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O Brasil de Tite, conservador à esquerda e inoperante à direita

Embora prejudicada pela arbitragem contra a Suíça, seleção empaca ao concentrar esperanças nos pés de Neymar. Uma estreia abaixo das expectativas

Brasil Suíça atuação Neymar
Marcelo e Neymar não tiveram a afinidade habitual pela esquerda. EFE

Inegavelmente, o Brasil foi prejudicado por um erro de arbitragem que lhe custou a vitória contra a Suíça. Zuber empurrou Miranda antes de cabecear para o gol, mas o mexicano César Ramos ignorou não só o lance, como também as reclamações dos brasileiros pela consulta ao árbitro de vídeo (VAR). Acontece. Basta lembrar que no último Mundial, a seleção venceu em casa graças a um pênalti mandrake cavado por Fred. Hoje, o time de Tite jogou mais que o adversário da estreia. O que não significa dizer que jogou bem. Nos amistosos antes da Copa do Mundo, era flagrante o quanto a volta de Neymar contribuía para melhorar o desempenho do conjunto. Tanto que em seus piores momentos, o primeiro tempo diante da Croácia, a seleção havia atuado sem o craque, que entrou no segundo tempo e abriu caminho para a vitória. Neste domingo, o que se viu foi uma equipe refém das movimentações de seu principal jogador e carente da harmonia coletiva pregada pelo treinador.

Neymar parece ter um ímã nos pés. Faz o time girar ao seu redor. Isso ajuda a entender por que o lado esquerdo do ataque é o mais acionado para as investidas ao ataque. Porém, sem contar efetivamente com o apoio de Marcelo, que teve trabalho na marcação de Shaqiri, o setor só observou lampejos de dribles e associações em velocidade quando Philippe Coutinho, em baixa rotação no segundo tempo, se aproximava de Neymar. O gol sai de rebatida após uma das poucas chegadas de Marcelo à linha de fundo. Solitário em alguns momentos, o camisa 10, que dessa vez não se provou decisivo, recorreu às jogadas individuais. Abusou delas, como de praxe. E foi caçado pelos suíços, que cometeram 19 faltas no jogo – 10 delas sobre Neymar.

Enquanto a esquerda se mostrava tímida, o lado direito simplesmente não funcionou. Substituto de Daniel Alves, perda irreparável para a seleção, Danilo passou quase todo o tempo recolhido ao labor defensivo. Teve apenas 77 ações bem sucedidas na partida, 40 a menos que Marcelo, que, embora mais sobrecarregado, seguia se destacando mais na construção dos ataques. Willian, que joga mais avançado pela ponta, amargou atuação apagada depois de ter empolgado nos últimos jogos. As raras oportunidades iniciadas na direita surgiam nas vezes em que Neymar se via obrigado a inverter o lado em busca de espaços. No meio-campo, apesar da proteção oferecida por Casemiro, o Brasil era pura desorganização, à procura de um regente que fosse capaz de pôr ordem ao caos. A entrada de Renato Augusto, voltando de lesão, pouco contribuiu nesse sentido.

Na entrevista após a partida, Tite enalteceu a “combinação do lado esquerdo e a inversão de jogadas para o lado direito”. Mas, sem se dar conta, aferia um diagnóstico sobre os gargalos de sua equipe diante da Suíça. Uma esquerda que combinava, mas não finalizava. Uma direita que recebia, mas não produzia. E um meio que dominava, mas não criava. O vacilo da defesa no escanteio, empurrãozinho à parte, puniu o time que foi superior e pecou ao tirar o pé do acelerador quando poderia ter ampliado o placar, sobretudo depois do gol no primeiro tempo. Um empate com sabor amargo. O Brasil não tropeçava em seu primeiro jogo desde a Copa de 1978. Estreias são sempre recheadas de tensão, o que talvez explique a abordagem conservadora pela esquerda, a inoperância da direita e a instabilidade ao precisar sair da zona de conforto para correr atrás do prejuízo forçado pela omissão da arbitragem.

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