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O infindável milagre do futebol uruguaio

Nem a eliminação para a França nem a falha de Muslera é capaz de suprimir a admiração que a Celeste desperta por seu brio e postura invejáveis

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Jogadores uruguaios se despedem da Copa após derrota para a França. Getty Images

Quando conheci o ex-presidente Pepe Mujica, no fim do ano passado, em sua chácara na periferia de Montevidéu, ele se mostrou bastante empolgado com a seleção uruguaia. “Nosso futebol é meio milagroso. Somos um país tão pequeno e sempre estamos aí, chegando, chegando...” Apesar da eliminação para a França nas quartas de final, Mujica não exagerava. É realmente um milagre que um país com metade da população da cidade do Rio de Janeiro chegue ao mata-mata de Copa do Mundo pela terceira vez seguida e tenha o melhor ataque, formado por Cavani e Suárez, e a melhor zaga (Giménez e Godín) do mundo, sem contar a genialidade de maestro Tabárez. O Uruguai é pequeno no tamanho, mas gigante no futebol.

Na Rússia, outro feito extraordinário como o Maracanazo, quando levantou a taça pela segunda vez ao desbancar o favorito Brasil, que disputava a final em casa credenciado por goleadas acachapantes e contava com o apoio de 200.000 torcedores, ficou apenas na imaginação da torcida celeste que não parou de cantar no estádio de Nizhny Novgorod. A missão que já seria difícil sem Cavani, machucado, se tornou impossível depois da falha clamorosa do goleiro Muslera, que aceitou o chute de Griezmann e praticamente sepultou as esperanças uruguaias de avançar à sua segunda semifinal nas últimas três Copas. O choro do zagueiro Giménez antes mesmo do fim do jogo era o símbolo do desconsolo de uma geração que, embora não tenha chegado perto de repetir o feito heroico de 50, honra as cores que veste.

Para garimpar tantos craques num lugar com apenas 3,5 milhões de habitantes, melhor per capita de títulos entre os campeões mundiais, é preciso algo mais além de vocação, tradição e o peso da camisa. Assim, surge a figura de Óscar Tabárez, convocado para sua segunda passagem pela Celeste com a missão de não só voltar a montar um time respeitável para os uruguaios, mas também de revigorar a formação de talentos no país. Depois que assumiu o cargo, em 2006, o Uruguai participou de todos os Mundiais e ainda ganhou uma Copa América, sete anos atrás.

Antes de treinador, Tabárez foi professor. Levou os valores que pregava na escola para o futebol. Seguindo seus comandos, os jogadores se habituaram a não deixar pratos e talheres espalhados pela mesa após as refeições, momento sagrado de integração em que o uso de celulares é vedado. Olham nos olhos e cumprimentam cada pessoa que trabalha em torno da Celeste como se fosse um membro da família. Não há estrelas, tampouco privilégios. Na seleção, Cavani se dispõe a atuar mais longe do gol e a se sacrificar como um marcador em nome do time. Essa filosofia de respeito ao trabalho alheio se estende do campo para os vestiários. Me lembro que, na Copa das Confederações de 2013, eu estava em Recife cobrindo a estreia uruguaia contra a Espanha. Errei o caminho e cheguei atrasado à área de entrevistas dos atletas. A maioria deles já havia passado por ali. Gentilmente, o assessor de imprensa Matías Faral perguntou com quais jogadores do Uruguai eu queria falar. Buscou os três, que estavam praticamente dentro do ônibus da delegação na porta do estádio. Em vez de demonstrar irritação pelo inconveniente ou pela derrota, foram solícitos e pacientes, incluindo Luisito Suárez, e só viraram as costas depois que terminei de fazer as perguntas. Uma gentileza incomum no meio.

Por essa postura, o Uruguai sob a batuta de Tabárez deixou de ser tachado somente como um time raçudo e catimbeiro. Agora, concilia técnica e organização com jogo duro, porém, na maioria das vezes, regido pela lealdade. Ao fugir do padrão metódico e pragmático, sucumbiu às próprias falhas diante da França, mas não abandonou o orgulho que carrega em seu escudo. A dura repreensão de Godín em Mbappé, que começou a abusar das firulas depois que o placar marcava 2 a 0 para os franceses, serve de lição ao jovem astro do PSG. Ganhar exige integridade. Perder como o Uruguai perde é quase uma vitória. Como diria Mujica, “os únicos derrotados são os que deixam de lutar”.

Representados pela garra

A Celeste joga o futebol possível, com armas adequadas às limitações. Enfrentá-la é sempre um suplício para os atacantes. Cristiano Ronaldo e Lionel Messi que o digam. Influenciado pela escola italiana, Tabárez nunca imaginou que sua equipe encheria os olhos pela fluidez ofensiva e a capacidade de improviso de seus jogadores. O discurso de humildade está sempre alinhado à necessidade constante de otimizar recursos e, acima de tudo, resistir. “Não sacralizamos a posse de bola. Quando não podemos dominar, é preciso ter força defensiva e comprometimento. Jogamos da forma que o rival nos permite”, explicou o técnico antes de encarar a França. O que faz com que muitos torçam pelo Uruguai, mesmo sem nunca ter pisado lá, é o brio, a entrega que compensa deficiências com incontáveis gotas de suor e perseverança. O assombro de ver o Maestro, portador de uma doença degenerativa, se levantar do banco de reservas com vigor indiferente a seus 71 anos e, apesar das dificuldades motoras, celebrar um gol gritando bem alto: “Uruguai nomás!”.

Torcedora agradece seleção após derrota para os franceses na Copa.
Torcedora agradece seleção após derrota para os franceses na Copa.

Representatividade importa. E não há dúvidas de que, mesmo no revés mais amargo, o uruguaio se sente muito bem representado por sua seleção. Pelo abismo econômico que o separa das outras potências da bola, que afasta seus clubes tradicionais das glórias do passado, que mantém a liga local em flerte contínuo com o amadorismo, o Uruguai é um emblema de resistência que merece ser reverenciado. Seus jogadores atuam nos principais campeonatos do mundo, brigam de igual para igual em torneios de base ou na Copa do Mundo e integram safras de promessas lapidadas pelos 12 anos de trabalho ininterrupto da gestão Tabárez, que lhe garantem ao menos mais uma década de futebol competitivo.

Também me lembro da ocasião em que Diego Lugano, antigo capitão da Celeste, explicou por que a seleção doou parte do prêmio pelo quarto lugar na Copa de 2010 para um fundo de desenvolvimento das categorias de base em seu país. “O futebol tem grande vocação social no Uruguai. A Celeste significa muito para o nosso povo. Nós, jogadores, privilegiados por vestir essa camisa, temos que deixar mais do que uma vitória como legado. Doar parte do prêmio para incentivar o esporte entre os jovens é o mínimo que podemos fazer pelo lugar onde nascemos.” Mujica e a torcida uruguaia, que se veem como um milagre do futebol, estão cobertos de razão. Afinal, em qual país se encontram tantos jogadores entre tão pouca gente, como os baixinhos Nández e Torreira, dispostos a dar um “carrinho” com a cabeça para interceptar contragolpes adversários, a se sacrificar pelos companheiros para seguir “chegando, chegando”, a abrir mão do dinheiro para investir na perpetuação da mística celeste? Uruguai nomás!

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