Pandemia de coronavírus

Na iminência do colapso dos hospitais, São Paulo fica sem plano B para obter leitos contra a covid-19

Hospitais de referência públicos têm situação preocupante enquanto privados já estão sem leitos. Para piorar, agora casos graves de coronavírus disputam vagas com pacientes de outras doenças

Dezenas de pessoas se aglomeram na Estação da Luz nesta sexta-feira, 26 de fevereiro, em São Paulo.
Dezenas de pessoas se aglomeram na Estação da Luz nesta sexta-feira, 26 de fevereiro, em São Paulo.SEBASTIÃO MOREIRA / EFE

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“Estamos fazendo o melhor. Mas tudo tem limite. Recursos, recursos humanos, médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, espaços em UTI para aumentar... Nós temos o risco de colapsar.” O alerta foi dado nesta sexta-feira por Jean Gorinchteyn, secretário da Saúde de São Paulo. O Governo João Doria (PSDB) já admite o pior: em 20 dias o Estado de São Paulo pode assistir a um colapso das redes pública e privada de hospitais caso o ritmo de novas internações por covid-19 em UTIs —hoje de 100 novos pacientes por dia— continue crescendo. Não há plano B caso a estrutura de saúde robusta do Estado mais rico do país não aguente a demanda, já que agora o expediente de ampliar leitos está no limite e os casos graves de coronavírus disputam vagas com pacientes graves de outras doenças. Para piorar, não é apenas São Paulo que flerta com a crise aguda: Estados de todas as regiões enfrentam taxas altíssimas de ocupação dos leitos de atenção especializada.

O Governo mostrou nesta sexta algumas cifras que mostram a evolução do número de internações e dão a dimensão da preocupação. Em 11 de fevereiro, havia 5.982 pessoas internadas em todo o território paulista. Em 25 de fevereiro, duas semanas depois, 6.767 pessoas. Desde 19 de fevereiro o Estado vem batendo recordes diários de pessoas internadas. O último havia sido registrado em julho do ano passado, no pico da primeira onda, quando 6.250 pessoas estiveram internadas no Estado.

A taxa de ocupação de leitos de UTI voltados para a covid-19 atingiu 70,4% em todo o território paulista. Na Grande São Paulo, o índice ficou em 70,8%. Mas os Departamentos Regionais de Saúde (DRS) de Presidente Prudente, Bauru e Araraquara já registram uma taxa de ocupação de leitos de UTI superior a 90%. Nesta última cidade, a ocupação máxima fez com que o prefeito decretasse um rígido lockdown em que até os serviços considerados essenciais encontraram limites de funcionamento.

Em hospitais públicos de referência, a situação é menos pior, mas ainda assim bastante preocupante. No Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, referência no tratamento de covid-19, a taxa de ocupação gira em torno de 80% dos 200 leitos de UTI destacados para o tratamento da doença em suas três unidades, informou ao EL PAÍS a assessoria de imprensa.

Sem margem para aumentar leitos

No Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, 45 leitos de UTI de um total 56 destacados para a covid-19 estão ocupados, uma taxa de cerca de 80% também. “O problema é que estamos no limite de infra e pessoal”, explica o cardiologista Benedito Carlos Maciel, superintendente do hospital. Aumentar o número de vagas em hospitais sempre foi uma das principais medidas de São Paulo, o Estado mais rico e com a maior rede de atenção público e privada. Houve um aumento de 140% do números de leitos de UTI do SUS no território paulista, de 3.500 para 8.500 vagas, além da aquisição de 4.000 respiradores. “As oportunidades de expansão de leitos em todas as regiões são atualizadas continuamente junto aos hospitais estaduais, municipais e filantrópicos, e deflagradas as medidas para ativação”, afirmou o Governo em nota ao EL PAÍS. Mas mesmo essa opção parece estar se esgotando, como indicou o alerta de Gorinchteyn acima. Maciel explica: “Temos outros 40 leitos voltados para outras doenças e que estão lotados. Para abrir mais leitos para a covid-19, vamos ter de tirar desses outros pacientes.”

O médico ainda recorda que, durante a primeira onda da pandemia, pessoas deixaram de fazer exames ou cirurgias eletivas. À medida que o tempo foi passando, algumas condições foram se agravando. “Teríamos que deslocar leitos de pacientes graves, alguns com doenças crônicas, para outros igualmente graves. É uma escolha muito complicada de se fazer, porque quem não está com covid-19 também está em estado grave”, explica o médico.

Outra opção que sempre esteve no horizonte é requisitar leitos da rede privada para serem usados no SUS. Até agora, privados vinham conseguindo atravessar a pandemia de coronavírus sem grandes dificuldades, mas esse caminho também parece estar se esgotando. A ocupação de leitos no Hospital Israelita Albert Einstein, um dos principais centros privados do país, localizado na capital paulista, chegou a 104% nesta sexta-feira. Esta cifra incluí tanto os leitos de UTI como os clínicos, sejam voltados para a covid-19 ou para outros tratamentos. Um total de 141 pessoas estão internadas com a doença. Somente nesta quinta-feira foram internadas 26 pessoas, um recorde. E as pessoas que não conseguem vaga precisam esperar na unidade de Pronto Atendimento até vagar uma cama, informou ao EL PAÍS a assessoria de imprensa. “Está muuuito, muuuito crítico”, afirmou a assessoria.

O Sírio-Libanês, outro hospital privado de referência, contabilizada até quinta-feira à noite uma fila de 22 pessoas que buscavam vaga na UTI para covid-19, informou o colunista Lauro Jardim, do Jornal O Globo. É a maior espera desde o início da pandemia. A UTI possui 50 pacientes com covid-19 e atingiu 100% de sua capacidade. Em leitos de enfermaria estão outros 105 pessoas com covid-19.

Para tentar conter o ritmo de novas internações, Doria vem adotando medidas que especialistas acreditam ser pouco eficazes. Na última quarta-feira, o tucano anunciou um reforço da fiscalização de festas clandestinas e aglomerações, além de um “toque de restrições” entre 23h e 5h entre 26 de fevereiro e 14 de março. Nesta sexta-feira, sua gestão reforçou ainda mais as restrições ao atualizar o Plano São Paulo, política que regula o nível de restrições no Estado.

A Grande São Paulo, por exemplo, passou da fase amarela (terceira mais restritiva) para a laranja (segunda mais restritiva). Já a região de Marília passou da laranja para a vermelha, na qual somente serviços essenciais estão autorizados a funcionar. Assim, oito regiões (76% da população) se encontraram agora na fase laranja, seis regiões (15% da população) na fase vermelha e somente três regiões (9% da população) na amarela. Na laranja, os serviços não essenciais podem funcionar por até 8 horas diárias até no máximo 20h. Na amarela, comércios podem funcionar por até 12 horas até 22h.

O EL PAÍS contactou a Secretaria Estadual da Saúde e a assessoria do Governo estadual perguntando sobre quais outras medidas são estudadas para evitar o colapso, além das já anunciadas. Em resposta, a área da Saúde argumentou que o Governo estadual “tem executado incansavelmente todas as suas atribuições, reiterando sempre a necessidade de colaboração individual e coletiva”. E recordou que neste ano em nenhum momento “foi registrado índice de isolamento social superior a 50%, com registros de 39% e 40% nos últimos dias” —em março e abril de 2020, este indicador chegou a 59%. “O comportamento da população é peça fundamental para redução da transmissão do coronavírus e, consequentemente, para conter o impacto na rede hospitalar”, destacou.

Sobre as vagas abertas em hospitais ao longo da pandemia, o Governo argumentou que “o Estado e municípios hoje se deparam com a ausência do Governo Federal no financiamento de 89% destes leitos”, os quais “continuam ativos mesmo sem habilitação pelo Ministério da Saúde”.

Iminente colapso de norte a sul

O fantasma do colapso também ameaça outros Estados e capitais. De acordo com o último boletim da Fiocruz, com dados de até 22 de fevereiro, as taxas de ocupação de leitos de UTI para covid-19 ainda são muito preocupantes no Norte, semanas depois do colapso da rede de Manaus. Rondônia (97,1%), Acre (88,7%), Amazonas (94,6%) e Roraima (82,2%) estão numa zona de alerta considerada crítica enquanto o Pará (76,0%), Amapá (62,3%) e Tocantins (74,1%) na zona de alerta intermediária.

No Sul, as taxas de ocupação de leitos de UTI também são críticas nos três Estados: até 22 de fevereiro, o Paraná possuía um índice de 91,9%; Santa Catarina, de 93,4%; e o Rio Grande do Sul, de 83,6%. No Centro-Oeste, Goiás e o Distrito Federal se aproximam de uma taxa de ocupação de 90%.

No Nordeste, explica o boletim, Ceará (92,2%) e Pernambuco (85,0%), Rio Grande do Norte (81,4%) e a Bahia (80,2%) também estão na zona de alerta crítica. Em Natal, pacientes já precisam esperar por vagas em ambulâncias. Já o Maranhão (77,7%) e o Piauí (77,2%) permanecem na zona de alerta intermediária junto com Paraíba (62,4%), Alagoas (65,8%) e Sergipe (61,2%).

No Sudeste, todos os Estados rondam uma taxa de ocupação de 70%. “Na primeira onda, as regiões metropolitanas foram as primeiras afetadas. Depois, as cidades médias e as menores. Existia uma hierarquia. Dessa vez, acontece tudo ao mesmo tempo. Chamamos esse fenômeno de sincronicidade”, explica o sanitarista da Fiocruz Christovam Icict. “Partido para as políticas de controle, uma das medidas que deveriam ser adotadas é a de restrição entre cidades. Ceará adotou isso com algum sucesso. Em vários países da Europa e a China, foi possível segurar a pandemia porque se restringiu o transporte entre cidades”, argumenta.

Icict também argumenta que as unidades de atenção primária precisam fazer uma melhor triagem dos pacientes que de fato precisam de hospital. Mas a principal medida a ser adotada para evitar o colapso, assegura ele, ainda é a de restringir a circulação de pessoas e buscar alternativas de renda, como o auxílio emergencial, para trabalhadores informais. “Não é só uma questão de horário, tem que fiscalizar o dia inteiro”, explica o especialista sobre as medidas de toque de recolher que Estados vem adotando nas madrugadas. “São Paulo ainda é mais ou menos organizado. Se uma cidade ao lado fecha o comércio e ao lado abre o comércio, gera fluxo. É preciso ter uma coordenação regional”, explica.

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