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Camisa da seleção, o símbolo contaminado por rixas ideológicas e as negociatas dos cartolas

Visto como instrumento político em manifestações, uniforme amarelo enfrenta rejeição após escândalos de corrupção que abateram o país e a CBF

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Manifestantes protestam com camisas da seleção brasileira. Reuters

No carnaval do Rio de Janeiro este ano, a Paraíso do Tuiuti roubou a cena ao apresentar em seu desfile foliões vestidos com o uniforme da seleção brasileira, apelidados pela escola de samba de “manifestoches”. Uma sátira em alusão aos protestos que reuniram milhares de pessoas com a camisa amarela para reivindicar o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Também uma amostra de como o manto do selecionado nacional transcendeu os gramados para se tornar um símbolo político e, consequentemente, em meio ao Fla x Flu ideológico que divide o país desde a última eleição presidencial, ganhar a antipatia de militantes dos governos petistas e grupos de esquerda. Perto da estreia na Copa do Mundo, não é difícil encontrar torcedores dessas vertentes que se recusam a trajar a amarelinha – em casos mais extremos, até mesmo a torcer pela seleção.

Guilherme Pena, de 47 anos, tem todas as camisas que o Brasil usou em Copas no período entre 1978 e 2014. Porém, ele não pretende vestir nenhuma delas durante o Mundial da Rússia. “Vou torcer pra seleção conquistar o hexa, mas não quero correr o risco de ser confundido com paneleiros e ‘manifestoches’. Camisa amarela, agora, eu deixo guardada no armário”, diz o colecionador, que votou em Dilma na eleição passada. “O uniforme da seleção ficou muito atrelado às manifestações de 2015 e 2016”, afirma o sociólogo do futebol e professor da UERJ, Ronaldo Helal. “Ele passou a significar uma adesão aos movimentos de quem se opunha aos governos do PT.”

Para Helal, entretanto, o novo significado não justifica um boicote ao emblema do esporte mais popular do país. “Isso é uma grande bobagem. O verde e o amarelo da camisa são as cores do Brasil, símbolos pátrios. Não faz sentido renegá-los em resposta à sua apropriação por grupos políticos.” O sociólogo pontua que parte da rejeição se deve ainda, em paralelo com os embates ideológicos, aos escândalos de corrupção protagonizados pelos três últimos presidentes da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Tudo começou em 2015, ano que concentrou o maior número de manifestações em verde-amarelo, quando José Maria Marin foi preso em Zurique na operação conhecida como Fifagate. O ex-mandatário da confederação acabou condenado por crimes de lavagem de dinheiro e recebimento de propina em negociações dos direitos de transmissão de torneios.

“Independentemente do posicionamento político, boa parte dos brasileiros diz repugnar todo tipo de prática ilícita. Com os escândalos dos dirigentes, movimentos que supostamente protestavam contra a corrupção levando o escudo da CBF se viram diante de uma contradição”, afirma Helal. No entanto, de acordo com Adriano Codato, coordenador do Observatório de Elites Políticas e Sociais do Brasil e professor de sociologia da UFPR, a repulsa à camisa da seleção não é tão expressiva entre as pessoas que gostam do jogo e tende a se dissipar a partir da estreia brasileira na Copa. “A seleção em campo enverga a camisa da CBF, mas, durante a partida, a simbologia que prevalece é a da excelência no futebol, que tem um efeito mágico sobre o torcedor. Apoiar o time não significa seguir determinada corrente política nem desconsiderar que a entidade que o controla é extremamente corrupta.”

O criador repele a criatura

A primeira Copa em que a seleção usou a camisa amarela foi em 1954, na Suíça. Antes, o escrete nacional jogava com um uniforme branco, que os dirigentes decidiram abandonar depois do trauma do Maracanazo. Assim, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD, atual CBF), em parceria com o jornal Correio da Manhã, promoveu um concurso para escolher a nova vestimenta. Entre mais de 200 candidatos, a vencedora foi a amarelinha criada pelo escritor e desenhista gaúcho, Aldyr Garcia Schlee, que na época ganhou um prêmio em dinheiro e um estágio no Correio.

Porém, aos 83 anos, ele hoje fala com desgosto de sua criação. Contrário ao processo de impeachment de Dilma Rousseff, acusa “movimentos antidemocráticos” de terem se apropriado indevidamente da obra que o marcou como o pai da Canarinho. “Quiseram nos empurrar goela abaixo que a camisa amarela era um símbolo de nacionalidade, de patriotismo”, afirma Schlee, que, curiosamente, pela proximidade da casa em que nasceu com a fronteira, sempre torceu pelo Uruguai. “Quem protestava contra Dilma com a camisa de uma instituição tão corrupta quanto a CBF é ignorante. Isso me revolta. Queria que a seleção usasse uma cor completamente diferente da amarela, para que não me associem mais a ela.”

Por outro lado, quem integrou as manifestações vestido de verde-amarelo alega que a camisa da seleção é um patrimônio do Brasil, não da CBF. A representante de vendas Márcia Botini, por exemplo, participou de dois protestos com o uniforme da seleção na Avenida Paulista, em São Paulo. Entende que não há problema em “lutar por um país melhor” e, ao mesmo tempo, exibir o ícone ligado a uma entidade envolvida em escândalos de corrupção. “A camisa da seleção é muito mais que CBF. Ela representa vários craques que já honraram suas cores, de uma nação pentacampeã do mundo no futebol. Fiquei decepcionada depois do 7 a 1 para a Alemanha, mas vou torcer mais uma vez pelo Brasil na Copa.” Tanto que, além do modelo que a seleção lançou para o Mundial recém-adquirido, ela também promete assistir os jogos com a versão amarela do uniforme do Palmeiras, seu time do coração.

Torcedores críticos da camisa tradicional, seja pelo desgaste político ou pelo escudo da CBF, dão um jeito de cerrar fileiras em prol da seleção sem ter de vestir a amarelinha. Alguns recorrem à cor azul do segundo uniforme brasileiro. Outros vão além, elaborando seus próprios modelitos. É o caso de Luísa dos Anjos, designer mineira de 26 anos, que atendeu pedidos dos amigos de esquerda e produziu 20 camisas com o escudo da CBF, porém na cor vermelha. O sucesso do artigo entre os conhecidos de Uberlândia e na internet fez com que ela cogitasse uma fabricação em larga escala.

A camisa ‘vermelhinha’ do Brasil criada pela designer Luísa dos Anjos.
A camisa ‘vermelhinha’ do Brasil criada pela designer Luísa dos Anjos. DIVULGAÇÃO

Mas, três dias depois da repercussão da obra nas redes sociais, a CBF emitiu uma notificação extrajudicial exigindo que não fosse comercializada nenhuma camisa vermelha com seu escudo. Luísa, então, decidiu usar a criatividade e o improviso. Bolou um escudo alternativo do Brasil, adicionando ainda a irônica etiqueta de produto original: “A única censurada pela...”. Rapidamente, as 700 camisas que produziu sumiram do estoque. Teve de interromper as vendas tamanha a demanda de novos pedidos. Só retomou a distribuição às vésperas da Copa. Cada peça sai por 45 reais. “Percebi que muita gente estava deixando de torcer pela seleção por relacionar a camisa amarela às ideias defendidas por movimentos de direita que a utilizaram em protestos. No meu caso, que sou enlouquecida por Copa do Mundo, vou torcer pro Brasil, mas com a vermelhinha”, diz a designer, orgulhosa de sua criação.

Apesar do alardeado repúdio, a Nike, fornecedora oficial da seleção, informa que a venda de camisas dobrou em comparação com a Copa de 2014. Segundo a Netshoes, loja virtual de materiais esportivos, a comercialização do uniforme brasileiro cresceu 110% entre a última semana de maio e a primeira de junho. O modelo de torcedor custa 250 reais, enquanto a camisa de jogo vale 450. Na estreia deste domingo contra a Suíça, o Brasil entrará em campo com sua indumentária número 1, a contestada e indefectível amarelinha.

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