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A conscientização sobre a pobreza e a mudança climática, finalmente

Este ano deverá ser lembrado como o ponto de inflexão histórico na luta contra esses dois grandes males

Desenvolvimento urbanístico junto ao deserto, em Cathedral City, Califórnia, em plena seca.
Desenvolvimento urbanístico junto ao deserto, em Cathedral City, Califórnia, em plena seca. NYT

Este ano será lembrado pelos importantes avanços que foram obtidos mediante a cooperação internacional para o enfrentamento de dois desafios basilares de nossa geração: a erradicação da pobreza e a luta contra a mudança climática.

Em julho, países ricos e pobres se reuniram em Adis Abeba (Etiópia) para a Terceira Conferência Internacional sobre Financiamento do Desenvolvimento. Os representantes governamentais admitiram que muito se avançou desde a primeira conferência, realizada em Monterrey (México) em 2002, mas que continuam existindo enormes desafios em muitos lugares do mundo, especialmente na África subsaariana.

Foi muito decepcionante que muitos países ricos não tenham respeitado o compromisso assumido em Monterrey de investir 0,7% de seu Produto Interno Bruto na ajuda internacional aos países pobres. Muito poucos países alcançaram este objetivo, e isso deveria provocar uma grande vergonha aos Governos que não cumpriram a promessa feita aos povos mais pobres do mundo.

Mas no encontro de Adis Abeba tomou-se consciência da escala dos esforços necessários para atingir o objetivo de erradicar a pobreza e a fome, e para se obter um desenvolvimento sustentável mediante o fomento do crescimento econômico inclusivo, da proteção ao meio ambiente e do aumento da inclusão social.

A conscientização coletiva sobre este desafio e o compromisso dos países ricos no sentido de incrementar a ajuda internacional assentaram as bases do acordo alcançado em setembro na Assembleia Geral das Nações Unidas. Os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável para 2030, e um conjunto de 169 propósitos relacionados a eles, pretendem lutar contra a desigualdade, o consumo e as formas de produção insustentáveis, a infraestrutura deficiente e a falta de trabalho digno em todos os países do mundo.

Foi decepcionante que muitos países ricos não tenham respeitado o compromisso assumido em Monterrey de investir 0,7 % de seu PIB na ajuda internacional aos países pobres

Enquanto os diferentes países trabalham duro na elaboração do novo plano de desenvolvimento sustentável, também levam adiante as iniciativas para enfrentar os enormes perigos da mudança climática, completando um processo iniciado há quatro anos em Durban (África do Sul).

Em dezembro de 2011, os Governos concordaram, na reunião anual das Nações Unidas sobre a mudança climática, em trabalhar para alcançar um novo pacto em 2015. Até o fim de 2014, tinham sido produzido avanços lentos, mas este ano era necessário acelerar o processo. Por sorte, alguns acontecimentos contribuíram para que as negociações internacionais chegassem a bom porto.

Em novembro de 2014, o presidente Xi Jinping e o presidente Barack Obama, dirigentes da China e Estados Unidos, respectivamente, que são os maiores emissores de gases de efeito estufa do mundo, assinaram uma declaração conjunta que propunha novos compromissos para reduzir e limitar as emissões anuais a partir de 2020. Isso persuadiu mais de 180 países a se comprometer também, com vistas à reunião das Nações Unidas sobre mudança climática, prevista para dezembro deste ano em Paris.

As negociações entre os diferentes países se aceleraram em maio deste ano, quando o papa Francisco publicou o Laudato Si, sua encíclica sobre o meio ambiente e a ecologia humana. O papa combinava sua avaliação dos aspectos científicos e econômicos com um poderoso argumento moral a favor da luta contra a mudança climática, o que contribuiu para convencer muitos católicos, e sem dúvida a população em geral, sobre a necessidade de tomar medidas urgentes.

Quando chegou o momento de mais de 190 Governos se reunirem na COP21 em Paris, tinha sido gerado um impulso que propiciou um acordo verdadeiramente histórico, adotado em 12 de dezembro, para limitar o aquecimento do planeta muito abaixo dos 2 graus centígrados da temperatura pré-industrial.

Espero que este ano seja lembrado como um ponto de inflexão na história humana, quando se obteve uma vitória crucial na batalha contra a pobreza e a mudança climática

Uma das razões cruciais pelas quais o Acordo de Paris foi possível é que cada vez mais países se deram conta de que, para lutar contra a mudança climática, não é preciso sacrificar o crescimento econômico e o desenvolvimento. A transição para um nível baixo de emissões de carbono nos leva para um caminho de incrementar a qualidade de vida e erradicar a pobreza, que é mais atraente e emocionante que seu predecessor muito daninho, o das elevadas emissões de carbono.

Acredito e espero que este ano seja lembrado no futuro como um ponto de inflexão importante na história humana, quando se conseguiu uma vitória crucial na batalha contra a pobreza e a mudança climática, que trouxe mais prosperidade e bem-estar não só a nós, mas também a nossos filhos, netos e gerações futuras.

Nicholas Sterné presidente do Instituto Grantham de Pesquisa sobre Mudança Climática e Meio Ambiente, da Escola de Ciências Econômicas e Políticas de Londres, e presidente da Academia Britânica.

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