Pandemia de coronavírus

Abraços virtuais para quebrar a solidão dos ‘covidários’

ONG conecta pacientes isolados em hospitais com parentes e amigos como forma de humanizar o ambiente hospitalar

José Beraldo conversa com a família por videochamada, enquanto estava internado para tratar da covid-19, por meio de um projeto da ImageMágica.
José Beraldo conversa com a família por videochamada, enquanto estava internado para tratar da covid-19, por meio de um projeto da ImageMágica.Paula Poleto

Alívio. Uma felicidade imensa. É assim que pacientes de covid-19 e convalescentes de outras doenças, isolados nos hospitais por conta da pandemia, descrevem a sensação de poder falar com familiares e amigos através de ligações por vídeo e, assim, aliviar a solidão durante o tratamento. Em São Paulo, a ONG ImageMágica, que há 25 anos trabalha em ambientes hospitalares, criou o projeto Conexões do Cuidar, por meio do qual voluntários usam celulares devidamente esterilizados para conectar enfermos e entes queridos.

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“Foi um alívio ver minha família, saber que todos estavam bem, que ninguém estava contaminado”, conta o motorista autônomo José Beraldo, de 56 anos. Ele foi o primeiro paciente com um quadro grave de infecção pelo novo coronavírus a sair com vida do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto. Graças ao projeto, ele, que passou 21 dias na UTI (15 deles entubado), pode falar com as filhas e a namorada. “Isso tirou um peso das minhas costas, porque parecia que minha família e meus amigos tinham me abandonado", acrescenta. Por questões de segurança, alguns centros de referência no combate à covid-19 enviam os boletins médicos dos pacientes para seus familiares por mensagens no celular.

José diz, com convicção, que, apesar de nunca ter sido preso, a experiência com a doença foi pior do que prisão. “A gente fica sem ter notícia daqui de fora e as pessoas também têm pouca informação dos doentes, só têm o prontuário. É um desespero violento”, relata. Ele desconfia que pegou o coronavírus ao acompanhar a mãe, que estava com dengue, em uma clínica. “Nunca tive nenhum problema de saúde. Eu senti uma dorzinha de garganta e muita dor nas costas, só procurei o posto de saúde por insistência da família”, conta. O trajeto do carro até a porta do posto foi o suficiente para que ele ficasse ofegante. Quando fizeram a radiografia do tórax, decidiram encaminhá-lo diretamente para o Hospital das Clínicas. “Só lembro de ouvir o enfermeiro comentar baixinho: 'Nossa, esse aqui está feio”, diz José.

No HC de Ribeirão Preto, todos os pacientes internados ficam isolados, independentemente de seus casos terem a ver com o novo coronavírus ou não. Rodrigo de Souza, funcionário público de 43 anos e diabético, passou 22 dias lá porque, ao sofrer uma hipoglicemia, caiu da escada em casa e bateu a cabeça. Ficou em coma induzido por duas semanas e, quando acordou, pode contar com os voluntários para rever a família. “Foi uma alegria imensa, eu estava com muita saudade da minha esposa e dos meus filhos. Foi um dos dias mais felizes da minha vida!”, conta ele, que recebeu “duas ou três” videochamadas da família.

Rodrigo de Souza, que ficou internado no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, fala com a família em vídeo graças ao projeto Conexões do Cuidar.
Rodrigo de Souza, que ficou internado no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, fala com a família em vídeo graças ao projeto Conexões do Cuidar.Rômulo Chagas (CUSTOM_CREDIT)

Rodrigo diz que o projeto humaniza a experiência hospitalar. “Os enfermeiros e médicos, coitados, ficam na correria e não têm tempo de fazer isso. Mas é uma coisa que deveria formar parte do processo de atenção médica, de cuidado da saúde, porque é um tratamento psicológico para o convalescente”.

O fotógrafo André François, fundador da ImageMágica, realiza há 14 anos um trabalho documental em hospitais. Ele pensou em fazer o projeto depois que equipes médicas relataram que a coisa mais triste que tinham visto nos covidários era o paciente morrer isolado, sem se despedir de seus entes queridos. Além das videochamadas com amigos e familiares, a iniciativa também aproxima os pacientes com os profissionais de saúde que cuidam deles. “Esses trabalhadores usam todo o aparato de proteção, então, muitas vezes, o paciente nem vê os rostos deles, não sabe se é doutor João ou doutora Maria. Por isso, criamos um crachá grande, personalizado, com o nome, uma foto sorrindo e uma frase de afeto escolhida por cada médico e enfermeiro”, conta François. Segundo ele, além de ajudar os convalescentes, a iniciativa simples ajuda a devolver um sentido de identidade para os profissionais de saúde, que deixam de ser apenas um par de olhos atrás de uns óculos e uma máscara.

O projeto Conexões do Cuidar conta com 26 voluntários —todos devidamente treinados e protegidos—, que recebem acompanhamento médico e psicológico. A solidariedade, por mais compensatória, também tem momentos duros. “No segundo dia do projeto, ainda em fase piloto, uma paciente que conectamos para falar com a irmã e o filho faleceu”, lamenta François. Agora, a equipe do ImageMágica treina 20 voluntários médicos e enfermeiros do Hospital das Clínicas de São Paulo que querem dedicar parte de seu tempo a servir de ponte entre doentes e seus entes queridos. “Um dos momentos mais gratificantes foi quando um paciente conseguiu falar, ao mesmo tempo, com 24 parentes e amigos”, lembra o fundador da ONG. É a força do afeto e da empatia em meio ao caos e o medo.

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