contra a covid-19 narram seu dia a dia quando o país bate um novo recorde, com mais de 2.800 mortos em 24 horas

Paciente chega a hospital público de Brasília, na segunda-feira.
Paciente chega a hospital público de Brasília, na segunda-feira.EVARISTO SA / AFP

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As UTIs de Foz do Iguaçu (PR) estão tão lotadas que no último fim de semana a prefeitura tentou esvaziar as ruas de uma das principais cidades turísticas do Brasil para conter os contágios. Decretou dois dias de confinamento geral, uma das medidas mais drásticas adotadas no país para aliviar os hospitais no pior momento da pandemia. A enfermeira intensivista Cristina Morceli, de 36 anos, pôde sair porque tinha plantão no hospital público de referência para covid-19 da cidade. “Nossos 70 leitos de UTI estão ocupados. Quando alguém morre ou tem alta, imediatamente entra o próximo”, explica por telefone esta profissional que está na linha de frente da guerra contra o coronavírus há um ano.

“Quem está na fila de espera de uma vaga na UTI aguarda no ambulatório de emergência, alguns até acabam sendo intubados lá”, conta. Tentar mantê-los vivos enquanto fazem fila. Só no Estado de São Paulo, pelo menos 77 pacientes morreram durante a espera, segundo levantamento do site G1 e da TV Globo.

Doze meses depois das primeiras mortes, o Brasil caminha na direção oposta ao do resto do mundo. Aqui, a pandemia está descontrolada. Anunciado na véspera como novo ministro da Saúde —o quarto na pandemia—, o médico Marcelo Queiroga foi recebido nesta terça-feira pelo enésimo recorde: 2.841 mortos e 83.926 novos casos em 24 horas. Aumento vertiginoso enquanto a curva cai com força nos demais países com mais mortes por milhão de habitantes: Estados Unidos, México, Reino Unido e Índia. Na semana passada, 12.000 brasileiros morreram. É sem dúvida o pior momento da pandemia. O Brasil, que começou com a vantagem de ver os erros e acertos da China e da Europa, não soube aproveitar essa experiência. Subestimou a ameaça e agora tem mais de 282.000 mortos e 11,6 milhões de casos acumulados.

A UTI em que Morceli trabalha chegou a ter três pacientes em parada cardíaca ao mesmo tempo. “Eu cuido de oito pacientes, corro o dia todo de um lado para outro”, diz essa profissional cuja unidade foi transformada de um dia para outro em UTI para atender a avalanche de pacientes com coronavírus. Pessoas diferentes das que cuidou na primeira onda. “Este mês as internações aumentaram muito. Os pacientes chegam em estado muito grave. Além disso, é gente jovem, de 30, 40, 50 anos. Acho que são os que tiveram de sair para trabalhar para sobreviver”, aponta. As equipes de saúde têm muito mais dificuldade para mantê-los estáveis do que em relação aos pacientes dos primeiros meses.

Outra vantagem brasileira eram os antecedentes. Soube conter a aids no final do século, tem um robusto sistema de saúde pública e um programa de vacinação que chega até o último rincão do país, quando há doses. Como agora é preciso importá-las, apenas 4% dos 210 milhões de brasileiros receberam a primeira dose. Esse é um dos fatores do coquetel letal. A altamente contagiosa variante brasileira se juntou à política de sabotagem às medidas sanitárias implantada pelo presidente Jair Bolsonaro, ao fracasso na compra de vacinas, aos milhões que precisam sair de casa para ganhar a vida, aos governadores e prefeitos temerosos do alto preço político de adotar as medidas que os epidemiologistas pedem, mas que são impopulares, como o confinamento.

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O desprezo pelas medidas mais básicas é generalizado, mesmo na semana mais letal da pandemia. No sábado, o deputado estadual do Mato Grosso Silvio Antônio Fávero (PSL), que propôs uma lei contra a vacinação obrigatória, morreu de covid-19, aos 54 anos. O jogador de futebol Gabigol, estrela do Flamengo, foi caçado em uma festa clandestina com 300 pessoas na madrugada de domingo. Horas depois, milhares de bolsonaristas se manifestaram em várias cidades contra o confinamento. Muitos sem máscaras e gritando slogans. A pressão de trabalhadores e empresários é enorme. O prefeito do Rio, Eduardo Paes (DEM), afrouxou há alguns dias as restrições para que os vendedores ambulantes voltassem às praias e os restaurantes abrissem até as 21h. São Paulo fechou restaurantes, escolas públicas e igrejas para cultos por duas semanas a partir de segunda-feira, mas as estações continuam lotadas —como as UTIs da capital, inclusive aquelas dos hospitais particulares que atendem aos poderosos de todo o país.

As autoridades se esforçam para abrir novos leitos de UTI enquanto os hospitais recrutam pessoal de saúde. As vagas são anunciadas inclusive nas redes sociais. Mas não basta contratá-los, é preciso treiná-los. E isso é feito às pressas. Depois de um ano de pandemia, enfermeiras, médicos e profissionais de saúde em geral estão exaustos. “Esgotados física e emocionalmente”, diz ao telefone Sandra Valesca Fava, de 50 anos, enfermeira intensivista de uma unidade neonatal em Fortaleza (CE). Com 12 bebês doentes de covid-19, está com 100% de ocupação. “Como a nova cepa afeta pessoas mais jovens, as mulheres em idade fértil e as grávidas estão se contagiando.” E com elas, seus bebês. Mas quando uma vaga é liberada, já não podem atender ali um prematuro ou recém-nascido com problemas cardíacos, que sempre foram a maioria entre seus pacientes, porque correriam risco de contágio. Devem ser encaminhados para a UTI de outros centros. “O sistema ainda não colapsou porque podemos encontrar alguma vaga em outra UTI, mas vemos que isso pode acontecer apesar de todos os nossos esforços para evitá-lo.”

Um dos poucos consolos dessas duas enfermeiras é que estão imunizadas. Embora os profissionais de saúde tenham tido prioridade, suas mortes continuam aumentando no Brasil. Do total de casos, 50.000 eram profissionais de enfermagem (85% mulheres), segundo o Cofen, o conselho federal que os agrupa. Também há 662 entre as pessoas que perderam a vida.

A sobrecarga é tanta que muitos profissionais de saúde estão pedindo aposentadoria ou demissão. E com menos profissionais, o pessoal tem de estender as jornadas de trabalho e fazer todo tipo de malabarismo, como treinar colegas inexperientes enquanto atende pacientes em estado gravíssimo.

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