Amistoso | Brasil x Argentina

Seleção da CBF: um produto valorizado no exterior, mas em xeque no Brasil

Enquanto turbina as finanças da confederação, amistoso contra a Argentina passa despercebido em meio ao furor das eleições

O técnico Tite participa de confraternização antes de amistoso na Arábia.
O técnico Tite participa de confraternização antes de amistoso na Arábia.Lucas Figueiredo (CBF)

Depois de derrotar adversários frágeis (Estados Unidos, El Salvador e Arábia Saudita), o Brasil volta a enfrentar uma seleção de peso após a Copa do Mundo, mas sem seus maiores craques, incluindo Messi, Di María e Higuaín, e comandada pelo técnico interino Lionel Scaloni. Diante do processo de reestruturação do rival, Tite manteve o habitual tom político ao tentar promover a partida. “Pelo peso das camisas, tem a característica da rivalidade. Não existe amistoso entre Brasil e Argentina.” A primeira derrota do treinador à frente da seleção brasileira foi justamente para os argentinos, em junho do ano passado. Prevendo dificuldades, Tite decidiu não divulgar a escalação antes do jogo. Entretanto, ele deve seguir promovendo testes na equipe que tem Arthur (Barcelona) e Richarlison (Everton) como principais caras novas.

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Por enquanto, fora a ausência de Allan, do Napoli, não há grandes contestações nas escolhas do técnico em busca do time ideal para disputar a Copa América em 2019. As críticas mais contundentes partem de torcedores e cartolas que tiveram nomes importantes de seus clubes convocados em meio às disputas locais, imunes de paralisação em datas-FIFA. Se antes se gabavam de ter representantes na seleção, hoje encaram convocações como um estorvo. Principal jogador da equipe na temporada, o atacante Everton desfalcou o Grêmio no clássico contra o Internacional. A diretoria gremista chegou a ter um pedido de dispensa dos amistosos na Arábia negado pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), mas o jogador acabou cortado por lesão. Em setembro, Flamengo e Cruzeiro precisaram fretar um voo dos Estados para contar com Dedé e Paquetá no primeiro jogo da semifinal da Copa do Brasil. “A CBF não respeita nem a principal competição de mata-mata que organiza. É lamentável que prefiram privilegiar amistosos sem expressão”, protestou o presidente rubro-negro, Eduardo Bandeira de Mello.

Enquanto tem a imagem em xeque no Brasil, tanto pelos fracassos nas últimas Copas como pela crise de representatividade como símbolo do orgulho nacional, fora dele a seleção se mantém valorizada como um produto. Pela terceira vez seguida, a equipe brasileira iniciou o ciclo pós-Mundial com amistosos nos Estados Unidos. Os 23.000 ingressos para o jogo contra a Arábia Saudita se esgotaram em menos de meia hora. Em novembro, na última data-FIFA do ano, já há um confronto previamente agendado com o Uruguai no Emirates Stadium, em Londres. Sede da Pitch International, empresa ligada a um grupo árabe que detém a exclusividade de comercializar os amistosos para a CBF, a capital da Inglaterra se tornou um dos palcos prediletos da seleção, além de servir como ponto de encontro dos jogadores convocados e base de treinamentos.

Por cada amistoso, a Pitch embolsa entre sete e 10 milhões de dólares, dos quais cerca de 3 milhões vão para os cofres da CBF. Mesmo sem contar com a fartura de craques do passado – o último brasileiro eleito melhor do mundo foi Kaká, em 2007 –, a seleção preserva o apelo comercial no exterior, principalmente pela valorização de moedas estrangeiras como dólar e euro em relação ao real. O time canarinho jogou pela última vez no Brasil um ano atrás, quando venceu o Chile por 3 a 0 pelas Eliminatórias sul-americanas, no Allianz Parque. O ingresso mais barato, desconsiderando a meia-entrada, saía por 250 reais. Contra o Paraguai, na Arena Corinthians, havia bilhetes de camarote vendidos por 1.000 reais. Em amistosos na Europa, as entradas mais caras custam menos de 500 reais.

Todos os seis jogos preparatórios que a seleção realizou antes do Mundial da Rússia também foram disputados em solo europeu. Depois da Copa de 2014, o Brasil fez apenas três amistosos em casa, incluindo o último, contra a Colômbia, em janeiro do ano passado, que teve renda destinada à Chapecoense, abalada pelo desastre aéreo no país vizinho. Ao analisar o contrato com a Pitch na CPI do Futebol, o ex-atacante e senador Romário afirmou que “a seleção não é do Brasil, mas sim da CBF”, questionando o excesso de jogos no exterior. “Os amistosos realizados pela CBF não têm nenhum objetivo técnico ou a intenção de melhorar a seleção. O único objetivo é ganhar dinheiro.”

Porém, de acordo com a cúpula do futebol brasileiro, os compromissos são definidos em conjunto com a comissão técnica. O discurso de Tite se alinha ao dos dirigentes. Contra a Arábia Saudita, o treinador enalteceu os “níveis de exigência” do adversário, 70º colocado no ranking da FIFA, e justificou o rendimento abaixo do esperado pela recepção exageradamente amigável em um país que não tem o costume de ser competitivo no futebol, pressionado por denúncias de violação dos direitos humanos que cercam o regime ditadorial saudita.