Apesar de 2020, tivemos motivos para ficar feliz. Dez boas notícias para o Brasil neste ano terrível

Não foi fácil, mas EL PAÍS selecionou fatos positivos que ocorreram no Brasil em um dos anos mais difíceis para o país. Na lista, avanços na ciência e alguns passos em prol da diversidade

Abilio Nunes, artista do Papai Noel, acena para crianças de dentro de uma bolha, em um shopping de Brasília.
Abilio Nunes, artista do Papai Noel, acena para crianças de dentro de uma bolha, em um shopping de Brasília.Eraldo Peres / AP

Para muitos, 2020 pode soar como o pior dos anos. O mundo e o Brasil se viram rendidos à mais grave crise sanitária do século com a pandemia do coronavírus, que já deixa quase 200.000 mortos no país, além de trazer o receio da pobreza e do desemprego para milhões de famílias. Vivemos o isolamento em casa, tivemos de abrir mão de muitos abraços e até convertemos máscaras em adereço obrigatório, por proteção. Vimos milhares de pessoas adoecerem e autoridades transformarem até templos do futebol em hospitais, enquanto o Governo Federal dava mostras seguidas de negacionismo e descaso.

Apesar de todas as dificuldades, também houve boas notícias no país em meio ao turbilhão. Brasileiros viram a força de sua ciência e do Sistema Único de Saúde. Assistiram ações solidárias multiplicarem-se nas favelas, nas aldeias indígenas, nas cidades, nos corredores de hospitais. Decisões históricas ― como a permissão de doação de sangue por gays e bissexuais ― foram enfim conquistadas. E demos valiosos passos em direção à diversidade. A seguir, a lista do EL PAÍS com as notícias animadoras do Brasil em 2020.

1. Pesquisadores brasileiros decifram o genoma do coronavírus em 48h

Dois dias depois de o Brasil registrar o seu primeiro caso do novo coronavírus, pesquisadores das universidades de São Paulo e Oxford divulgaram a sequência completa do genoma do vírus identificado no paciente. A análise genética indicou que o genoma do vírus do Brasil apresentava diferenças em relação ao genoma de referência obtido na cidade de Wuhan, na China, e era mais próximo ao genoma do vírus identificado em uma paciente na Alemanha. O sequenciamento de várias cepas do coronavírus foi fundamental para restaurar a história da origem e do percurso da pandemia no país. Consequentemente, ajudou a vigiar a chegada do vírus ao Brasil e os grupos iniciais de transmissão local.

2. Um ano de fortalecimento da divulgação científica

A pandemia tem mudado a perspectiva com a qual as pessoas olham para o avanço científico. O ano de 2020 foi marcado por fake news e discursos negacionistas, mas também fortaleceu o movimento de uma legião de cientistas, que têm usado as redes sociais para lutar contra a desinformação e tirar dúvidas dos brasileiros.

3. Voluntários contra a solidão dos “covidários” e na assistência da linha de frente

A solidariedade se multiplicou nos “covidários” do país. Seja por iniciativa de hospitais de campanha ou de ONGs, voluntários viraram pontes e viabilizaram os abraços virtuais para quebrar a solidão dos pacientes com covid-19. Grupos de psicólogos também se tornaram voluntários para prestar apoio psicológico gratuitamente a profissionais de saúde que trabalharam na linha de frente do combate ao coronavírus. As comunidades e favelas do país também se articularam para frear o coronavírus. E, no Xingu, uma aldeia indígena teve médico fixo pela primeira vez. Com a ajuda de pesquisadores e ONGs, a aldeia Ipatse adaptou um aplicativo de celular para rastrear casos suspeitos, criou uma oca de isolamento e contratou equipe para controlar a pandemia.

4. Profissionais viram voluntários de testes em nome da proteção coletiva

Referência mundial pelo seu Plano Nacional de imunizações e com um sistema de saúde robusto, o Brasil se tornou um verdadeiro laboratório para os estudos de vacinas contra o coronavírus. É bem verdade que esta equação inclui o fato de as altas taxas de contágio no país serem “interessantes” para resultados mais rápidos. Mesmo assim, vale incluir no roll de boas notícias a disposição de milhares de profissionais da Saúde, que emprestaram seus corpos para a ciência. “Exerci meu papel de cidadã como um ato de amor. Não tenho medo”, contou uma participante dos testes vacinais, Denise Abranches.

5. Experimento brasileiro deixa paciente livre de HIV e eleva esperança para a cura da AIDS

Um experimento feito pela Universidade Federal de São Paulo foi o primeiro no mundo a obter êxito e deixar um paciente livre do vírus HIV só com o uso de medicamentos. Não se pode afirmar que o paciente foi curado, mas foi um importante passo da ciência brasileira neste sentido. No mundo, uma vacina contra o HIV chegou à última fase de testes pela primeira vez em mais de 10 anos. A vacina foi desenvolvida pela Janssen e utiliza a mesma tecnologia que a farmacêutica utilizou em seu imunizante contra a covid-19: um adenovírus modificado para transportar, até o interior das células do indivíduo, o DNA de suas proteínas mais representativas, de modo que o organismo crie anticorpos contra elas.

6. STF derruba restrição de doação de sangue por LGBTQ+

Em uma decisão histórica, o Supremo Tribunal Federal tornou inconstitucional a proibição de doação de sangue por homossexuais e considerou as regras da Anvisa e do Ministério da Saúde discriminatórias. Há anos, especialistas de saúde no Brasil advogavam pelo fim dessa proibição, por considerá-la improcedente e preconceituosa, um resquício da epidemia do vírus HIV no país. “Em vez de permitir que essas pessoas promovam o bem doando sangue, ele restringe indevidamente a solidariedade baseada no preconceito e na discriminação”, disse o juiz Edson Fachin na ocasião.

7. Um passo à frente por mais diversidade na política

No campo político, o Brasil viu avançarem candidaturas que representam a diversidade. O país bateu recorde de candidaturas trans neste ano de 2020. Foram mais de 270 candidaturas de pessoas trans confirmadas ―em chapas de partidos da esquerda à direita―, mais que o triplo de 2016, quando 89 pessoas trans concorreram. Belo Horizonte, por exemplo, elegeu a sua primeira vereadora trans. Na questão de gênero, a cidade de Três Rios, no Rio de Janeiro, voltou a eleger vereadoras depois de 70 anos de monopólio masculino.

8. Mais visibilidade para mulheres negras

Em um ano que a luta antirracista ganhou maior visibilidade no mundo e no Brasil, jovens se dedicaram a reconstruir a memória de mulheres negras que tiveram suas histórias apagadas no Brasil. O livro ‘Narrativas negras’ traz a biografia de 41 nomes femininos desde a luta contra escravidão.

9. Igualdade salarial entre os melhores jogadores do país

O Brasil também deu um passo na direção da igualdade salarial entre os melhores jogadores do país. As reivindicações das melhores jogadoras de futebol do mundo vão se transformando em mudanças até mesmo num país tão pouco igualitário como o Brasil. Marta e as demais atletas da seleção receberão o mesmo que Neymar e a equipe masculina em diárias e premiações, segundo anunciou em setembro a Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

10. Lives como “refresco” e esperança

O duro 2020 também teve refrescos ― como as inspiradoras lives de Caetano Veloso para um Brasil ansioso, depois de meses assistindo um reality show com fragmentos do cotidiano do músico filmado por uma insistente Paula Lavigne. Caetano, definitivamente,se empenhou na tentativa de animar o país.

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